terça-feira, 24 de maio de 2016

O doce de figo



No tutorial de hoje vamos aprender a fazer doce de figo sem ter que abrir a lata. Mentira! Não sei cozinhar e doce de lata é pior que lamber sabão, como posso ensinar algo que não sei fazer? Não posso e não vou.
A verdade é que recentemente vi um folheto anunciando pamonha gourmet, achei curioso “gourmetizarem” até o milho, mas como não gosto de pamonha não dei importância alguma ao folheto, mas uma coisa não saiu da minha cabeça: essa “gourmetização” de tudo. Lanche gourmet, frango gourmet, pão gourmet, festa gourmet, bebida gourmet, pipoca gourmet, até fast-food esta metido à gourmet, é o céu e o inferno gourmet. Sinto que um dia chegarei ao salão e a cabeleireira irá me perguntar se eu quero um corte gourmet ou repicado, neste dia começarei a cortar meu cabelo sozinha.
Não ligo a mínima se é gourmet ou não, quero é comida boa. Não ligo a mínima se vou comer cachorro quente com a mão e sujar até o nariz com maionese ou comerei hot-dog com molho nãoseideque usando garfo e faca. Ninguém come potes, mastiga talheres, não saboreamos afetações. Parece-me que estamos transferindo até para a comida o apego que temos à imagem, à pompa, as aparências. É vazia esta valorização do gourmet, apegar-se a um refinamento sem maiores significados, não importa se é gostoso desde que seja refinado, é pamonha, mas é gourmet. Soa-me como se estivéssemos caminhando para trás ao valorizar, até na comida, a forma e não o conteúdo.
Há muitos anos fui visitar uma amiga em outro estado, chegando até sua casa ela me levou para conhecer a cidade e alguns dos seus amigos, é aqui que o doce de figo entra. Uma senhorinha, a avó de uma das amigas, me recepcionou com um copinho de doce de figo feito em casa, confesso que pensei seriamente em recusar, pois sempre que me oferecem este doce lembro-me daquelas latas de figo, abacaxi ou pêssego, todas ridiculamente ruins, mas por educação, peguei. Enquanto ela servia as outras pessoas, e eu enrolava um pouco pra comer, começou a conversar comigo sobre a árvore de figos apontando para a janela e dizendo que ela mesma havia colhido as frutas da árvore no quintal. Comi. Meu Deus que doce era aquele? A educação me fez aceitar o copinho, a falta dela me fez repetir três vezes, nunca comi figos tão gostosos, eu quis abraçar aquela árvore e roubar a vozinha pra mim.
O doce não era decorado, nem foi servido em uma taça de prata adornada com folhas de ouro, não tinha nome com afetação internacional tampouco ingredientes vindos do norte do Tibete colhido por freiras descalças no raiar do primeiro sol de um inverno qualquer, era só o figo do quintal, servido por uma senhora dizendo: “come, fui eu que fiz”.
             Na época a febre “gourmet” ainda não era a pandemia que é hoje e todas as vezes que ouço ou leio “gourmet” lembro-me do doce de figo, da janela de madeira, da árvore no quintal, da senhorinha me contando a história do doce, dela tentando me ensinar a receita, da vontade que eu tive de comer com a mão mesmo. Entre gourmet e doces de figos, fico com os figos.