Ele era um
cara comum. Vivia em uma cidade comum. Fazia coisas comuns. Conhecia gente comum. Fazia um cursinho
comum. Teria uma vida comum não fosse o bolso, os bolsos na verdade, os quatro
bolsos da calça. Ele só usava calças comuns, àquelas sem detalhes, sem lavagem,
um jeans azul com dois bolsos na frente e dois atrás, não usava cinto e a
camisa de botões com vinco nas costas e nas mangas sempre para dentro. Muito
sóbrio, até de mais pra ser sincera.
O maior
problema dele, alem de estar desempregado, era a mania de guardar cada coisa em
um bolso especifico da calça, se não coubesse no bolso não estaria com ele. Simples
assim. Se ia ao mercado, mandava entregar as compras em casa, se estava
caminhando e alguém lhe entregava um panfleto, dobrava e colocava no bolso
esquerdo, se não coubesse jogava no chão mesmo. Cada coisa tinha seu lugar, era
tão metódico que chegava a ser burocrático, diariamente antes de sair de casa
seguia uma a uma as etapas: carteira com documentos e dinheiro em notas, bolso
traseiro direito. Moedas soltas e um pentezinho daqueles redondos – não gostava
de parecer despenteado -, bolso traseiro esquerdo. Celular – modelo comum que
nem foto tirava - no vibracall, bolso dianteiro esquerdo. Chaves de casa ou da
mobilete que eventualmente dirigia, bolso dianteiro direito. Se pulasse alguma
etapa tirava tudo e começava de novo, caso contrário finalmente saia.
Ele sempre se
sentiu deslocado, mas atribuía esse sentimento à falta de organização do
restante das pessoas. Chegava a sentir calafrios quando estava em algum lugar e
alguém tirava do bolso dinheiro amassado e junto acabava saindo outras coisas
como moedas, chaves, papel velho, - Eca! Gente desorganizada me arrepia –
pensava ele. Junto aos poucos amigos que tinha sempre se gabava de ser o mais
organizado, separava as notas na carteira de forma decrescente, seu dinheiro
era o mais retinho e sem amassados de toda a cidade, nem o caixa eletrônico
tinha notas tão imaculadas.
A vida ia
passando ano após ano sem nada incomum acontecer, até que um dia em um momento
de total rebeldia, ele decidiu sair de casa com a camisa para fora da calça.
Estava se sentindo praticamente um E.T. para ele parecia que a cidade toda o
olhava julgando-o por estar com aquela camisa fora da calça – será que ele está
usando drogas?- chegou a pensar ter ouvido alguém dizer.
No dia
seguinte acordou com a sensação de estar com a vida de ponta cabeça, chegou a
acreditar que estava de ressaca, mas se lembrou que não tinha bebido nada fora
do comum, só sua caixinha de suco de morango, mas nada de álcool, jamais. Decidiu
que nunca mais cometeria a loucura de sair da sua rotina, a sensação era ruim
de mais. Depois de fazer toda a sua “via sacra” foi até a caixinha do correio e
encontrou um telegrama, finalmente havia conseguido o emprego dos sonhos.
Uma semana
depois de assumir seu cargo e passar o dia todo batendo carimbos, assinando
livros, encaminhado documentação aos seus destinatários, tomando café
pontualmente às 15h00 e voltando para casa as 17h00, ele estava finalmente
completo, a sensação de vazio havia acabado, ele se encontrou na rotina
perfeita. Conseguiu. Ele enfim se tornou Funcionário Publico.
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