quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013

Me perdi na estrada tentando chegar em lugares que não conhecia, me perdi tentando chegar em lugares que conhecia, mas cheguei. Entrei na academia, sai da academia seis meses depois, bati meu próprio recorde de permanência em academia (repetir isto ano que vem). Sai com os amigos, às vezes bebi, às vezes não, ri, cai. Voltei a estudar, parei de estudar de novo, passei em alguns concursos públicos, não passei em muitos outros. Fui ao médico (ele não era cubano), fiz exames, descobrir que estava saudável, peguei gripe, ops! Não estava tão saudável assim. Decidi tomar suplemento vitamínico, saíram pesquisas dizendo que suplemento vitamínico não tem tanto efeito assim, porcaria.
Voltei a escrever, tive um texto publicado em livro, tive dezenas de textos rejeitados antes disso. Trabalhei (leia novamente 200 vezes). Tirei férias, andei de bicicleta, não me lembro em que esquina perdi meu pulmão. Voltei de férias, fui vigiada, fiquei chateada, comecei a rir sem parar, continuo rindo. Viajei, tirei fotos, conheci pessoas, voltei para casa. Compre sapatos, comprei sapatos, comprei sapatos, comprei sapatos (fazer menos no ano que vem), fiz novos amigos, acabei de afastando de alguns velhos amigos, voltei a me aproximar deles novamente. Tive ótimos momentos em família, outros não tão bons assim.
Fui à festas, fiquei em casa vendo filmes, fiquei em casa lendo livros, li uns oito livros, filmes eu nem contei. Discuti on-line, discuti pessoalmente, algumas vezes pedi desculpas, outras vezes isso nem me passou pela cabeça. Fiquei triste, a TPM passou, fiquei feliz de novo. Brinquei feito criança com uma criança, fui adulta a maior parte do tempo (não esquecer de ser criança quando possível em 2014 também). Perdi o sono, achei. Dei presentes, ganhei presentes. Esqueci aniversários, lembrei meses depois, tentar lembrar na data certa. Fui ao cinema muitas vezes, ao teatro menos, minha carteirinha de estudante vence em 31 de dezembro de 2013, deprimi.
Comecei a usar creme anti-idade, fiquei cheia de espinhas, não era bem isso que eu entendia por rejuvenescer, parei. Passei por uma obra, me cantaram, era isso que eu entendia por rejuvenescer, continuei. Criei um blog, teve centenas de acessos, não morri em nenhum deles, jurei nunca mais fazer trocadilhos sem graça, não consegui.  Recebi elogios, fui criticada, é a vida. Estou esperando 2014 chegar, que venha.
                Resumindo: quando se trata da vida real o Facebook não sabe fazer retrospectiva. Você sim!

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Os dois "Zés"

     Neste país existem dois tipos de Zé: o Zé Falso e o Zé Genoíno. O Zé Falso, se for preso, perde o emprego e muito provavelmente nunca mais conseguirá outro, já o Zé Genoíno ganha a aposentadoria, afinal ele é o Genoíno o outro Zé é apenas uma copia largamente produzida e como tal deve pagar as penas de ser apenas mais um.

    O Zé Falso na cadeia superlotada dividirá a cela com outros "Zés" que apóspassarem pelas grades da penitenciaria passaram a ser o Zé Ninguém, já o Zé Genoíno vai para uma penitenciaria onde o diretor garante não existir o PCC até porque ser extorquido por traficantes é só para as copias, não para ele que é original.

    O Zé Falso se entra na cadeia com uma gripezinha sai dela com pneumonia, o Zé Genoíno vai para casa se tratar, afinal seu coraçãozinho é fraco e precisa de água tratada e gelada para bater feliz.

    O Zé Falso é enfiado em um camburão abafado e quente para ser levado pela estrada esburacada até o presidio, o Zé Genoíno viaja de avião em poltronas confortáveis e com ar refrigerado, sabe como é né ele é Doutor.

    O Zé Falso é um bandido, roubador de galinhas, vagabundo que merece pagar pelos crimes que cometeu seja lá quais forem, já o Zé Genoíno é um Robin Hood às avessas que rouba dos pobres para dar a si mesmo, um herói, o mártir de si.

    Eu sou da família do Zé Falso, ou vulgo Zé Ninguém, sou uma fulana, as vezes "aquela uma", você provavelmente é também, nós somos a regra, a gente que não tem para onde correr, ou anda na linha ou fica sem pernas. Eles são Genoínos, a exceção, são protegidos pois se a raça se extinguir o Zé Falso fica feliz e felicidade não é coisa de Zé Ninguém.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Post-it

             Era uma vez uma pequena e pacata tribo do interior de um dos maiores estados de um dos maiores países do globo, onde aconteceu a historia que vou lhes contar, que não é de conto de fadas nem de monstros (de vampiros talvez), é uma historia de verdade verdadeira daquelas passadas de geração para geração.

           Havia naquela tribo um cacique democrático, que apesar de democrático não deixava de ser cacique, que nos anos impares fazia listas, dessas listas de afazeres sabe? Pois então, era isso que ele fazia, listas para não se perder nas várias obrigações que ele deveria cumprir, afinal a tribo era pequena mas muito tinha a ser feito. Tudo bem que a lista nem era assim tão grande, coube tudo em um Post-it daqueles amarelos, bem amarelos. Era mais ou menos assim:

                 1. Contratar, sem necessidade alguma, muitos e muitos índios até de outras tribos e fazer que eles pensem que também são caciques;

                    2. Pintar da cor do céu, também sem necessidade alguma, as ocas, afinal o céu é o limite;

                    3. Sapatear na Magna Carta, porque carta ta fora de moda, o negócio agora é e-mail;

                  4. Fazer de conta que os índios que fizeram prova para trabalhar não existem e caso algum dê sinal de vida informa-los que não valem muito além que um vintém;

                    5. Tomar um café para relaxar;

                            5.1 Talvez chá dê menos dor de cabeça (pensar nisso depois).





             Quem me contou essa historia foi um senhor já muito idoso em seu leito de morte, e sabe o que mais me surpreendeu? Foi ele saber falar Post-it.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

O advogado do diabo

    Talvez o termo correto seja “A advogadA do diabo” afinal hoje esse papel será representado por mim. Em tempos de manifestações é até perigoso contrariar os que acreditam que estão contrariando o sistema, mas o farei mesmo assim. Não sou contra, nem nunca serei contra as pessoas que lutam pelo seus direitos e tentam mudar essa realidade tão desagradável que vivemos, mas a culpa é mesmo sempre do “sistema”?

    A educação no Brasil é sim bastante deficiente, concordo que deveríamos ter um sistema educacional aos moldes do Europeu ou de qualquer outro de maior qualidade que o nosso, mas proponho uma pergunta: e nossos alunos, eles são alunos com selo Europeu de qualidade? Não é porque o sistema educacional é inferior que os alunos também devam ser, quem quer aprender aprende até com livro encontrado no lixo, aprende na marra, aprende sofrendo, mas aprende. Um sistema educacional ruim não justifica as agressões sofridas por professores em sala de aula, a falta de incentivo para a carreira de professor, falta de estrutura para as escolas, essas sim, são culpa do sistema educacional. 

    O Brasil é um país cheio de problemas estruturais e culturais também. É comum vermos cidadãos reclamando da falta de remédios na rede publica, e com razão, sabemos da peregrinação necessária para se conseguir remédios de uso continuo e até mesmo remédios para uma simples dor muscular, é revoltante, é motivo para indignação sim! Mas é igualmente revoltante ver que quando se encontra remédios nos postos de saúde esses mesmos cidadão que esbravejavam a falta do medicamento saem com sua cartelinha na mão, tomam dois comprimidos e deixam o restante estragar em alguma gaveta em casa. 

    Inundações, ruas que se transformam em rios após cinco minutos de chuva que nem precisa ser assim tão forte, também revoltam, mas aparentemente jogar lixo na rua não revolta tanto. Daí vem a frase: “ aaaah mas se eu não jogar lixo na rua o gari perde o emprego”, ok! Então morre, idiota, para dar emprego para o coveiro – e não é só para o coveiro, tem o cara do mármore, a moça que faz o arranjo de flores, a senhora que limpa os túmulos e por ai vai – Ai a coisa muda de figura, né!? É claro que muda.

    O quadro muda de figura também dependendo do sobrenome da “vitima”, se for um Segall que cai na rua por conta de uma calçada mal conservada, vale um telefonema do prefeito da ex-capital brasileira, matérias em jornais, revistas e TV e de lambuja um processo, mas se for um Silva não vale nem 144 caracteres no Twitter de algum ciberativista indignado. Quando um Colker é barrado na porta de um avião por falta de atestado médico é humilhação e vale um bloco inteiro no “Encontro com Fátima Bernardes”, já um José morrer na sarjeta enquanto o atendente da central do SAMU maltrata um bom samaritano por telefone não vale nem uma matéria de um minuto. Me desculpe, mas isso não é culpa só do sistema, é culpa de pessoas que valorizam o status e não ser humano, essas pessoas viciadas em status não estão assim tão distantes de nós, você é uma dessas pessoas e eu também, ou vai me dizem que você não olha diferente para uma pessoa de terno? 

    Os problemas estruturais do Brasil mudarão assim que os problemas culturais mudarem, assim que cada um perceber que o sistema é feito por pessoas, pessoas que acreditam que o problema esta sempre no outro e não em si mesmos, você e eu. O problema É VOCÊ, SOU EU e é também O OUTRO. Sou a favor de protestos e manifestações, nós temos que gritar e cada vez mais alto, mas a culpa não é só do sistema. Da próxima vez que você for sair às ruas com a mascara de Guy Fawkes, carregue nas mãos um cartaz com sua reivindicação e vista uma camiseta escrito: a culpa é minha também. Como me disse um grande amigo certa vez: não falta amor no mundo, nem paz. O que falta no mundo é coerência.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Depois da meia noite

    Todos nós viramos evangélicos ou lutadores de MMA, pelo menos enquanto a TV estiver ligada. Quem tem dificuldades para pegar no sono e tenta encontra-lo com a televisão ligada, sabe que na madrugada televisiva é fácil encontrar um culto evangélico ou uma reprise de uma luta de MMA esperando pacientemente alguém para lhe fazer companhia.

    Numa dessas madrugadas sem sono, percebi que tenho um pensamento recorrente sempre que assisto alguns minutos de MMA – nunca vejo a luta toda porque acho muito violenta – esse pensamento sempre aparece quando a luta vai para o chão e os dois lutadores se embolam, violentamente, um no outro. Sei que a ideia que me ocorre é ridícula, mas sempre me pego dublando mentalmente o que os dois lutadores poderiam estar dizendo um no ouvido do outro. É obvio que eles não dizem nada, mas na minha mente eles dizem coisas lindas uma para o outro. 

    Durante o “Mata-Leão”, me pego imaginando o dialogo: 

    - Sabe qual minha cor preferida? – leia isso entonação sensual, por favor – a roxa, por isso vou te apertar até você ficar roxinho.

    - Isso! Me estrangula, me tira o ar, me finaliza, me finaliza.

    Como eu não conheço os nomes da maioria dos golpes, costumo inventar outros mais “fofos”, tais como: conchinha invertida, olha aqui o meu joelho, hadouken e holiugen, estes últimos têm inspiração na minha infância e nas tardes que meus primos me obrigavam a tirar o Super Mario e colocar Street Fighter.

    Só para que os lutadores de plantão não se sintam ofendidos, já vou logo avisando que também penso coisas sem muito cabimento quando assisto culto do pastor fazendeiro, imagino se decorar todos os versículos da bíblia, subir num palco e ficar suando feito tampa de marmita, enquanto faço uma interpretação totalmente errada do que esta escrito no livro sagrado, vai me fazer ficar tão rica quanto o tal pastor ou só tão ridícula quanto ele, sotaque caipira eu já tenho só me falta a cara de pau, a fazenda e o chapéu 20X.

    O que fica claro é que depois da meia noite o negocio é dormir, na falta de coisa melhor para fazer, mas caso o sono não compareça borá lá bater uma laje, fazer faxina ou talvez uma laparoscopia, mas nunca, jamais, sob hipótese alguma ligue a televisão.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Melô do Concurseiro

Quando ela vai “estudá”, é muita lei
Código à beça na cabeça, eu nem sei

Quando ela insiste em ler o livro inteiro
Eu jogando Playstation,
Eu vou decorar aquelas coisas,
Mas no hora esqueço

Por que não eu?
Por que não eu?

Eu vou comprar um gabarito ou dois
Se o policia não me prender depois, por que não?
Você ta nessa de concursada, assumindo função
Eu com a cara mais lavada digo “por que não?”

Por que não eu?
Por que não eu?

(Pra ficar mais animadinha, ou menos chatinha você decide, imagine no ritmo de "Por que não eu?" do Kid Abelha, a voz da Paula também contribui bastante)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

De amish, de médico e de louco todo mundo tem um pouco.

   Zapeando a TV como é de costume acabei encontrando um documentário sobre a vida amish, me interessei e fiquei. Os amish vivem em pequenas comunidades rurais, no caso especifico daquele documentário, nos EUA, levam uma vida simples sem energia elétrica, sem automóveis, sem telefones, internet ou radinhos à pilha. Para grandes distancias usam carroças e cavalos, vivem de trabalhos em madeira e da agricultura. São reclusos, convivem apenas na própria comunidade e só tem contato externo quando necessário, se mantêm afastados de nós, os não amish, para se manterem puros pois para eles nossa sociedade é cheia de impurezas. São tão organizados quanto um formigueiro.

   A vida da comunidade se desenvolve segundo as opiniões do pastor, só tomam as decisões que eles acreditam que agradaria ao chefe religioso (ops!, isso rola aqui também), a existência deles é permeada pelo medo de ir para o inferno que de tão propagado se torna praticamente perene, por isso vivem segundo as regras rígidas da religião (2° ops!), não convivem com não amish por medo de serem sujos pelas suas impurezas (3° ops!, ou vai dizer que nós não vivemos em "panelinhas" excluindo quem acreditamos não ser adequado!?), os papeis que cabem às mulheres e aos homens são bem divididos, as mulheres até podem trabalhar no mesmo oficio que os homens porém os homens jamais fazem os trabalhos domésticos, que acabam acumulando para elas (4° ops!), as vestimentas são pasteurizadas, os homens se vestem todos iguais e as mulheres também, se cobrem até os pés com vestidos idênticos (1/2° ops! esse vale meio ponto porque nossa pasteurização muda a cada estação, já a deles vem de séculos).

   As comunidades são estabelecidas, na sua grande maioria, na zona rural de cidades pequenas e muitos amish não conhecem outra cidade que não seja aquela onde nasceu (5° ops!), alguns amish jovens têm vontade de conhecer como se vive fora da sua comunidade mas como esta conduta implica em expulsão, muitos preferem não se rebelar por medo de perder a única verdade que conhecem e consequentemente a família e os poucos amigos (6° ops!).

   O que mais me chamou atenção foi o depoimento de uma jovem amish que dizia preferir viver sem muito contato conosco, os não amish, porque sempre que cruzava com um, nas poucas vezes que ia até a cidade, ouvia cochichos preconceituosos e muitos torciam o nariz para sua irmandade. Depois de ouvir isso senti pena de nós, da nossa brutal falta de respeito, me perdi pensando no quanto deixamos de aprender ao rejeitar tudo o que é diferente. Aquele titulo ali em cima já não sai da minha cabeça.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Interiorrrrr III, a revanche.

     Rá! Para quem acreditou que ela não aconteceria, pois sim, ela aconteceu. Estava eu quietinha no meu canto, quando uma amiga me chamou para ir até o sítio de uma outra amiga que ficava numa cidade vizinha, mais que prontamente eu topei. Peguei o carro, passei na casa dessa minha amiga e fomos para a estrada.

     Como criatura muito “inteligente” que sou, na volta, decidi pegar um atalho por uma estradinha de terra que passa por vários canaviais e uma vila. Como sou uma eximia conhecedora das estradas brasileiras – ri tão alto agora que até eu assustei – pensei que essa brilhante ideia de pegar um atalho não teria mal algum, taí o engano, adivinha o que aconteceu... pois é, me perdi, pra variar.

     Me perdi no canavial? Não, de forma alguma, sou capaz de proeza maior que essa, me perdi na vila. A bendita vila tem umas seis ruas, quatro que circundam a capela e duas que servem uma de entrada e outra de saída, e ainda assim eu consegui não encontrar a saída. Depois de rodar varias vezes pelos mesmos lugares resolvi parar e pedir informação para um senhor que estava sentado na calçada.

     Ele veio todo prestativo – e murchando a barriguinha descamisada – se apoiou na janela do passageiro, enfiou o braço dentro do carro o que obrigou minha amiga a afastar o encosto do banco, olhou bem fundo nos meus olhos, com cara de entendido e apontando disse:

      - “Oia fia”, ta vendo aquela esquina ali, não essa primeira aqui, a outra lá, então, ali do lado direito, opa, esquerdo tem um boteco.

      - Opa, to vendo sim, senhor. 

      - Então “fia”, do lado esquerdo tem um boteco que sempre tem gente, “cê” para lá e pergunta de novo “mode que” eu “num” sei onde fica Palestina não. 

     Se eu disser que comecei a rir será mentira, eu gargalhava, mas gargalhava tanto que desci no bar – lógico que eu fui no bar, eu tinha que sair daquele lugar e chegar em casa, uai – chorando, demorei um tempo pra conseguir falar o que eu queria, mas finalmente consegui a informação que eu precisava e achei o caminho certo. 

     Dessa experiência fica o aprendizado: não é só gente da “capitarrr” que comete bullying contra caipira, caipira também “bulina” caipira. Aoooo mundão véio sem porrrrtera.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

So.lidão?

        “O deserto que atravessei, ninguém me viu passar...” toda vez que ouço essa musica e tom melancólico que ela carrega me pergunto: e alguém vê o deserto? Apenas nós mesmos – e uns poucos, mas muito poucos mesmo, seres iluminados - vemos o deserto que atravessamos até encontrar o Oasis, que esse sim, todos enxergam. É claro que o ideal seria que todos fossemos capazes de ver, e lembrar, do caminho que o outro traçou até encontrar o Oasis só para que ficasse claro que não é fácil para ninguém, mas isso implicaria em um mundo utópico onde as pessoas entregam a declaração do imposto de renda em dia, não se esquecem de pagar a conta da TV e nunca perdem o horário. Mas existe algum pecado nisso? Eu duvido.

          Nós, como seres humanos, somos animais que vivem em comunidade, eu diria bando, comunidade é algo mais profundo que, ainda, não aprendemos a ser, gostamos de compartilhar nossas vidas e experiências e a vida em sociedade nos cai maravilhosamente bem. E de novo: existe algum pecado nisso? Outra vez digo: eu duvido.

         Onde esta o pecado então? Está em atribuir à palavra solidão um peso que não é dela. Todos atravessamos o deserto sozinhos mesmo, é para isso que ele serve, é sozinho que descobrimos o nosso limite, é sozinho que encontramos as respostas. Obá! Vou parar a terapia amanhã, se te ocorreu essa ideia calma, não precisa ser tão radical assim, apesar de acharmos a resposta sozinhos, muitas vezes é necessário encontrar alguém que saiba a pergunta correta a ser feita, e como você vai saber que precisa de alguém que saiba a pergunta certa? Sozinho.

         Sem duvida nenhuma a melhor viagem que fiz até hoje foi sozinha, peguei a mala e fui, voltei para casa um mês depois, seis quilos mais gorda e com tantos amigos que hoje posso sair pelo Brasil a fora e reencontrar um amigo em cada estado do país. Não sou antissocial, adoro sentar num botequinho e rir até chorar com meus amigos, mas aprendi que ter a companhia da Sra.“eu mesma” é, também, muito agradável. Solidão é todo o período que antecede a descoberta do quanto é valioso saber se ouvi, e isso só é possível quando se está sozinho. A companhia é o bônus de quem aprendeu a viver consigo mesmo, a se ouvir e se entender. Nós precisamos entender que pessoas são só pessoas, em qualquer lugar do mundo e em qualquer cultura, pessoas são só pessoas e querem a mesma coisa: atenção, se você for capaz de dar atenção, a si e ao outro, não sobrará espaço para solidão. Seja no banco da praça ou no meio da micareta um “Oi, tudo bem?” já é um começo. Quando uma criança começa a andar apoiada na parede a primeira pergunta que os pais fazem é: quando ela vai aprender a andar sozinha? Acredito que a resposta seja: ao longo da vida.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O cheiro do desperdício

7h15

    O relógio despertou. Como já era automático ela levantou da cama, com os olhos quase fechados percorreu o caminho tão conhecido do quarto até o banheiro, do banheiro até a cozinha, da cozinha até o banheiro novamente e de lá para o carro.

8h00

    Já estava no trabalho e iniciou a rotina de abertura do seu local de labuta que carinhosamente apelidara de "minha biboca".

8h07

    Estava sentada à mesa onde passaria oito horas de um longo dia, computador ligado, ventilador também, e-mails sendo conferidos, Skype pronto para atender a qualquer chamada urgente, ou não. Ansiosamente digitava a senha do Facebook esperando pelos inúmeros sinais de mensagens e avisos, e como também já era natural os inúmeros sinais se resumiam a sem numero algum.

    O dia era mais um semelhante a todos os anteriores, o que sempre mudava era a cor da blusa e o tom do jeans que ela usava, quase como um uniforme, os diálogos também não variavam muito, dependiam muito das necessidades de quem a procurava, cada documento abria espaço para um papo diferente mas tão mecânico quanto o qualquer um deles.

    - Oi, preciso fazer o documento "X", do que eu preciso? – perguntava o cidadão aflito pelo documento que era indispensavelmente necessário para o dia seguinte.

    - CPF, RG, comprovante de residência, certidão de nascimento, duas fotos 3x4 com paletó e gravata. – respondia ela como o vento.

    - O do documento" Y" do que preciso? Perdi o meu há uns quatro anos, sabe, mas meu chefe ta me pedindo pra amanhã, será que rola?

    - Humm, quatro anos né!? Olha, rola ele não rola, mas fica pronto em cinco minutos, já o documento "X" demora um pouco, esse só na daqui umas duas semanas. – diz ela quase como um computador bem programado.

    Sem tirar os olhos da tela do computador onde ela lia o e-mail promocional de um sapato lindo, entregou ao seu interlocutor a lista com todos os documentos necessários e ficou esperando pela volta do que foi até então uma companhia. O período da manhã acabou e ela rapidamente saiu para o almoço e uma hora depois estava de volta à biboca. Após o almoço o tempo seguia sempre mais lentamente, o que se arrastava agora agonizava praticamente imóvel. Mas naquele dia ela estava decidida a não ser tirada do serio, a energia elétrica poderia acabar, o rímel poderia até borrar, mas a pontinha de alegria que ela sentia não seria abalada por nada, a noite prometia.

    Já estava tudo combinado com os amigos, o ponto de encontro e as bebidas que seriam levadas. Ela já tinha separado a bebida, sempre forte, que consumiria na noite e a mantinha carinhosamente imaculada na geladeira, tudo minuciosamente preparado para AQUELA noite.

16h59

    Já estava passando o cadeado no portão.

17h00

    Dentro do carro, seguiu para casa.

17h03

    No sofá de casa ela assistiu o canal de noticias, leu qualquer matéria na revista que passou a semana sobre a mesa de centro, continuou lendo, por mais um capitulo, o livro que descansava na estante esperando para ser terminado.

    Naquele momento parecia que o tempo havia decido correr, talvez para manter o equilíbrio, afinal um dia tem vinte e quatro horas e a lentidão que ele se mantivera ao longo do dia fazia parecer já ter passado umas vinte e três.

19h30

    O banho, o sabonete da loja cara, o xampu recomendado pela cabeleira que dizia ser de uso profissional, os minutos de espera para o condicionador agir, o enxague. Fora do box usou o creme para os cabelos sem enxague, penteou-os com delicadeza, sem tirar o sorriso do rosto, foi para o quarto onde espalhou delicadamente o creme hidratante, também da loja cara, por todo o corpo, secou os cabelos com o secador que pegou emprestado especialmente para aquela noite.

    No guarda roupas retirou a calça e a blusa que havia pensado durante toda a tarde e que combinariam lindamente com o sapato daquele e-mail, mas como o sapato ainda não era seu, e talvez nunca seria, usou a bota nunca usada antes e que também combinava lindamente com a noite fria que fazia lá fora, mas nem o frio a faria perder o equilíbrio, porque aquela noite prometia. Já completamente vestida, ela foi para o espelho fazer a maquiagem que taparia aquelas sardinhas que cismavam em fazer da bochecha dela, sua moradia. De volta ao quarto, ela borrifou o perfume importado que usava apenas em ocasiões especiais, pegou o dinheiro e o celular, passou pela cozinha para pegar a bebida que aguardava seu momento e saiu de casa para encontrar os amigos.

21h30

    Na casa de uma das amigas onde havia combinado de passar para saírem juntas, ela esperou enquanto a amiga procurava por uma calça que abotoasse, o tempo foi passando sem que a tal calça se apresentasse dentre todas as que jaziam penduradas nos cabides, então ela decide tomar uma dose direto da garrafa que trazia dentro de uma sacola plástica e que devia ser alojada num isopor com gelo que a turma já havia separado para aquela noite. Os celulares, dela e da amiga, tocam quase que simultaneamente, é o inesperado se apresentando feliz como uma criança com um brinquedo novo, feliz justamente por não ser esperado.

    Em letras maiúsculas ela leu a mensagem: "a chuva miou tudo, remarcaram para semana que vem". Ela e a amiga começam a ligar para todos da agenda tentando ouvir que não era verdade, mas sim, minutos depois ambas descobrem que era verdade, tudo fora desmarcado, a noite estava arruinada.

    A amiga voltou para o quarto de onde saiu vestida com o pijama, para ela aquilo serviu como o golpe de misericórdia, era a confirmação de que realmente toda a turma estava fazendo o mesmo e para ela restava, apenas, se unir novamente ao amigos e fazer o mesmo.

22h00

    Ela chegou em casa onde encontrou a Pequena, o segundo ente mais novo da família, que a recebeu com um abraço e um pedido de colinho. Alguns chamegos depois, as duas sentadas no sofá assistindo TV a Pequena, que é o primeiro ente mais atencioso da família, perguntou:

- Nossa que “cherosa” que “ce” tá, que “chero” é esse?

- Esse cheiro!? É desperdício Pequena, esse é o cheiro do desperdício.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Diário de uma bêbada, parte II.

       Olááá criançada, cá estou eu novamente - depois de errar a senha do note duas vezes - achei que seria mais rápido, mas até que demorei pra voltar. Depois de algumas tequilas (5) e uma ou outra dose de vodka de baunilha (2) chegueiiii! O horário não vem ao caso, nunca me apeguei a detalhes (mentiraaaaa!) mas que não vem ao caso, não vem mesmo. O esquema é o mesmo vou seguir a filosofia popular e só vou postar isso aqui quando estiver sóbria. 

       A grande novidade é que descobri que sou uma E.T., isso mesmo uma Extra Terrestre, se não for isso não sei explicar o que é, só sei que o fato é que, diante do que eu venho vendo ao longo dos anos, eu devo ser a única pessoa que se empolga ouvindo Djavan, quando ouço ele cantando eu grito a musica junto de uma forma que quem me vê deve achar que eu to louca, porque sim eu canto Samurai aos berros e para as outras pessoas que dançam quadradinho de 8 (ô conta mal feita) isso deve ser o cumulo. 

       Uma coisa eu posso afirmar: se o Djavan aparecesse na minha frente agora e me pedisse em casamento eu casava na hora, sem medo de ser feliz, imagina ele cantando "Pétala" pra mim toda manhã que lindo. Agora para e imagina o Luan Santana cantando "Meteoro da Paixão" as cinco da matina, vê se isso não é caso de pedir uma chuva de meteoro na cabeça desse gurizinho só pra garantir que ele nunca mais abra a boca. 

       Você descobre que esta velha quando vê um bando de gente juntando a cabeça pra tirar foto e percebe o quanto isso é ridículo só depois de já ter feito isso varias vezes durantes anos e achava que era super fofo. Se tirar foto e postar no Facebook era legal e hoje você reza pra nenhuma foto sua aparecer no Face do vizinho, na boa você descobriu o quanto é bom passar despercebido e você só descobre isso depois de ficar velho. 

       Hoje redescobrir o calor dos braços de Zezinho, até então eu só havia experimentado nas noites já bem quentes e tão naturais daqui, o friozinho do inverno manso dessa região não significa nada diante de José, enquanto as novinhas aspirantes à família Surfistinha tremiam de frio, eu sorria de orelha a orelha ao lado de José, como ele me deixa simpática, amável e boa dançarina, com ele enxergo mais longe até com os olhos quase fechados, nos seus braços eu sou só sorrisos. Não me importo se você é Gold ou Silver (não sou racista), feito de Agave Azul reposado em barris de carvalho ou feito de arroz agitado em garrafa de plástico, para mim você sempre será Especial. Te quiero mi chiquito, muy hermoso, obrigada José Cuervo. (uruuu bêbeda eu viro poliglota)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Não gosto muito de você, oncinha.

       Não quero ofender nenhuma ONG protetora dos animais, nem algum fã de Caetano Veloso, pelo trocadilho, até porque o texto não se trata disso – apesar de saber que no final alguém acabará ofendido – o assunto principal aqui é outra coisa, um tanto mais intima, eu diria, do que cantar: “Gosto de ficar ao sol, leãozinho; de molhar minha juba, de estar perto de você, e entrar numa” ao pé do ouvido. Estou aqui para falar de roupa intima, mais especificamente de roupa intima com estampa de animais.


      Há quem diga que é extremamente sexy, ok! Pode até ser mesmo, pra onça. Imagino que lá no meio da floresta amazônica, deitado sob a sombra de uma grande árvore, o senhor onça macho fique excitadíssimo vendo a senhora onça se aproximar lentamente enquanto solta o seu rugido sensual. Ponto. Isso é o máximo de sensualidade que eu consigo imaginar envolvendo animais e suas estampas. Nunca consegui comprar roupas intimas com estampas de onça, zebra, cobra, papagaio ou periquito, para falar a verdade nem sapato com forro de estampa de bicho eu consigo comprar, quando olho para peças com essas estampas a primeira coisa que me vem à mente é: núcleo economicamente desfavorecido da novela das oito (o termo em itálico lê-se: pobre, mas leia sussurrado, os politicamente corretos estão à espreita).

      Não importa se é de grife, se é cravejado de cristais Swarovski ou se custa mais caro do que meu rim no mercado negro, eu olho uma estampa de bicho e vejo o núcleo B das novelas da Gloria Peres. Uma vez até tentei comprar uma blusinha de oncinha, mas assim que me olhei no espelho me senti pronta para gritar: Valdysneyson, vem cá! Tirei a blusa na hora e fiquei só com o meu tradicional pretinho básico.

        Acredito que as pessoas devam usar as roupas que as façam bem, não importa se a estampa é de onça, de flor ou se nem tiver estampa, em se tratando de vestuário o importante é você se sentir bonita e confortável – se essas duas palavras puderem andar juntas, melhor ainda – eu me sinto bem deixando apenas os animais usarem suas estampas, nunca vi alguém usar uma estampa de onça melhor do que a própria onça, sem contar que tenho medo de gritar Valdysneyson outra vez e alguém responder: “Chamou!? Seu tigrão chegou.”

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Programão de família


Ontem foi o dia da mulher mais importante na vida de qualquer pessoa – mesmo para os pseudo garanhões que adoram afirmar aos amigos que têm varias mulheres, acredite a única que sempre abrirá a porta para você é a sua mãe, portanto pare de gastar saliva com historias que seus coleguinhas estão cansados de saber que são mentiras e empregue mais tempo tentando agradar quem te achou lindo quando você estava todo sujo de sangue e placenta, vai por mim,  se ela te achava lindo naquela situação ela, no mínimo, merece respeito -  dia das mães é todo dia diriam muitos e eu concordo. Mas como nós, meros seres humanos, sempre precisamos de uma forcinha para lembrar o que é importante, instituir o segundo domingo do mês de maio como o dia das mães foi uma bela ideia, pelo menos assim todas elas recebem a atenção que merecem em casa e também fora dela – sem contar que os publicitários agradecem.

Dia das mães na maioria das famílias é o dia do churrasco na casa da avó, o dia que todos os primos se encontram e aproveitam a proximidade para provocar uns aos outros, o dia que o bebezinho da família vira a bandeja de doações da igreja e fica passando de mão em mão, é o dia em que esse mesmo bebezinho come o equivalente a uma semana porque todos querem dar de comer ao pequeno serzinho. Na minha família não é diferente e ontem não foi diferente.

Enquanto o almoço não saía, eu tentando não ficar com o cabelo cheirando a fumaça da churrasqueira, fui para a sala ver televisão. Quando liguei o aparelho a sala foi tomada pelas batidas do Funk, só não cai de costas porque já estava sentada, fiquei uns minutos na frente da TV esperando para ver o que viria depois – esse foi o meu erro – quando a musica acabou apareceram: a mãe do MC, o irmão do MC, a irmã do MC, a sobrinha do MC e o apresentador tentando apelar para o emocional, começou a falar da vida sofrida da família MC, desliguei a televisão e fui para fora compartilhar aquela fumaça de churrasco com o restante da família.

Umas duas horas depois, voltei para sala e liguei a TV outra vez, e lá estava outro MC, dessa vez uma mulher cantando que se o namorado a traísse ela sairia com o melhor amigo dele e depois contaria pra todo mundo, dessa vez nem esperei para ver o que aconteceria depois, desliguei a TV e fui me defumar junto à churrasqueira.

 Ainda há quem diga que a TV brasileira não proporciona bons programas aos telespectadores, eu discordo. Meu programa de dia das mãe foi muito melhor graças a TV brasileira, graças a falta de qualidade da programação dominical pude passar mais tempo com minha família, ri horas sem parar das bobeiras que falamos, comi sem culpa, falei porcaria e pude passar mais tempo com gente de verdade. Isso para mim é programação de qualidade. Quanto ao cheiro de churrasco, bom, esse saiu no banho. Quanto à TV, bem, essa eu só não queimo porque custou dinheiro e eu ainda não estou louca o suficiente para queimar dinheiro, mas ainda tenho lucidez suficiente para reconhecer o que é bom ou ruim, por isso agradeço a TV aberta por ter uma programação tão ruim a ponto de me repelir da sala e me permitir compartilhar de dias únicos com minha família, eles sim sabem o que é uma boa programação.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Vento


O vento pode atingir velocidades impossíveis ao seres humanos. Pode estar presente em vários lugares ao mesmo tempo, pode ser sentido por todos. Pode ser arrasador quando necessário e também companheiro quando, aparentemente, só resta a solidão e é nesses momentos que ele se torna visível, quando os olhos estão fechados e ele nos toca fazendo os sentimentos arrepiarem a pele e assim vemos em seus braços as lembranças que acalentam e mostram que nem tudo é escuro que o fim só existe quando os olhos fecham e vento não é mais sentido. Seres falhos, fracos sempre precisando ser lembrados de que somos quase nada diante da grandiosidade dos ventos presentes em todos os lugares secando as lagrimas de todos que se permitem sentir, ele é capaz de fazer coisas que nós não podemos pelo simples motivos de sermos humanos.

(Esse pequeno texto foi escrito na minha época de escola, só postei porque o encontrei perdido, e sozinho, em uma pasta sem nome no meu HD externo. Ahhh essas crianças...)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Diário de uma bêbada, parte I


Boa noite queridos leitores, que poderão estar lendo isto durante o dia, como diz o ditado pra lá de contemporâneo: nunca post nada bêbado. Prometo só postar isto quando eu estiver sóbria e após passar o corretor ortográfico. Como diz o titulo eu estou bêbada e a pergunta que não quer calar é: você esta bêbada de verdade? A resposta é: SIM!!!!!  Acabei de chegar de uma festa de casamento e agora to assistindo a reprise do globo de ouro, não sei se é o álcool ou a idade que já ta pesando, mas to quase entrando em depressão porque to conseguindo cantar todas as musicas do programa.  Só pra constar, o casamento foi lindo e o bolo tava delicioso, assim como o DJ.

            Hoje notei coisas incríveis:

1. Nem todo mundo que sorri e acena esta sorrindo e acenando pra você, portanto, contenha essa mão que insiste em balançar no ar em retribuição.

2. A Angélica ta cantando agora e eu to cantando também, vou de taxiiiiiii, cê sabeeeeee, uruuuuu, tchuruu tchuruuuuuuu.

3. Já consegui por o pijama mas o cabelo eu não vou desfazer até amanha,  por quê? Porque paguei por ele e vou usufruir até a ultimo fio de cabelo penteado.

4. To rindo horrores da forma como estou escrevendo, ta tudo errado e ainda assim eu entendo.

5. Whisky é ruim, mas com guaraná e gelo tudo desce suave.

6. A palavra pé perde totalmente o significado quando você passa 4 horas se equilibrando num salto de 8 centímetros.

6. Com 8 centímetros a mais eu fico com mais de 1, 80 m, o que me deixa parecida com um travesti.

7. Acabei de ver que repeti o numero 6 mas o Fabio Jr. começou a cantar “caça e caçador” e como estou cantando junto não vou voltar  e apagar o que errei.

8. A Claudia Raia era horrível na década de 80, o que me faz pensar que daqui a uns 30 anos eu posso estar gostosona, mas duvido, ela é atriz da globo e eu ou Funcionária Pública o que implica em milhares de reais a menos na conta.

9. Vou fazer xixi pela enésima vez.

10. Oi voltei. Acabei de lembra que chinelo Havainas significa a mesma coisa que orgasmos múltiplos após 4 horas em cima de um salto de 8 cm.

11. Depois de uma festa toda mulher parece um panda, o que faz pensar: será que eu também  to em extinção?

 12. Disseram que eu fiquei linda de trança, ao passo que eu respondi: onde eu acho guaraná? Sim, esta foi a resposta errada.

13. Todo banheiro feminino deveria ter uma privada autolimpante.

14. A bateria de um laptop dura menos que a bateria de um bebum.

15.  Solucei, traduzindo: boa noite.

Ps. Tenho certeza que vou pensar três mil vezes antes de postar isso amanhã.
Pps. Eu penso muito antes de fazer as coisas quando estou sóbria.
Ppps. Eu deveria viver bêbada?
Pppps. Não! Eu deveria pensar menos.
Ppppps. Uauuuu, isso foi uma epifania.


(Nota do dia seguinte: eu estava certa, pensei várias vezes antes de decidir postar este texto)

sexta-feira, 26 de abril de 2013

10 coisas que aprendi com as crianças



1. Quando você diz: “não pise no banco do carro”, elas entendem: “sapateie no banco do carro, meu anjo”.

2. Não importa o quanto elas digam que estão com fome, quando abrirem o McLanche Feliz e pegarem o brinquedo, a fome passará instantaneamente.

3. Elas conhecem as técnicas mais curiosas para acordar os adultos.

4. Você aprenderá a fingir que esta dormindo só para que ela te acorde.

5. Nunca deixe uma criança assistindo os comerciais dos programas infantis.

6. Para fazer um desenho, nenhuma folha de papel é mais atraente do que suas pernas, braços e barriga.

7. O primeiro dia de aula é sempre mais traumático para você.

8. Você só vai aprender o significado da sentença “se acalme” quando elas se aconchegarem, silenciosamente, no seu colo quando você estiver distraída.

9. Quando estivem sentadas nos seus ombros elas sempre dirão: “aqui é muito alto”, mesmo que você só tenha um metro e meio, ao passo que você responderá: “tire a mão dos meus olhos, não vou te deixar cair”.

10. Elas detectam tristeza como um radar, é nessas horas que elas dizem:  “vem brincar comigo, eu deixo você ganhar dessa vez”.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Interiorrrrrrrrrrr II


Já escrevi sobre o interior uma vez, mas quem mora em cidade pequena, como eu, sabe que as situações vividas por nós ao sairmos do interior são praticamente infinitas e hilárias – uns dez minutos depois, ou menos,  do ocorrido vira motivo de  riso pelo resto da vida –  não é que não saibamos nos comportar ou qualquer coisa do gênero, mas tenho a teoria de que nossa presença desequilibra o psicológico de quem se considera um ser metropolitano, porque só isso explica a mudança de comportamento deles assim que descobrem que vivemos no interior.
Para exemplificar minha teoria, segue o que me aconteceu uma vez: enquanto conversava com um grupo de amigos na “cidade grande” me lembrei que precisava de dinheiro, como não morava no local pedi que me indicassem onde ficava o caixa eletrônico mais próximo. Coisa simples não é? Seria, caso não fosse, eu, uma moradora de cidade pequena. A resposta que eu esperava era uma indicação de onde ficava o caixa, mas o que eu recebi foi muito mais profundo, uma amiga começou a me explicar que para usar o caixa eletrônico eu precisava do cartão e da senha e que eu deveria fazer a operação o mais rápido possível porque era muito perigoso. Acho que a cara de inconformada que eu fazia – penso que talvez eu tenha começado a babar –  enquanto ouvia as explicações comovia cada vez mais a criatura que insistia em me explicar sobre o funcionamento do caixa, cada vez com mais detalhes, chegando até a me dizer que eu não poderia dar a minha senha para ninguém.
Ok, entendo a boa intenção, mas caipira vive em cidade pequena, não na lua. Tudo bem que para falar a frase “a porrrrta do corrrrrsa é verrrrrde” nós levamos mais tempo do que alguém que a diz com apenas um “r” em cada palavra, mas o nosso excesso de erres não implica numa menor quantidade de neurônios. Uma vez ouvi dizer que os gagos não gostam que completem a frase que eles estão falando, portanto segue a dica: trate um caipira como um gago, não ensine o que ele não esta te perguntando.
Mais recentemente fui à uma reunião regional – atente para a palavra regional – do local onde trabalho, talvez seja interessante dizer que eu trabalho numa Junta Militar, sendo assim havia muitos militares na reunião. Depois de duas horas ouvindo o palestrante falar, falar e falar, tivemos uma pequena pausa que eu aproveitei para andar pelo salão na tentativa de reencontrar a sensibilidade na minha bunda, que naquela altura do campeonato já estava dormente. Pelo caminho encontrei uma senhora que me abordou e perguntou de onde eu era, quando respondi pensei que a mulher fosse ter um ataque do coração, ela arregalou os olhos e perguntou:

- Palestina!? Meu Deus, que é isso?

Sim, ela disse “que é isso” e não “onde é isso” imagino que ela deve ter pensado que eu iria acionar uma bomba ou sair correndo pelada e gritando “libertem a Palestina em nome de Allah”, sei lá, tudo é possível numa mente desesperada como a dela aparentou ter ficado quando ouviu o nome Palestina. Confesso que dessa vez não consegui segurar o riso, mas disse à ela que era uma cidade na região e depois de praticamente passar as coordenadas geográficas e assegura-la de que se tratava de uma cidade no Brasil, voltei ao meu lugar para mais uma hora de palestra com a bunda ainda dormente, mas com o bom humor fresquinho. Posso afirmar que não me lembro de quase nada da ultima hora da palestra, já que fiquei rindo sozinha ao imaginar tudo o que deve ter passado pela cabeça daquela senhora, será que ela imaginou que eu fosse uma espiã infiltrada no exercito brasileiro? Será que eu queria sequestrar algum Coronel em nome da "causa palestina"? Não sei, mas cada vez tenho mais certeza de que a gente sai do interior, mas o interior não sai da gente – e como isso é bom!

terça-feira, 9 de abril de 2013

Collor e o Facebook

Não, isto aqui não se trata de um tutorial sobre como trocar a cor do Facebook. Mas creio que o assunto não deixe de ser um vírus, assim como a promessa de troca da cor da rede social. Com o advento do nosso mais novo amiguinho de infância o “Face”, todos nós – me incluo nessa também, afinal, divulgo o que escrevo no Facebook – passamos a ter mais visibilidade, eu diria, não só da nossa vida mas também do importante que tudo: a vida do outro. Quem tinha algo a dizer mas não sabia onde ou como, encontrou no Face o lugar perfeito para expor suas ideias, já quem não tinha muito a dizer também. Essa ferramenta virtual incutiu em seus usuários um certo vírus do  “pseudo-ativismo”.
            Atualmente vemos uma enxurrada de postagens sobre Feliciano, que veio a afogar a anterior enxurrada Renan Calheiros. O que elas tem em comum? O vírus do pseudo-ativismo. Ele vem contaminando a todos sem distinção de raça, cor, credo ou gênero. Hoje todos amam os animais e a natureza, protegem as crianças e as mulheres, fazem valer seus direitos de cidadão e lutam pela igualdade em todo os seus sentidos, todos se transformaram em ativistas das quatro paredes, defendem o que acreditam e acreditam no que defendem com todas as forças, mas só quando estão conectados ao Facebook e à falsa proteção que acreditam ter na internet.
            Dar a fotografia, que nem precisa ser verdadeira, à tapa é muito mais fácil do que dar a cara, propriamente dita, à tapa ao defender um ponto de vista e uma posição política, por isso é tão cômodo se deixar tomar pelo vírus do pseudo-ativismo. Em 1992 os caras-pintadas foram os protagonistas de um marco da historia não só do Brasil mas de toda a America Latina, foram aquelas pessoas que saíram às ruas com os rostos pintados e defendendo o que acreditavam ser certo, que pressionaram o governo pelo Impeachment do então presidente Fernando Collor. Mas o que isso tem a ver com o Facebook e o pseudo-ativismo? A resposta é: Tudo. Collor deu um azar sem fim em não ter, naquela época, o Facebook como aliado, neste caso os caras-pintadas não teriam existido e nós teríamos ficado em casa sentados na frente do computador, postando frases de efeito e aguardando, pacientemente, que ele se comovesse e renunciasse à presidência. Assim ele teria cumprido os quatro anos de mandato sem maiores problemas, quiçá seria reeleito. O máximo que nós faríamos, se em 1992 existisse o Facebook seria, talvez, trocar a foto de perfil por uma imagem da bandeira do Brasil e nada mais, seria o vírus do pseudo-ativismo agindo e nos fazendo pensar que éramos cidadãos conscientes.
            Para a sorte dos políticos é que tanto no mundo virtual quanto no mundo real nós temos memória curta e o Collor segue com sua vida política praticamente inabalada, sendo senador por Alagoas, já para o Feliciano é só questão de tempo para que outro movimento virtual surja e ele seja esquecido assim como Renan Calheiros foi.
            Para a sorte dos caras-pintadas o pseudo-ativismo é doença novinha, o mal do século XXI, graças a isso eles entraram para a historia e têm historia para contar. Quanto a nós que já fomos infectados pelo pseudo-ativismo, bem, acho que nosso fim será deprimente, estamos condenados a marcar marchas pela cidadania – fora do mundo virtual, sabe, aquelas onde as pessoas se reúnem e fazem barulho de verdade, dizem do que pensam e se mostram, lembra o que é isso? Mundo real? – que contarão com alguns poucos gatos pingados, praticamente sem força alguma. A cura para essa doença todos nós conhecemos, mas o problema é que fora das quatro paredes, lá no mundo não virtual, onde a vida acontece, não tem ar condicionado e não dá para baixar um filminho ao mesmo tempo.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Hashtag


#Fotonabalada, #emfamília, #comosamigos, #segurandocrianças. #Todasaslegendas #defotos #propositalmente #posadaspara o #Facebook, #Twitter ou #Instagram  #vemcom uma #hashtag, #muitasvezes uma #hashtagdemetro, #quaseininteligível que #levamosmais #tempotentando #traduzi-la #doque #visualizandoafotografia.

            Atualmente até o “bom dia” esta ficando piegas e demasiadamente longo. É um tal de  #migas, #morzinho, #BFF, #prontofalei, #amomiguxas, #amoreterno, #forevererverever, #semvcsnaosouniguem, #aiquebaladaboa, #tenhosentimentos, #seiusarosfiltrosdoinstagram, #malusinha, #piriguetetete, #boatedamoda, #usoroupademarca, #bebovodkacara, #vivodemesada, #reproveiemportugues, #maspasseiemeducacaofisica, #queroserfamosananet, #escrevoerradosemperceber, #masfinjoqfoidepropositopqnanetpode, e finalmente vem o “bom dia” seguido de uma foto de paisagem com o filtro sépia.

            Depois que fotografia perdeu o caráter de ser um objeto para eternizar bons momentos e virou forma de mostrar status as pessoas ficaram mais vazias, consequentemente as atitudes também se esvaziaram. Não é porque você esta comendo num restaurante da moda que precisa fotografar o prato e postar na internet, vai por mim, tem revistas de culinária que fazem isso e o fazem muito bem, melhor que seu celular de ultima geração cheios de filtros bacaninhas. Não é porque você sabe usar todos os filtros do Instagram que sua fotografia virou objeto de arte - #ficaadica - ela apenas ficou igual a todas as outras fotos que milhares de pessoas tiram usando o mesmo aplicativo ou outro semelhante.

            Todos nós sabemos que tirar um mês de férias é o orgasmos para quem trabalha outros onze meses consecutivos, portanto, ninguém precisa interromper suas tão esperadas férias para postar no Facebook o quanto ela esta sendo deliciosa, se esta tão boa assim aproveite-a, seus amigos não ficaram magoados se você contar tudo o que aconteceu quando voltar para casa e não enquanto estiver acontecendo.

            Ser “curtido”, na minha adolescência, era receber um convite pessoalmente e feito a mão pelo dono da festa, ter um caderno de “enquete” cheio de assinaturas ou ter uma foto revelada e colada na parede do quarto de algum amigo – veja só a palavra “quarto”, um lugar onde só algumas pessoas veriam a fotografia. Isso era feito porque as pessoas sentiam vontade de ter você por perto e não porque queriam mostrar ao mundo como são descoladas.

            É claro que a internet tem seu mérito, isso é inquestionável, ela aproxima as pessoas que pelo fluir natural da vida acabaram se distanciando e em outros tempos talvez não se encontrassem mais, sem contar o acesso à informação e todas as outras grandes mudanças que ela nos proporcionou, nada é só bom ou só ruim. Nós só não podemos esquecer o quanto é bom receber algo escrito a mão, seja um bilhete ou uma carta, fazer um elogio cara a cara é ainda mais saboroso do que curtir um post qualquer. Não existe hashtag alguma que substitua a sensação de olhar diretamente nos olhos de alguém.
               #prontofaleificaadicarecalcadaavidaémelhorforadocomputadoreescreverassimnãotefazmaisdescoladasómaisumachataduvidoquealguémconsigaentendertudooquetaescritoaquisemperderofolegoouapacienciaviusócomoissoéchato.            

terça-feira, 2 de abril de 2013

Culote

             Se fosse bom não começava com a silaba que começa. Acho que essa frase já resume bem o sentimento que todas temos quando ouvimos essa famigerada palavra, que causa mais estragos no psicológico do que um: “só parcelamos em três vezes”. É do culote a culpa por aquele vestido lindo que a sua vizinha usa, parecer uma capa de galão de vinte litros de água em você, sem contar aquele short maravilhoso que estava no manequim da loja, que ao ser abotoado no provador faz nascer em você a clara sensação de que você se metamorfoseou em uma pamonha que esta sendo amarrada, fortemente, ao meio.

         E não é que em 2013 os astros se uniram numa conspiração interplanetária pela proliferação dos culotes, e o dia da mentira caiu bem na segunda feira pós páscoa. Agora o tal “começo o regime na segunda” perdeu todo o potencial consolador para se tornar uma mentira reconhecida mundialmente, adeus equilíbrio psicológico.

         Mas o que fazer para não ter culotes? A primeira resposta que vem a mente é a mais obvia de todas: não coma. Ok, mas a pergunta não foi: o que Mahatma Gandhi faria? E sim: o que eu, simples mortal, faria para resistir ao aroma oriundo da cozinha que esta possuindo meu ser neste exato momento? A resposta é ainda mais obvia: incorpora o senegalês e corre filha, corre como se não houvesse amanhã. Mentira! A resposta é: nada. Isso, não faça nada, simplesmente coma sem medo nem vergonha e seja feliz, caia de boca na carne assada, coma a salada de macarrão sem peso na consciência – afinal é salada, né!? Todos dizem que salada ta liberado – pode jogar molho de alho na mandioca e comer sem crise, desde que tudo seja acompanhado por um copo de suco de laranja, mas o suco é uma questão de saúde não de estética, é claro – ou não – pode abraçar o ovo de páscoa e chamar de meu amor, sem problemas.

         Tudo bem que na páscoa todo culote vira praticamente um “cundomínio” mas feriado prolongado, agora,  só em maio mesmo e até lá você já trabalhou a semana toda mais de oito horas por dia, já cuidou das crianças, cuidou da casa, cuidou do marido – se não tiver marido, cuidou de tentar arrumar um – cuidou de manter contato com os amigos, cuidou da contabilidade, comprou sapatos, fez as unhas, o cabelo, comprou o batom com o 58º tom de rosa que você ainda não tinha, fez um assado inesquecível –  que esqueceu de tirar do forno – já teve TPM, crise existencial e passou por tudo isso sem matar ninguém e em cima do salto alto, mulher é maratonista e nem se dá conta disso.

          Um culotezinho aqui ou outro ali – ali na vizinha, de preferência – não faz muita diferença, afinal o projeto verão já acabou mesmo e ainda temos mais três estações até que ele comece outra vez, sem contar que mulher não para quieta então o MST nunca vai poder nos acusar de termos terras improdutivas nos nossos “cundomínios”.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Natasha


         Recentemente remexendo minhas gavetas a procura de coisas que eu já nem lembro o que eram, encontrei um CD sem nada escrito, curiosa, liguei o aparelho de som e para minha feliz surpresa começou a tocar Natasha foi o nosso reencontro e depois de mais de dez anos, comecei a pensar em como andava a vida da personagem que um dia foi minha ídola, mas que hoje não faz mas tanto sentido assim.
Em 2001 ela aos dezessete anos fugiu de casa, levou na bolsa umas mentiras pra contar, deixou pra trás os pais e o namorado. Eu, então com quatorze anos, achava ela o máximo com sua carteira falsa com idade adulterada, cabelo verde, tatuagem no pescoço e saia de borracha. A ideia de um outro dia, outro lugar sempre fez – e olhando bem, ainda faz – minha cabeça o que nunca me agradou foi o sem amanhã  por diversão roubava carros.
           Fiquei imaginando que o rosto novo todo feito pro pecado já não é mais o mesmo depois de tantos paraísos num comprimido e balacos ilegais ou proibidos, os cabelos verdes que na minha adolescência eu imagina ser lindo e sedoso, como os que eu queria ter, hoje já devem estar ressecados e quebrados, nada atraentes. A saia de borracha também não deve ser mais a mesma, depois de alguns filhos que ela provavelmente teve com um “alguém” que ela deixou dormindo desaparecendo antes que ele acordasse.
 Mas também não é só de tragédia que se vive, quem sabe se ao longo do caminho ela não encontrou motivos para voltar a ser a Ana Paula de sempre? Talvez tenha voltado para casa, talvez tenha se casado, talvez tenha se tornado pastora evangélica e hoje viva pregando sobre a vida em pecado que levou. Quiçá hoje trabalhe em um banco e a única mentira que conte seja um simples “nosso sistema esta fora do ar” só para poder continuar lixando as unhas. Ninguém sabe e nunca vai saber.
A seu favor Natasha tem a eternidade, por habitar uma música de sucesso jamais vai envelhecer ou morrer de overdose, como ponto contra ela nunca deixará de roubar carros e jamais se vestirá com uma saia da moda. A nosso favor – meu, dela e de quem adora essa música – temos em comum que enquanto estivermos ouvindo os pneus de carros cantando o mundo pode acabar e nós só vamos querer dançar, dançar, dançar. 

terça-feira, 19 de março de 2013

A ressaca e o Santo


Quem já tomou um porre sabe, e quem nunca tomou ainda vai saber, a ressaca transforma. O dia seguinte a um porre bem tomado deixa o mais cafajeste dos seres um santo, o abrir de olhos no dia seguinte é cheio de juras – não juras de amor, mas sim de redenção – aquele momento que cada um compartilha agarrado ao vaso sanitário vem acompanhado de sussurros e gemidos carregados de “eu nunca mais bebo tanto assim na minha vida” e vez ou outra, caso a memória não ajude, é no vaso sanitário que descobrimos se a caipirinha era de limão ou morango.
A alimentação é leve, quase uma penitencia, a conversa – caso haja – é delicada num tom de voz quase inaudível e numa rouquidão suplicante, a cabeça pulsa mais que o coração e este, coitado, lamenta não poder parar de trabalhar para curtir a santificação de seu hospedeiro proporcionada pela bebida. O arrependimento pela noite desenfreada faz da cama o altar onde o café da manhã é servido na tentativa de amansar uma esposa ou marido sedento por vingança que durará a semana inteira e só deixaram de esfregar na sua cara a vida mundana da noite anterior quando a próxima ressaca chegar.  O dia da ressaca é o dia que se passa na cama, no escuro, em silencio, em juras de nunca mais se repetir. Mas uma coisa eu afirmo: se até o mar tem ressaca eu também quero ter!
E quem disse que desse mal só padece os humanos? Eu sei que até os Santos, aqueles que a igreja católica reconhece, tem seus dias de ressaca. Tanto é que Santo Antonio só ajuda os solteiros se for amarrado de cabeça para baixo o que o impede de tomar seu “elixir” diário, para se ver livre das amarras e poder se deleitar com quentão ele prontamente atende o clamor das alma solitárias e as une a outras almas solitárias, é bem verdade que algumas vezes ele faz isso sob efeito da ressaca o que explica muitas uniões.
Mas a minha ressaca preferida é a de São Pedro, ah essa sim vale cada gole. Cansado de mandar aquele sol de rachar ou aquelas chuvas que alagam avenidas, ele toma seu néctar dos deuses e no dia seguinte nos cobre com a dádiva de um dos seus dias de ressaca. Os dias de céu cinza, vento delicado porém gelado, aquela chuvinha mansa que não molha nem embaixo das árvores mas também não cessa, parece que o dia nos convida a desacelerar, sentar próximo ao balcão e tomar uma boa dose de tequila só para esquentar, Talvez por isso São Pedro seja o Santo mais lembrado nos dias de calor e também nos de frio, é intenso. De médico, louco e santo todo mundo tem um pouco, por isso sigo devota de São Pedro e seus dias cinzas, de chuva fina e vento carinhoso.

19 de março de 2013. (um daqueles dias que São Pedro esta de ressaca)

terça-feira, 12 de março de 2013

FILME DE LUTA


Recentemente eu estava assistindo o filme “Menina de Ouro” -  pela quinta vez mais ou menos, e confesso: chorei em todas elas - quando ouvi o comentário: “ ixi filme de luta, detesto filme de luta”, enquanto eu tentava explicar que o filme não era de luta, até porque esse gênero também não me agrada, me dei conta de que sim o filme é de luta, todos os filmes são de luta. Das centenas de filmes que já vi até hoje e dos outros tantos que ainda verei todos foram e serão de luta.

Que filme não é de luta? Nos romances a luta é por um grande amor, nos dramas a luta é pela vida, nos filmes de terror a luta é para botar medo - mas atualmente é só ligar a TV num jornal qualquer que já sentimos um medo terrível, a concorrência com a vida real esta quase desleal -  nas comédias nonsense a luta é para fazer rir, o que raramente surte efeito, pelo menos comigo, até os filmes que tratam sobre a luta propriamente dita não são apenas de luta, existem muitas outras coisas ali, ninguém é uma coisa só, nem os filmes. Enfim todo filme fala sobre luta mesmo que não tenho um soco sequer em qualquer cena, até porque a vida é de luta.
Aquela famosa frase que hoje já virou clichê “matar um leão por dia” já não tem mais utilidade, serviu bastante para Hercules mas hoje não faz mais sentido, muitas vezes o leão morre lentamente e só um dia é pouco, já outras vezes o leão nem é um leão é só um gatinho atraído pelo copo de leite que foi esquecido sobre a mesa, mas como os problemas muitas vezes são maximizados, por nós mesmos, o gatinho transforma-se num leão faminto, outras vezes o leão realmente é muito maior e temos que matar uma Jubarte em alto mar sem usar cilindro de ar. Isso é a vida, isso é luta e os dois se misturam tão bem que é impossível separar um do outro, na vida sempre vai existir luta e na luta sempre haverá vida é uma equação simples, elaborado é o resultado.
Nos filmes a luta sempre é pela felicidade, na vida também, ainda não gosto de filmes onde pessoas se socam até sair sangue ou um dente, mas hoje posso dizer que adoro filme de luta.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

COMUNICADO

Olá pessoas!

       Gostaria de dizer à vocês que o blog vai ficar desatualizado por um tempinho, ouço o som da lamentação, mas não, não chore... não chore de alegria voltarei rápido (agora sim pode chorar!). Estou com um projeto que tem prazo a ser cumprido e se eu piscar acabo perdendo a data. Mas na segunda quinzena de março ou até antes, assim pretendo, voltarei a postar mais textos. Palavra de escoteira! 
          Agradeço a todos que sempre leram as minha publicações e que me deram apoio para que tudo isso acontecesse. Devo a vocês a felicidade que sempre sinto ao publicar aqui. 


OBRIGADA!!!!!! e até logo.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Academia


Não foi promessa de ano novo, pelo menos não nesse réveillon, mas o fato é que entrei na academia. “E daí?” você me pergunta. E daí que para quem me conhece essa informação deve estar causando um choque anafilático neste exato momento. Eu sou muito mais de ficar em casa lendo um bom livro – na verdade lendo um livro, nem precisa ser tão bom assim para que eu o leia – vendo um filminho, curtindo um documentário, enfim academia nunca foi o meu forte, mas entrei e dobrei meu próprio recorde de permanência numa academia, estou a quatro meses malhando. Agora pensa num corpinho sarado... pensou? Pois é esse ai não é o meu caso, não ainda.
Essa tal dor do dia seguinte não existe, ela sempre aparece no segundo dia, só pra te iludir e fazer você pensar que é um atleta nato. Na primeira semana meus braços doíam tanto que tive que aproximar a cabeça da escova pois não conseguia levantar o braço até a altura necessária para pentear o cabelo, as pernas então, toda vez que tinha que sentar ou levantar gemia. Deus criou as pessoas umas diferentes das outras, daí veio o diabo e criou os padrões de beleza e a academia.
Mas confesso: não é de todo ruim não. É bom manter o corpo em atividade e ainda conversar com outras pessoas, só não posso fazer isso na esteira porque me falta o ar para completar o circuito, sem contar que realmente o dia fica mais agradável após a malhação.
Ao longo desse tempo venho notados grandes mudanças em mim, físicas – lógico – e  emocionais também. Braço mais forte, determinação mais forte. Coxa menos mole, animação menos mole e por ai vai. Acho até que me tornei uma pessoa mais sensível, mais sensível a fome principalmente, despertei a fera selvagem que morava em mim e agora que ela acordou quer comer tudo o que não comeu antes. Mas sou moça controlada e mato minha fome com coisas saudáveis, fibras, cereais, frutas e pouco açúcar, a barrinha de cereal é minha nova melhor amiga de infância.
Novamente devo confessar: matar a fome com uma barrinha de cereal é igual matar o calor chupando gelo, funciona, mas é bem sem graça. Mas para tudo na vida é necessário determinação mesmo que seja para coisas tão pequenas quanto ir à academia. Grandes mudanças começam com pequenos passos, o meu pequeno passo foi entrar na academia, outros grandes viram tenho certeza.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Mudança e o Rabo Preso


A senhora Mudança era muito carismática, trazia sempre um brilho especial que iluminava os lugares que frequentava, algumas pessoas sentiam um certo medo quando ela começava a se aproximar, travavam, gaguejavam, recuavam ou suavam frio mas a grande maioria desejava que ela estivesse sempre por perto com seu perfume sempre fresco, aquela alegria e alto astral que contagiavam todos.
O senhor Rabo Preso era sério, rabugento na verdade, mas tinha uma lábia de dar inveja a vendedor de carro usado, quando saía de casa procurava ser sempre o mais simpático possível, sempre sorridente e prestativo, adorava fazer promessas mas sempre pedia algo em troca, as vezes prometia emprego para um, mas em troca pedia favores à família toda, chegou até mesmo a prometer a mesma vaga para mais de uma pessoa, prevaricava e muito.
Ambos eram muito bem casados, acreditavam que haviam encontrado sua alma gêmea a pessoa que compreendia e completava cada um deles. O muitas vezes ingênuo senhor Eu Acredito era o porto seguro de sua devota esposa senhora Mudança, já o senhor Rabo Preso era o marido ciumento da valente senhora Eu Prometo. Os quatro eram vizinhos e levavam vidas tranquilas se ajudando mutuamente – a não ser o senhor Rabo Preso que sempre pedia mais do que tinha a oferecer – sempre cooperando um com o outro mantinham o equilíbrio e seguiam seus caminhos, tudo seria perfeito não fosse o fenômeno que a cada quatro anos assombrava suas vidas, ninguém entendia corretamente o que acontecia mas a verdade é que a relação dos quatro vizinhos se tornava extremamente promíscua, virava carnaval, um dissimulado desfile de alegorias.
Neste período que durava alguns meses do ano numero quatro a senhora Eu Prometo mantinha relações extraconjugais “calientes” com o senhor Eu Acredito, já o senhor Rabo Preso abusava indiscriminadamente dos dois, mas principalmente da senhora Mudança fazendo com que ela o detestasse cada dia mais, mas este adorava-a, não que fosse algo sincero, ele apenas adorava aproveitar a popularidade da senhora Mudança, ele a prostituía, a oferecia em troca de favores, vendia como se ele fosse seu dono. Ela por sua vez odiava ser usada, assim desprezava as atitudes do senhor Rabo Preso, ele atrapalhava sua caminhada, não permitia que ela seguisse a via correta, não dava a liberdade que ela tanto precisava para existir, ditava o momento que ela deveria chegar e sair, sufocava-a.
No final deste período de quatro anos, o ano Um como costumavam chamar, o senhor Rabo Preso se recolhia, ficava quieto tentando se camuflar à paisagem, permanecia em sua confortável sala dando nós na coleira que havia usado para manipular a senhora Mudança, quase trinta nós que o fariam lembrar por quatro anos o quanto ele dependia de seus vizinhos: senhor Eu Acredito, senhora Mudança e de sua esposa Eu Prometo. Na verdade o senhor Rabo Preso sabia que sem eles não teria sucesso algum por isso usava-os e depois esquecia tudo o que havia falado, permanecendo o restante do período desmemoriado e na defensiva.
A senhora Mudança sabia que estaria sempre cativa enquanto o senhor Rabo Preso existisse, mas o senhor Eu Acredito, seu ingênuo marido, nunca a deixava desanimar. E assim todos seguiam contando o tempo de quatro em quatro anos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Vale a pena ser extraordinário?


Ontem assisti o documentário "Lixo Extraordinário" que acompanha o artista Vick Muniz durante a produção de algumas de suas obras compostas por lixo oriundo do Jardim Gramacho (aquele aterro sanitário que foi desativado em 2012) no Rio de Janeiro e os personagens que ele usou como inspiração para compor a obra, todos eles trabalhadores de Gramacho. O documentário é lindo principalmente por mostrar como o trabalho desenvolvido por Vick mudou a visão que os trabalhadores tinham de si mesmos.
                Um dos depoimentos, que mais me marcou, foi o do catador de material reciclado que montou a cooperativa de catadores do Jardim Gramacho, no dia da gravação a cooperativa havia sido roubada e todo o dinheiro, que seria dividido, levado. Chorando ele pergunta se realmente valia a pena levar uma vida honesta catando material reciclado se expondo aos perigos do lixo, para que?
                E ai, será que vale a pena trabalhar honestamente para pagar as contas sem atraso? Vale a pena pagar tantos impostos que deveriam ser investidos saúde, educação, infraestrutura, segurança, saneamento... para mais tarde chegar nos postos de saúde e não encontrar remédios? Ter que pagar um plano de saúde particular? Comprar água mineral para não beber o, praticamente puro, cloro que sai pela torneira? Instalar cercas elétricas para ter a mínima sensação de segurança? Vale a pena ser honesto e ver o esgoto a céu aberto na periferia? Ser honesto e andar pelas estradas esburacas no país inteiro? Vale a pena apertar o orçamento para poder comprar um carro de segunda mão enquanto as pessoas que deveriam zelar por nós andam, gratuitamente e engravatadas, em carros que nós pagamos? Vale a pena tanta honestidade enquanto existem pessoas que, aparentemente, recebem auxilio financeiro até para respirar e em contra partida não nos dão quase nada, apenas tiram?
                Atualmente ser honesto vale muito a pena, mas só para quem não é honesto. Estas pessoas andam de avião, vestem roupas de marca, têm planos de saúde vitalícios, são processados mas ainda assim assumem cargos que rendem por mês o que muitos não ganham no ano inteiro e tantas outras coisas que citar aqui ocuparia mais espaço que um elefante africano, porém fazem tudo isso com dinheiro honesto, só que de outra pessoa, alias, de outras pessoas.
                Para o catador de material reciclável, valeu a pena levar uma vida honesta por que se levasse uma vida diferente não teria encontrado o homem que mudou tudo ao seu redor e ao redor dos seus. Para o resto de nós também vale a pena uma vida honesta só nos falta encontrar as pessoas que possam mudar nossos rumos porque elege-las  não tem dado resultado. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Fim de jogo?


E chegammmm os convidados. Entram. Sentam. Fechammmm as portassss. Entra o noivo. Entram os noivinhos. Entram os padrinhos do noivo. Entram os da noiva. Noivo. Noiva. Noivo. Noiva. Noivo. Noivaaaa. Pauuuuusa dramática. O noivo ta tenso meus amigos, o noivo ta tenso. E lá vem a noiva. A torcida ta aflita. O noivo esfrega as mãos. O publico vai ao delírio. A noiva entra. O noivo respira. O padre fala muito, ele fala muito minha gente. É agora, é agora. O noivo suspira. A noiva sorri. Éééééé gollllll, gol de placaaaa. A mãe da noiva chora. A do noivo ta em prantos. Os pais dos dois sorriem. Os torcedores vão ao delírio. A ola de palmas começa. Olha o beijo, olha o beiiijo, olhaaaaa o beijooo. É meus amigos agora não tem mais jeito. Beijouuuuuuuuuuuuu. É fato, o casamento aconteceu. A galera vai ao delírio. As torcidas estão felizes. O barulho da felicidade se espalha. A tia velha chora. Lá vem o hino dos times. Eles caminhammm. Saíram companheiros, eles saírammm. Éééééé fim de jogo aqui na catedral, amigos. O time saiu de campo campeão. Os dois times ganharam a partidaaaaa. Essa entra pra historia. Jogaçooooo. Lindo de ver. É bodas. Éééé bodas. Linnnndo de verrrr.
                Se o Galvão Bueno narrasse casamentos seria mais ou menos assim, mas ainda bem que não é. A tradição ainda reina neste campo e como isso é bom.  Nas cerimônias de casamento não pode haver pressa e ainda assim são lindas do começo ao fim, das mais simples até as realizadas em castelos, tudo passa por meses de preparação, mais pesada que muito treinamento físico.
                O melhor de tudo é que os dois times entram para ganhar e ganham. Apesar dos muitos comentários machistas que sempre ouvimos por ai, coisas como "game over", "se amarrou acabou" e tantos outros, nunca fui à um casamento onde o noivo não estivesse mais feliz do que todos no salão. Não que a noiva não estivesse feliz, mas para uma mulher que esta em cima de um salto altíssimo e dentro de um vestido apertado a felicidade fica mais contida dentro das costuras, não tem jeito, pular e gritar é bem mais complicado. Já para os homens é mais simples, eles sempre parecem estar comemorando a vitória no campeonato mundial e estão mesmo, todos ali estão. O numero crescente de casamentos derruba a teoria de que a paixão nacional é o futebol, a paixão nacional é o casamento e com razão. Não tem coisa melhor do que encontrar alguém que te ame e se casar com essa pessoa, é a dupla de ataque perfeita.
              A caixinha de surpresas também existe no casamento, às vezes um time sai ganhando, às vezes o outro e a decisão entre ir ao cinema ou ver filme em casa acaba saindo só nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, mas no final das contas o resultado é bem equilibrado. Não que tudo sejam as mil maravilhas sempre, algumas coisas não se resolvem em apenas noventa minutos, mas isso não tira a beleza do espetáculo, nem a vontade de jogar.
                Logo, ou nem tão logo assim, os filhos chegam e trazem um fôlego novo, ai sim a coisa fica ainda mais interessante, todos jogam em todas as posições. O melhor de tudo é que um casamento não é final de campeonato, é começo. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Rótulos

         Contém glúten, não contém glúten, valor energético, fibra alimentar, sódio, gordura trans, gorduras totais, gordura saturada, proteínas, carboidratos, data de validade, ingredientes... e claro proteger o alimento do ambiente externo. Um rótulo não serve para nada além disso e não deveria ser empregado em outras áreas que não a alimentícia.
Sempre tenho problemas para responder as perguntas: que tipo de musica você gosta? E de filme? A resposta é sempre tão longa que devo fazer surgir um baita arrependimento na pessoa que perguntou. Resumindo gosto de musica com uma boa letra, já o ritmo para mim não tem tanta importância. Quanto aos filmes: idem, gosto de filme com boa história o gênero tanto faz. A verdade é que gosto mesmo é de uma boa história, se o filme narra uma boa história vou assisti-lo, se a musica conta uma boa história vou ouvi-la com direito a repeat.
                O pior uso para um rótulo é com pessoas, além de nivelar por baixo não facilita em nada os relacionamentos. Fulana é chata, beltrano é fraco não tem atitude, ela é brava, ele é tão bonzinho que chega a ser otário. Ninguém é apenas uma coisa na vida, todos nós somos varias pessoas em um único dia, “isso é coisa de gente falsa” não, não é, isso é coisa de ser humano – tanto no sentido de espécie, quanto no de humanidade mesmo – no trabalho agimos mais formalmente, fora dali podemos ser mais descontraídos; em casa, as vezes, nos mantemos mais fortes tentando ser o apoio do outro, já na casa do vizinho podemos chorar sem pudor, não existe nenhum desvio de caráter nisso.
                Rótulos nas pessoas mais afasta do que aproxima, afinal ninguém quer ser amigo de uma pessoa chata ou otária, namorar um homem galinha ou uma mulher galinha não interessa à ninguém, Deus o livre de ter uma pessoa fraca e sem atitude por perto.
E se essa tal pessoa chata, na verdade, for apenas alguém que tenha opiniões contrarias às de outra pessoa e por isso alguns à tomem como chata? Talvez entre você e ela a empatia bata e ambos encontrem um excelente amigo. A tal pessoa fraca é fraca comparada a que? Um gorila!? Você sabe as provações pelas quais já passou? Não se atenha a coisas pequenas, somos todos muito mais complexos do que uma barrinha de cereais, não cabemos em um rótulo.
Para pessoas o que vale é a história não a tabela nutricional é tudo muito mais abstrato, não dá para quantificar chatice ou simpatia em porcentagem por grama, o que desagrada à um pode agradar à outro. Precisamos entender que os rótulos devem ser usados em coisas que contenham ou não glúten, não em coisas que contenham glúteos. Um dia a gente chega lá. 


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os olhos


                  Renato era míope e para piorar um pouco mais tinha também astigmatismo, sem os óculos não reconhecia nem a si mesmo no espelho, só tirava as lentes para dormir o que, alias, só fazia depois de já estar deitado na cama e os colocava imediatamente ao acordar, muitas vezes ainda de olhos fechados. Tinha pavor só de pensar em não ver as coisas corretamente.
                Apesar dos grandes óculos era um homem bonito, se considerava inteligente e talvez por isso nunca estava sozinho, não era do tipo garanhão, era bem tranquilo na verdade, mas seus relacionamentos não duravam muito mais do que algumas semanas. A família não entendia o motivo, coisa que nunca o preocupou tampouco os comentários e questionamentos pois sabia que a culpa era das mulheres com quem se relacionava, todas elas tinham aquela mesma característica que ele não gostava: uma pinta.
 Renato sempre achou um fenômeno interessante todas as mulheres que conhecia terem uma pinta no rosto, cada uma em um lugar diferente, é claro, mas todas tinham uma pintinha, maior ou menor mas tinham. Isto causava incomodo em Renato que adorava a perfeição de um rosto lisinho e sem manchinhas era assim que ele enxergava a vida, sempre correta, clara, sem entrelinhas nem equívocos, visão nítida e aquelas pintinhas não tinham nada de Marilyn Monroe, eram em lugares estranhos, uma tinha no nariz, outra na testa, fulana nos lábios, sicrana no queixo, beltrana tinha até no olho.
Enquanto a mulher perfeita não aparecia Renato passava seu tempo livre arrumando um antigo Chevette 73 herdado do avó, o considerava uma joia e jamais pensou em abrir mão do possante, todos os dias depois do trabalho ele dedicava horas ao velho Cheve, a pintura estava quase boa mas o motor era o que mais tomava seu tempo.
Numa tarde Renato estava deitado embaixo do Cheve quando ouviu alguém chamar. A filha da vizinha estava de pé no seu portão reclamando do volume do radio, uma pequena discussão começou a se formar mas não pela musica e sim pelo carro, ela acreditava que seu Fusca era bem melhor que o Chevette dele, ele jurava que não.
O papo foi fluindo tão bem que Renato nem notou se ela tinha ou não uma pinta, a química foi tão boa, os assuntos surgiam tão naturalmente que esse detalhe acabou passando despercebido. No dia seguinte ela o chamou novamente, enquanto saia debaixo do carro Renato lembrou-se de procurar a pinta, ela era perfeita de mais deveria existir algum defeito e se fosse a pinta seria um defeito enorme.
Quando ergueu a cabeça Renato viu, ali bem no meio da bochecha uma pinta enorme, não pode deixar de pensar em como não tinha notado algo tão gritante assim, não se controlando Renato soltou um gemido sofrido, doído, decepcionado. A frustração era tanta que transparecia no rosto de Renato. Ela sem entender o que estava errado perguntou mas a resposta custou a aparecer, quando apareceu a gargalhada dada por ela foi tão grande que Renato  até se assustou. A moça pegou os óculos de Renato, lambeu a lente e limpou na blusa, quando colocou de volta no rosto dele, ele notou que a famigerada pinta não estava mais no rosto dela. O problema dele ia mais alem da miopia e do astigmatismo.