7h15
O relógio despertou. Como já era automático ela levantou da cama, com os olhos quase fechados percorreu o caminho tão conhecido do quarto até o banheiro, do banheiro até a cozinha, da cozinha até o banheiro novamente e de lá para o carro.
8h00
Já estava no trabalho e iniciou a rotina de abertura do seu local de labuta que carinhosamente apelidara de "minha biboca".
8h07
Estava sentada à mesa onde passaria oito horas de um longo dia, computador ligado, ventilador também, e-mails sendo conferidos, Skype pronto para atender a qualquer chamada urgente, ou não. Ansiosamente digitava a senha do Facebook esperando pelos inúmeros sinais de mensagens e avisos, e como também já era natural os inúmeros sinais se resumiam a sem numero algum.
O dia era mais um semelhante a todos os anteriores, o que sempre mudava era a cor da blusa e o tom do jeans que ela usava, quase como um uniforme, os diálogos também não variavam muito, dependiam muito das necessidades de quem a procurava, cada documento abria espaço para um papo diferente mas tão mecânico quanto o qualquer um deles.
- Oi, preciso fazer o documento "X", do que eu preciso? – perguntava o cidadão aflito pelo documento que era indispensavelmente necessário para o dia seguinte.
- CPF, RG, comprovante de residência, certidão de nascimento, duas fotos 3x4 com paletó e gravata. – respondia ela como o vento.
- O do documento" Y" do que preciso? Perdi o meu há uns quatro anos, sabe, mas meu chefe ta me pedindo pra amanhã, será que rola?
- Humm, quatro anos né!? Olha, rola ele não rola, mas fica pronto em cinco minutos, já o documento "X" demora um pouco, esse só na daqui umas duas semanas. – diz ela quase como um computador bem programado.
Sem tirar os olhos da tela do computador onde ela lia o e-mail promocional de um sapato lindo, entregou ao seu interlocutor a lista com todos os documentos necessários e ficou esperando pela volta do que foi até então uma companhia. O período da manhã acabou e ela rapidamente saiu para o almoço e uma hora depois estava de volta à biboca. Após o almoço o tempo seguia sempre mais lentamente, o que se arrastava agora agonizava praticamente imóvel. Mas naquele dia ela estava decidida a não ser tirada do serio, a energia elétrica poderia acabar, o rímel poderia até borrar, mas a pontinha de alegria que ela sentia não seria abalada por nada, a noite prometia.
Já estava tudo combinado com os amigos, o ponto de encontro e as bebidas que seriam levadas. Ela já tinha separado a bebida, sempre forte, que consumiria na noite e a mantinha carinhosamente imaculada na geladeira, tudo minuciosamente preparado para AQUELA noite.
16h59
Já estava passando o cadeado no portão.
17h00
Dentro do carro, seguiu para casa.
17h03
No sofá de casa ela assistiu o canal de noticias, leu qualquer matéria na revista que passou a semana sobre a mesa de centro, continuou lendo, por mais um capitulo, o livro que descansava na estante esperando para ser terminado.
Naquele momento parecia que o tempo havia decido correr, talvez para manter o equilíbrio, afinal um dia tem vinte e quatro horas e a lentidão que ele se mantivera ao longo do dia fazia parecer já ter passado umas vinte e três.
19h30
O banho, o sabonete da loja cara, o xampu recomendado pela cabeleira que dizia ser de uso profissional, os minutos de espera para o condicionador agir, o enxague. Fora do box usou o creme para os cabelos sem enxague, penteou-os com delicadeza, sem tirar o sorriso do rosto, foi para o quarto onde espalhou delicadamente o creme hidratante, também da loja cara, por todo o corpo, secou os cabelos com o secador que pegou emprestado especialmente para aquela noite.
No guarda roupas retirou a calça e a blusa que havia pensado durante toda a tarde e que combinariam lindamente com o sapato daquele e-mail, mas como o sapato ainda não era seu, e talvez nunca seria, usou a bota nunca usada antes e que também combinava lindamente com a noite fria que fazia lá fora, mas nem o frio a faria perder o equilíbrio, porque aquela noite prometia. Já completamente vestida, ela foi para o espelho fazer a maquiagem que taparia aquelas sardinhas que cismavam em fazer da bochecha dela, sua moradia. De volta ao quarto, ela borrifou o perfume importado que usava apenas em ocasiões especiais, pegou o dinheiro e o celular, passou pela cozinha para pegar a bebida que aguardava seu momento e saiu de casa para encontrar os amigos.
21h30
Na casa de uma das amigas onde havia combinado de passar para saírem juntas, ela esperou enquanto a amiga procurava por uma calça que abotoasse, o tempo foi passando sem que a tal calça se apresentasse dentre todas as que jaziam penduradas nos cabides, então ela decide tomar uma dose direto da garrafa que trazia dentro de uma sacola plástica e que devia ser alojada num isopor com gelo que a turma já havia separado para aquela noite. Os celulares, dela e da amiga, tocam quase que simultaneamente, é o inesperado se apresentando feliz como uma criança com um brinquedo novo, feliz justamente por não ser esperado.
Em letras maiúsculas ela leu a mensagem: "a chuva miou tudo, remarcaram para semana que vem". Ela e a amiga começam a ligar para todos da agenda tentando ouvir que não era verdade, mas sim, minutos depois ambas descobrem que era verdade, tudo fora desmarcado, a noite estava arruinada.
A amiga voltou para o quarto de onde saiu vestida com o pijama, para ela aquilo serviu como o golpe de misericórdia, era a confirmação de que realmente toda a turma estava fazendo o mesmo e para ela restava, apenas, se unir novamente ao amigos e fazer o mesmo.
22h00
Ela chegou em casa onde encontrou a Pequena, o segundo ente mais novo da família, que a recebeu com um abraço e um pedido de colinho. Alguns chamegos depois, as duas sentadas no sofá assistindo TV a Pequena, que é o primeiro ente mais atencioso da família, perguntou:
- Nossa que “cherosa” que “ce” tá, que “chero” é esse?
- Esse cheiro!? É desperdício Pequena, esse é o cheiro do desperdício.
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