Era pai de família. Casado à
quinze anos, um casal de filhos, herdara a casa onde moravam da mãe, não tinha
vícios mas tinha dois empregos que o matavam mais lentamente que qualquer droga
conhecida atualmente. Tudo o que possuía, desde a meia que usava até seu bem
mais caro, a geladeira, fora comprado à vista. Detestava dividas, preferia apertar
o orçamento, já tão apertado, para economizar mês após mês do que sair e abrir
um crediário e pagar tudo em suaves prestações a perder de vista. Não tinha poupança
em banco mas tinha um dinheirinho escondido no travesseiro, coisa pouca, cem
reais talvez, para uma eventual emergência, um caso de vida ou morte que,
dependendo da gravidade, terminaria em morte mesmo já que os seus cem reais mal
dariam para a farmácia.
Era
do tipo durão, pouco falava, não fazia piadas, tampouco ria, seus amigos do
emprego numero um achavam que ele não tinha dentes, os do emprego numero dois
achavam que ele não tinha vida. Mas uma coisa ele sabia: dentes ele tinha,
todos! Não eram brancos como os das pessoas nas revistas, mas estavam todos lá;
já a vida, realmente, essa ele não sabia se tinha. A verdade é que esse era o
único jeito de ser que ele conhecia, seu pai era assim e o pai dele também,
esse deveria ser o jeito certo de ser afinal sua família nunca passou fome nem tinham
antecedentes criminais, então para que mudar!?
Abreu
dormia cerca de cinco horas entre um emprego e outro, para ele era o suficiente.
Nem mais, nem menos, exatas cinco horas já bastavam, caso não fosse possível o
seu humor sem dentes, passava para total falta de humor. Naquele dia Abreu foi
acordado pelos gritos de sua mulher. Em um pulo foi para a cozinha esperando
pela catástrofe que o grito parecia anunciar e lá estava sua companheira de
quinze anos, sentada aos pés da geladeira que cheirava a queimado.
Depois
de uma longa conversa com a esposa que o fizera entender que a solução não
seria outra além de comprar outra geladeira, Abreu concorda. Ambos saíram para
a loja de eletrodomésticos para, infelizmente, abrirem um crediário. Era isso o
que mais doía em Abreu: abrir um crediário. Ele passou dois anos juntando
dinheiro para montar a casinha que seria a morada do casal para só depois pedir
sua então namorada em casamento, tudo isso só para não fazer dividas, não abrir
um crediário. Agora lá estava ele indo abrir um crediário, era uma emergência,
claro, mas mesmo assim era um crediário, era uma divida, passou o caminho
inteiro até a loja se coçando.
Não
escolheram a marca, o modelo, a cor nem o tamanho, compraram pelo preço e só, gelando
o que estivesse lá dentro o resto não tinha importância. Foram até o caixa para
negociar o pagamento.
O atendente
era um jovem, sorridente e simpático ao extremo, não era o tipo de atendente
habitual – e realmente não era, aquele
era seu primeiro dia na loja – ele pergunta:
- O crediário
vai ficar no nome de quem?
- Abreu.
- Ah se o
senhor não pagar, nem eu! – diz o atendente rindo e em tom de deboche.
Abreu bufou e
saiu da loja deixando sua esposa sozinha. Nunca mais Abreu foi visto no
empregou um, nem no dois, o dinheiro do travesseiro também desapareceu.
Ninguém sabe o paradeiro de Abreu. Ninguém
sabe se esta vivo ou se morreu, mas hoje ele é uma lenda no comercio, uma lenda
com o nome sujo no SPC, haja conta no nome do Abreu.
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