quinta-feira, 28 de março de 2013

Natasha


         Recentemente remexendo minhas gavetas a procura de coisas que eu já nem lembro o que eram, encontrei um CD sem nada escrito, curiosa, liguei o aparelho de som e para minha feliz surpresa começou a tocar Natasha foi o nosso reencontro e depois de mais de dez anos, comecei a pensar em como andava a vida da personagem que um dia foi minha ídola, mas que hoje não faz mas tanto sentido assim.
Em 2001 ela aos dezessete anos fugiu de casa, levou na bolsa umas mentiras pra contar, deixou pra trás os pais e o namorado. Eu, então com quatorze anos, achava ela o máximo com sua carteira falsa com idade adulterada, cabelo verde, tatuagem no pescoço e saia de borracha. A ideia de um outro dia, outro lugar sempre fez – e olhando bem, ainda faz – minha cabeça o que nunca me agradou foi o sem amanhã  por diversão roubava carros.
           Fiquei imaginando que o rosto novo todo feito pro pecado já não é mais o mesmo depois de tantos paraísos num comprimido e balacos ilegais ou proibidos, os cabelos verdes que na minha adolescência eu imagina ser lindo e sedoso, como os que eu queria ter, hoje já devem estar ressecados e quebrados, nada atraentes. A saia de borracha também não deve ser mais a mesma, depois de alguns filhos que ela provavelmente teve com um “alguém” que ela deixou dormindo desaparecendo antes que ele acordasse.
 Mas também não é só de tragédia que se vive, quem sabe se ao longo do caminho ela não encontrou motivos para voltar a ser a Ana Paula de sempre? Talvez tenha voltado para casa, talvez tenha se casado, talvez tenha se tornado pastora evangélica e hoje viva pregando sobre a vida em pecado que levou. Quiçá hoje trabalhe em um banco e a única mentira que conte seja um simples “nosso sistema esta fora do ar” só para poder continuar lixando as unhas. Ninguém sabe e nunca vai saber.
A seu favor Natasha tem a eternidade, por habitar uma música de sucesso jamais vai envelhecer ou morrer de overdose, como ponto contra ela nunca deixará de roubar carros e jamais se vestirá com uma saia da moda. A nosso favor – meu, dela e de quem adora essa música – temos em comum que enquanto estivermos ouvindo os pneus de carros cantando o mundo pode acabar e nós só vamos querer dançar, dançar, dançar. 

terça-feira, 19 de março de 2013

A ressaca e o Santo


Quem já tomou um porre sabe, e quem nunca tomou ainda vai saber, a ressaca transforma. O dia seguinte a um porre bem tomado deixa o mais cafajeste dos seres um santo, o abrir de olhos no dia seguinte é cheio de juras – não juras de amor, mas sim de redenção – aquele momento que cada um compartilha agarrado ao vaso sanitário vem acompanhado de sussurros e gemidos carregados de “eu nunca mais bebo tanto assim na minha vida” e vez ou outra, caso a memória não ajude, é no vaso sanitário que descobrimos se a caipirinha era de limão ou morango.
A alimentação é leve, quase uma penitencia, a conversa – caso haja – é delicada num tom de voz quase inaudível e numa rouquidão suplicante, a cabeça pulsa mais que o coração e este, coitado, lamenta não poder parar de trabalhar para curtir a santificação de seu hospedeiro proporcionada pela bebida. O arrependimento pela noite desenfreada faz da cama o altar onde o café da manhã é servido na tentativa de amansar uma esposa ou marido sedento por vingança que durará a semana inteira e só deixaram de esfregar na sua cara a vida mundana da noite anterior quando a próxima ressaca chegar.  O dia da ressaca é o dia que se passa na cama, no escuro, em silencio, em juras de nunca mais se repetir. Mas uma coisa eu afirmo: se até o mar tem ressaca eu também quero ter!
E quem disse que desse mal só padece os humanos? Eu sei que até os Santos, aqueles que a igreja católica reconhece, tem seus dias de ressaca. Tanto é que Santo Antonio só ajuda os solteiros se for amarrado de cabeça para baixo o que o impede de tomar seu “elixir” diário, para se ver livre das amarras e poder se deleitar com quentão ele prontamente atende o clamor das alma solitárias e as une a outras almas solitárias, é bem verdade que algumas vezes ele faz isso sob efeito da ressaca o que explica muitas uniões.
Mas a minha ressaca preferida é a de São Pedro, ah essa sim vale cada gole. Cansado de mandar aquele sol de rachar ou aquelas chuvas que alagam avenidas, ele toma seu néctar dos deuses e no dia seguinte nos cobre com a dádiva de um dos seus dias de ressaca. Os dias de céu cinza, vento delicado porém gelado, aquela chuvinha mansa que não molha nem embaixo das árvores mas também não cessa, parece que o dia nos convida a desacelerar, sentar próximo ao balcão e tomar uma boa dose de tequila só para esquentar, Talvez por isso São Pedro seja o Santo mais lembrado nos dias de calor e também nos de frio, é intenso. De médico, louco e santo todo mundo tem um pouco, por isso sigo devota de São Pedro e seus dias cinzas, de chuva fina e vento carinhoso.

19 de março de 2013. (um daqueles dias que São Pedro esta de ressaca)

terça-feira, 12 de março de 2013

FILME DE LUTA


Recentemente eu estava assistindo o filme “Menina de Ouro” -  pela quinta vez mais ou menos, e confesso: chorei em todas elas - quando ouvi o comentário: “ ixi filme de luta, detesto filme de luta”, enquanto eu tentava explicar que o filme não era de luta, até porque esse gênero também não me agrada, me dei conta de que sim o filme é de luta, todos os filmes são de luta. Das centenas de filmes que já vi até hoje e dos outros tantos que ainda verei todos foram e serão de luta.

Que filme não é de luta? Nos romances a luta é por um grande amor, nos dramas a luta é pela vida, nos filmes de terror a luta é para botar medo - mas atualmente é só ligar a TV num jornal qualquer que já sentimos um medo terrível, a concorrência com a vida real esta quase desleal -  nas comédias nonsense a luta é para fazer rir, o que raramente surte efeito, pelo menos comigo, até os filmes que tratam sobre a luta propriamente dita não são apenas de luta, existem muitas outras coisas ali, ninguém é uma coisa só, nem os filmes. Enfim todo filme fala sobre luta mesmo que não tenho um soco sequer em qualquer cena, até porque a vida é de luta.
Aquela famosa frase que hoje já virou clichê “matar um leão por dia” já não tem mais utilidade, serviu bastante para Hercules mas hoje não faz mais sentido, muitas vezes o leão morre lentamente e só um dia é pouco, já outras vezes o leão nem é um leão é só um gatinho atraído pelo copo de leite que foi esquecido sobre a mesa, mas como os problemas muitas vezes são maximizados, por nós mesmos, o gatinho transforma-se num leão faminto, outras vezes o leão realmente é muito maior e temos que matar uma Jubarte em alto mar sem usar cilindro de ar. Isso é a vida, isso é luta e os dois se misturam tão bem que é impossível separar um do outro, na vida sempre vai existir luta e na luta sempre haverá vida é uma equação simples, elaborado é o resultado.
Nos filmes a luta sempre é pela felicidade, na vida também, ainda não gosto de filmes onde pessoas se socam até sair sangue ou um dente, mas hoje posso dizer que adoro filme de luta.