No tutorial de
hoje vamos aprender a fazer doce de figo sem ter que abrir a lata. Mentira! Não
sei cozinhar e doce de lata é pior que lamber sabão, como posso ensinar algo
que não sei fazer? Não posso e não vou.
A verdade é
que recentemente vi um folheto anunciando pamonha gourmet, achei curioso “gourmetizarem”
até o milho, mas como não gosto de pamonha não dei importância alguma ao
folheto, mas uma coisa não saiu da minha cabeça: essa “gourmetização” de tudo. Lanche
gourmet, frango gourmet, pão gourmet, festa gourmet, bebida gourmet, pipoca
gourmet, até fast-food esta metido à gourmet, é o céu e o inferno gourmet. Sinto
que um dia chegarei ao salão e a cabeleireira irá me perguntar se eu quero um
corte gourmet ou repicado, neste dia começarei a cortar meu cabelo sozinha.
Não ligo a mínima
se é gourmet ou não, quero é comida boa. Não ligo a mínima se vou comer
cachorro quente com a mão e sujar até o nariz com maionese ou comerei hot-dog
com molho nãoseideque usando garfo e faca. Ninguém come potes, mastiga talheres,
não saboreamos afetações. Parece-me que estamos transferindo até para a comida
o apego que temos à imagem, à pompa, as aparências. É vazia esta valorização do
gourmet, apegar-se a um refinamento sem maiores significados, não importa se é
gostoso desde que seja refinado, é pamonha, mas é gourmet. Soa-me como se estivéssemos
caminhando para trás ao valorizar, até na comida, a forma e não o conteúdo.
Há muitos anos
fui visitar uma amiga em outro estado, chegando até sua casa ela me levou para
conhecer a cidade e alguns dos seus amigos, é aqui que o doce de figo entra. Uma
senhorinha, a avó de uma das amigas, me recepcionou com um copinho de doce de
figo feito em casa, confesso que pensei seriamente em recusar, pois sempre que
me oferecem este doce lembro-me daquelas latas de figo, abacaxi ou pêssego,
todas ridiculamente ruins, mas por educação, peguei. Enquanto ela servia as
outras pessoas, e eu enrolava um pouco pra comer, começou a conversar comigo
sobre a árvore de figos apontando para a janela e dizendo que ela mesma havia
colhido as frutas da árvore no quintal. Comi. Meu Deus que doce era aquele? A educação
me fez aceitar o copinho, a falta dela me fez repetir três vezes, nunca comi figos
tão gostosos, eu quis abraçar aquela árvore e roubar a vozinha pra mim.
O doce não era
decorado, nem foi servido em uma taça de prata adornada com folhas de ouro, não
tinha nome com afetação internacional tampouco ingredientes vindos do norte do
Tibete colhido por freiras descalças no raiar do primeiro sol de um inverno
qualquer, era só o figo do quintal, servido por uma senhora dizendo: “come, fui
eu que fiz”.
Na época a febre “gourmet” ainda não era a pandemia
que é hoje e todas as vezes que ouço ou leio “gourmet” lembro-me do doce de
figo, da janela de madeira, da árvore no quintal, da senhorinha me contando a
história do doce, dela tentando me ensinar a receita, da vontade que eu tive de
comer com a mão mesmo. Entre gourmet e doces de figos, fico com os figos.