Eu nasci,
cresci e ainda vivo numa cidade do interior. Minha família também, poucos
saíram daqui e os que saíram não foram para muito longe, talvez seja aquela
velha historia de que a fruta não cai longe da árvore, não sei, mas creio que
isso também não faça muita diferença. O importante, aliás, o curioso não é a
vida que temos numa cidade pequena, mas sim a vida que pensam que temos.
Me lembro de
uma noite na faculdade e da pergunta que uma amiga me fez: “vocês têm
lanchonete lá onde você mora?”. Respondi educadamente que sim e que eram três
para ser mais exata. Mas por dentro uma resposta muito mais espontânea - e
menos polida - pulava dentro de mim e tentava sair por entre os dentes: “é
claro que temos lanchonete, ta achando que vivo de luz?, ração para cachorro?,
alpiste? Ta insinuando que pela manhã toda a cidade se reúne na praça central e
de mãos dadas se alimenta da energia do universo? Pô! Temos lanchonete. É bem
verdade que é praticamente só isso que temos para fazer socialmente, mas temos.
Talvez por isso a pergunta quase me ofendeu, não diminua uma coisa que já é
pequena, poxa vida.
Vivo em cidade
pequena mas gosto de sair da ostra as vezes, gosto de conhecer lugares e
pessoas e é nesses momentos que descubro que – como diz uma outra amiga minha –
a gente sai do interior mas o interior não sai da gente. Já passei por cada
situação que só de lembrar me faz rir alto. Já fiquei trancada pra fora do
quarto do hotel por esquecer o cartão-chave na cama o que me obrigou a descer
até a recepção descalça, com o cabelo molhado e a toalha na mão. Já levei horas
tentando fazer a luz do quarto acender e só depois percebi que tinha que colocar
o cartão-chave no interruptor e a mais brilhante de todas fiquei dois dias,
repito, dois dias, observando a praia de Copacabana pela fresta da veneziana
porque eu não consegui achar a cordinha que levantava a infeliz, sem contar as
piadas com o meu sotaque. Mas uma coisa eu nunca deixo de fazer: sempre vou à
lanchonete, na minha cidade ou em qualquer outra, para variar o cardápio e rir.
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