sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Abreu


              Era pai de família. Casado à quinze anos, um casal de filhos, herdara a casa onde moravam da mãe, não tinha vícios mas tinha dois empregos que o matavam mais lentamente que qualquer droga conhecida atualmente. Tudo o que possuía, desde a meia que usava até seu bem mais caro, a geladeira, fora comprado à vista. Detestava dividas, preferia apertar o orçamento, já tão apertado, para economizar mês após mês do que sair e abrir um crediário e pagar tudo em suaves prestações a perder de vista. Não tinha poupança em banco mas tinha um dinheirinho escondido no travesseiro, coisa pouca, cem reais talvez, para uma eventual emergência, um caso de vida ou morte que, dependendo da gravidade, terminaria em morte mesmo já que os seus cem reais mal dariam para a farmácia.
                Era do tipo durão, pouco falava, não fazia piadas, tampouco ria, seus amigos do emprego numero um achavam que ele não tinha dentes, os do emprego numero dois achavam que ele não tinha vida. Mas uma coisa ele sabia: dentes ele tinha, todos! Não eram brancos como os das pessoas nas revistas, mas estavam todos lá; já a vida, realmente, essa ele não sabia se tinha. A verdade é que esse era o único jeito de ser que ele conhecia, seu pai era assim e o pai dele também, esse deveria ser o jeito certo de ser afinal sua família nunca passou fome nem tinham antecedentes criminais, então para que mudar!?
                Abreu dormia cerca de cinco horas entre um emprego e outro, para ele era o suficiente. Nem mais, nem menos, exatas cinco horas já bastavam, caso não fosse possível o seu humor sem dentes, passava para total falta de humor. Naquele dia Abreu foi acordado pelos gritos de sua mulher. Em um pulo foi para a cozinha esperando pela catástrofe que o grito parecia anunciar e lá estava sua companheira de quinze anos, sentada aos pés da geladeira que cheirava a queimado.
                Depois de uma longa conversa com a esposa que o fizera entender que a solução não seria outra além de comprar outra geladeira, Abreu concorda. Ambos saíram para a loja de eletrodomésticos para, infelizmente, abrirem um crediário. Era isso o que mais doía em Abreu: abrir um crediário. Ele passou dois anos juntando dinheiro para montar a casinha que seria a morada do casal para só depois pedir sua então namorada em casamento, tudo isso só para não fazer dividas, não abrir um crediário. Agora lá estava ele indo abrir um crediário, era uma emergência, claro, mas mesmo assim era um crediário, era uma divida, passou o caminho inteiro até a loja se coçando.
                Não escolheram a marca, o modelo, a cor nem o tamanho, compraram pelo preço e só, gelando o que estivesse lá dentro o resto não tinha importância. Foram até o caixa para negociar o pagamento.
O atendente era um jovem, sorridente e simpático ao extremo, não era o tipo de atendente habitual –  e realmente não era, aquele era seu primeiro dia na loja – ele pergunta:
- O crediário vai ficar no nome de quem?
- Abreu.
- Ah se o senhor não pagar, nem eu! – diz o atendente rindo e em tom de deboche.
Abreu bufou e saiu da loja deixando sua esposa sozinha. Nunca mais Abreu foi visto no empregou um, nem no dois, o dinheiro do travesseiro também desapareceu.
 Ninguém sabe o paradeiro de Abreu. Ninguém sabe se esta vivo ou se morreu, mas hoje ele é uma lenda no comercio, uma lenda com o nome sujo no SPC, haja conta no nome do Abreu.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Espírito Natalino



                Dezembro é o mês das férias, do décimo terceiro, do amigo secreto, do panetone, do gorro vermelho, do pinheiro, das lâmpadas coloridas, dos suspiros amorosos, de dar passagem no transito, do Natal sem Fome, além de tantas outras coisas é também o mês do espírito natalino. Tudo o que foi citado à cima pode ser encontrado em outras épocas do ano – por mais que não seja das tarefas mais simples - exceto uma coisa: o espírito natalino.
                Pensa em um espírito esperto, pensou espírito natalino. Ele aparece uma vez por ano mas sua fama se estende pelo resto do ano seguinte. Quando ele chega os corações amolecem, dar um bom dia na rua fica chique, ser gentil se torna quase natural, a vida parece comercial de margarina. Coisa fina, não fosse um detalhe: a sobra. Isso mesmo a sobra, o que sobra quando o espírito natalino vai embora?
 Amor? Compaixão? Empatia? Não, sobra o primo pobre do espírito natalino: o espírito de porco. O espírito natalino só nos visita para cobrir as férias do espírito de porco, que claro é em dezembro. É o espírito de porco que trabalha o ano todo, ele tem um poder de cobertura muito maior que todas as operadoras de celulares juntas, ele é silencioso, quase assintomático, trabalha praticamente sem ser notado porque já trabalhou tanto que, infelizmente, se tornou natural em nossas vidas. Depois das festividades os suspiros de amor são trocados por bufadas na fila do banco enquanto a idosa passa à frente na fila. O termo “dar passagem” perde o significado. “Bom dia” então, vira artigo de luxo, só para os conhecidos e olhe lá. Fome volta a não significar nada para quem tem o que comer. Mendigo passa de pobre coitado para vagabundo.
O que é triste nesta historia não é o fato de o espírito natalino ser um trabalhador temporário, o triste é nós andarmos de mãos dadas com o espírito de porco e nem notarmos. Pode ser carência talvez, em tempos de correria como hoje é muito solitário ser solidário, dizer “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” é correr o risco de ficar no vácuo. Deixar alguém que só tem uma bisnaga de maionese mão passar à frente na fila do mercado é se aventurar à ouvir cochichos nada gentis. Nos esquecemos como é contagiante ser tratado com respeito e educação e quando acontece chega a ser constrangedor.
O espírito natalino chega para mostrar que é preciso acreditar no invisível, na bondade, na educação. O espírito de porco mostra que é bem mais cômodo acreditar no invisível e arrastar o visível para debaixo do tapete com estampa natalina - é claro.

Interiorrrrr


            Eu nasci, cresci e ainda vivo numa cidade do interior. Minha família também, poucos saíram daqui e os que saíram não foram para muito longe, talvez seja aquela velha historia de que a fruta não cai longe da árvore, não sei, mas creio que isso também não faça muita diferença. O importante, aliás, o curioso não é a vida que temos numa cidade pequena, mas sim a vida que pensam que temos.
Me lembro de uma noite na faculdade e da pergunta que uma amiga me fez: “vocês têm lanchonete lá onde você mora?”. Respondi educadamente que sim e que eram três para ser mais exata. Mas por dentro uma resposta muito mais espontânea - e menos polida - pulava dentro de mim e tentava sair por entre os dentes: “é claro que temos lanchonete, ta achando que vivo de luz?, ração para cachorro?, alpiste? Ta insinuando que pela manhã toda a cidade se reúne na praça central e de mãos dadas se alimenta da energia do universo? Pô! Temos lanchonete. É bem verdade que é praticamente só isso que temos para fazer socialmente, mas temos. Talvez por isso a pergunta quase me ofendeu, não diminua uma coisa que já é pequena, poxa vida.
Vivo em cidade pequena mas gosto de sair da ostra as vezes, gosto de conhecer lugares e pessoas e é nesses momentos que descubro que – como diz uma outra amiga minha – a gente sai do interior mas o interior não sai da gente. Já passei por cada situação que só de lembrar me faz rir alto. Já fiquei trancada pra fora do quarto do hotel por esquecer o cartão-chave na cama o que me obrigou a descer até a recepção descalça, com o cabelo molhado e a toalha na mão. Já levei horas tentando fazer a luz do quarto acender e só depois percebi que tinha que colocar o cartão-chave no interruptor e a mais brilhante de todas fiquei dois dias, repito, dois dias, observando a praia de Copacabana pela fresta da veneziana porque eu não consegui achar a cordinha que levantava a infeliz, sem contar as piadas com o meu sotaque. Mas uma coisa eu nunca deixo de fazer: sempre vou à lanchonete, na minha cidade ou em qualquer outra, para variar o cardápio e rir.

Tendências para 2013



Não, não, não e não isso aqui não se trata de um tutorial de moda para 2013, não darei dicas sobre o corte de cabelo em moda, a roupa em moda, o batom em moda nem sobre qual pensamento entrará em moda no ano que vem. Será que ainda tem alguém lendo? Bom não sei, mas essa é para os fortes e continuarei escrevendo mesmo assim.
Estava eu assistindo TV no final de semana quando a apresentadora anunciou que no próximo bloco traria um cabeleireiro para dizer qual o corte de cabelo que morreria em 2013. Quase chorei ao imaginar o velório, milhares de mulheres carecas em volta do caixão adornado com vários acessórios para cabelo, trágico. Troquei de canal na hora, era informação de mais.
Tendências são coisas que surgem ninguém sabe ao certo de onde e sempre caminham para lugar nenhum. Para mim as tendência só servem para pasteurizar, elas não dão destaque às pessoas, apenas as deixam mais parecidas umas com as outras, o corte de cabelo, o modelo de blusa, o corte da calça o estilo do sapato, tudo igual, daí você sai de casa para a balada e encontra alguém com a roupa igual e acha que é falta de sorte, não, não é falta de sorte isso é tendência.
Tive um bom exemplo disto no ultimo sábado, fui à uma festa e na madrugada comecei a notar uma situação engraçada, praticamente todas as mulheres estavam com blusas semitransparentes e de cores bem fortes -  para não dizer fluorescentes – quando a luz era apagada e as luzes negras piscavam parecia que eu estava cercada pelo clã das lâmpadas neon funkeiras, fiquei sem saber se corria para salvar a minha vida ou ficava para ver se teria briga de sabre de luz – fui embora quando colocaram MC Catra cantando “vem pegar barriga, vem, vem pegar barriga”, suporto muita coisa na vida, menos música ruim - com os homens não foi diferente encontrei três com a mesma camisa xadrez. A única coisa que fica bem pasteurizada é o leite, já as pessoas eu prefiro diferentes, nós somos diferentes por natureza e não vejo problema nisso.
  Muita gente diz que as tendências são boas porque contagiam as pessoas e faz com que se sintam mais bonitas, ok, a gripe espanhola também contagiou um monte de gente e nem por isso é fashion. Bonito mesmo é destacar o que te faz diferente do outro e se sentir confortável com isso, o resto vem naturalmente. Mas tudo bem se você se sente bem em vestir só as roupas da moda, a amizade é a mesma. E como já dizia o mestre Jedi: que a força esteja com você Luke. 

Os bolsos



Ele era um cara comum. Vivia em uma cidade comum. Fazia coisas comuns.  Conhecia gente comum. Fazia um cursinho comum. Teria uma vida comum não fosse o bolso, os bolsos na verdade, os quatro bolsos da calça. Ele só usava calças comuns, àquelas sem detalhes, sem lavagem, um jeans azul com dois bolsos na frente e dois atrás, não usava cinto e a camisa de botões com vinco nas costas e nas mangas sempre para dentro. Muito sóbrio, até de mais pra ser sincera.
O maior problema dele, alem de estar desempregado, era a mania de guardar cada coisa em um bolso especifico da calça, se não coubesse no bolso não estaria com ele. Simples assim. Se ia ao mercado, mandava entregar as compras em casa, se estava caminhando e alguém lhe entregava um panfleto, dobrava e colocava no bolso esquerdo, se não coubesse jogava no chão mesmo. Cada coisa tinha seu lugar, era tão metódico que chegava a ser burocrático, diariamente antes de sair de casa seguia uma a uma as etapas: carteira com documentos e dinheiro em notas, bolso traseiro direito. Moedas soltas e um pentezinho daqueles redondos – não gostava de parecer despenteado -, bolso traseiro esquerdo. Celular – modelo comum que nem foto tirava - no vibracall, bolso dianteiro esquerdo. Chaves de casa ou da mobilete que eventualmente dirigia, bolso dianteiro direito. Se pulasse alguma etapa tirava tudo e começava de novo, caso contrário finalmente saia.
Ele sempre se sentiu deslocado, mas atribuía esse sentimento à falta de organização do restante das pessoas. Chegava a sentir calafrios quando estava em algum lugar e alguém tirava do bolso dinheiro amassado e junto acabava saindo outras coisas como moedas, chaves, papel velho, - Eca! Gente desorganizada me arrepia – pensava ele. Junto aos poucos amigos que tinha sempre se gabava de ser o mais organizado, separava as notas na carteira de forma decrescente, seu dinheiro era o mais retinho e sem amassados de toda a cidade, nem o caixa eletrônico tinha notas tão imaculadas.
A vida ia passando ano após ano sem nada incomum acontecer, até que um dia em um momento de total rebeldia, ele decidiu sair de casa com a camisa para fora da calça. Estava se sentindo praticamente um E.T. para ele parecia que a cidade toda o olhava julgando-o por estar com aquela camisa fora da calça – será que ele está usando drogas?- chegou a pensar ter ouvido alguém dizer.
No dia seguinte acordou com a sensação de estar com a vida de ponta cabeça, chegou a acreditar que estava de ressaca, mas se lembrou que não tinha bebido nada fora do comum, só sua caixinha de suco de morango, mas nada de álcool, jamais. Decidiu que nunca mais cometeria a loucura de sair da sua rotina, a sensação era ruim de mais. Depois de fazer toda a sua “via sacra” foi até a caixinha do correio e encontrou um telegrama, finalmente havia conseguido o emprego dos sonhos.
Uma semana depois de assumir seu cargo e passar o dia todo batendo carimbos, assinando livros, encaminhado documentação aos seus destinatários, tomando café pontualmente às 15h00 e voltando para casa as 17h00, ele estava finalmente completo, a sensação de vazio havia acabado, ele se encontrou na rotina perfeita. Conseguiu. Ele enfim se tornou Funcionário Publico.

Os Espelhos Bebem


Toda mulher vez ou outra na semana, quiçá no dia, para em frente ao espelho murcha a barriga, empina a bunda, vira de ladinho e fica se analisando esperando que o espelho da Branca de Neve apareça e diga o quando ela está linda. Eu também faço isso - quase todo dia diga-se - penso que ficamos com a esperança de que a cada olhada uma coisa diferente e melhorada possa aparecer. A barriga um pouco menor, os seios um pouco maiores, a pintinha a Marilyn Monroe, sei lá, alguma coisa tem que estar diferente, afinal resistimos a tentação de comer daquela trufa linda que passou o dia todo nos seduzindo, esse esforço tem que ser recompensado e express de preferência.
Quando olhamos para o espelho a visão do corpo por inteiro realmente faz parecer que aquele pneuzinho esta menor, mas é só desviar o olhar para a barriguinha sem o auxilio do espelho e percebemos que o “dito cujo” não diminuiu nada. Isso me faz pensar que o espelho da Branca de Neve existe, mas ele é mudo e alcoólatra. Deve ser um reflexo da modernidade talvez, naquela época só os nobres tinham espelho era mais fácil agradar e ele até podia se dar ao luxo de ser sincero, mas hoje até óculos é espelhado, isso sobrecarrega o podre coitado e ele agora mente, descaradamente. Isso explica o porquê de quando penteamos o cabelo na frente do espelho o penteado fica lindo, mas é só virarmos as costas e parece que acabamos de sair do naufrágio do Titanic.
O espelho é ardiloso ele quer que acreditemos nele para que quando estivermos na caça, supostamente lindas e poderosas, à procura do nosso príncipe encantado só encontremos os sapos. Por isso sempre vemos as barangas acompanhadas pelos homens mais bonitos, porque elas têm maquiador particular e não precisão se olhar no espelho para a produção ficar boa.
 Por isso eu proponho a dieta do cego, ela é bem simples: vamos relaxar e esquecer o espelho, o negocio agora é apalpar. Apalpou o pneuzinho e ele parece grandinho corre para academia, apalpou o pneuzinho e ele parece menor corre para confeitaria só para comemorar. E assim vamos felizes e descabeladas porém seguras de nós mesmas, sem ficarmos presas à velhos conceitos que tentam tatuar na nossa consciência o que é belo ou não. O velho ditado que diz que tudo que é bom engorda pode até estar certo, mas também tem coisa boa que emagrece além do que a Branca de Neve quase morreu comendo maçã.