quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Os bolsos



Ele era um cara comum. Vivia em uma cidade comum. Fazia coisas comuns.  Conhecia gente comum. Fazia um cursinho comum. Teria uma vida comum não fosse o bolso, os bolsos na verdade, os quatro bolsos da calça. Ele só usava calças comuns, àquelas sem detalhes, sem lavagem, um jeans azul com dois bolsos na frente e dois atrás, não usava cinto e a camisa de botões com vinco nas costas e nas mangas sempre para dentro. Muito sóbrio, até de mais pra ser sincera.
O maior problema dele, alem de estar desempregado, era a mania de guardar cada coisa em um bolso especifico da calça, se não coubesse no bolso não estaria com ele. Simples assim. Se ia ao mercado, mandava entregar as compras em casa, se estava caminhando e alguém lhe entregava um panfleto, dobrava e colocava no bolso esquerdo, se não coubesse jogava no chão mesmo. Cada coisa tinha seu lugar, era tão metódico que chegava a ser burocrático, diariamente antes de sair de casa seguia uma a uma as etapas: carteira com documentos e dinheiro em notas, bolso traseiro direito. Moedas soltas e um pentezinho daqueles redondos – não gostava de parecer despenteado -, bolso traseiro esquerdo. Celular – modelo comum que nem foto tirava - no vibracall, bolso dianteiro esquerdo. Chaves de casa ou da mobilete que eventualmente dirigia, bolso dianteiro direito. Se pulasse alguma etapa tirava tudo e começava de novo, caso contrário finalmente saia.
Ele sempre se sentiu deslocado, mas atribuía esse sentimento à falta de organização do restante das pessoas. Chegava a sentir calafrios quando estava em algum lugar e alguém tirava do bolso dinheiro amassado e junto acabava saindo outras coisas como moedas, chaves, papel velho, - Eca! Gente desorganizada me arrepia – pensava ele. Junto aos poucos amigos que tinha sempre se gabava de ser o mais organizado, separava as notas na carteira de forma decrescente, seu dinheiro era o mais retinho e sem amassados de toda a cidade, nem o caixa eletrônico tinha notas tão imaculadas.
A vida ia passando ano após ano sem nada incomum acontecer, até que um dia em um momento de total rebeldia, ele decidiu sair de casa com a camisa para fora da calça. Estava se sentindo praticamente um E.T. para ele parecia que a cidade toda o olhava julgando-o por estar com aquela camisa fora da calça – será que ele está usando drogas?- chegou a pensar ter ouvido alguém dizer.
No dia seguinte acordou com a sensação de estar com a vida de ponta cabeça, chegou a acreditar que estava de ressaca, mas se lembrou que não tinha bebido nada fora do comum, só sua caixinha de suco de morango, mas nada de álcool, jamais. Decidiu que nunca mais cometeria a loucura de sair da sua rotina, a sensação era ruim de mais. Depois de fazer toda a sua “via sacra” foi até a caixinha do correio e encontrou um telegrama, finalmente havia conseguido o emprego dos sonhos.
Uma semana depois de assumir seu cargo e passar o dia todo batendo carimbos, assinando livros, encaminhado documentação aos seus destinatários, tomando café pontualmente às 15h00 e voltando para casa as 17h00, ele estava finalmente completo, a sensação de vazio havia acabado, ele se encontrou na rotina perfeita. Conseguiu. Ele enfim se tornou Funcionário Publico.

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