Não, isto aqui não se trata de um
tutorial sobre como trocar a cor do Facebook. Mas creio que o assunto não deixe
de ser um vírus, assim como a promessa de troca da cor da rede social. Com o
advento do nosso mais novo amiguinho de infância o “Face”, todos nós – me incluo
nessa também, afinal, divulgo o que escrevo no Facebook – passamos a ter mais visibilidade,
eu diria, não só da nossa vida mas também do importante que tudo: a vida do
outro. Quem tinha algo a dizer mas não sabia onde ou como, encontrou no Face o
lugar perfeito para expor suas ideias, já quem não tinha muito a dizer também. Essa
ferramenta virtual incutiu em seus usuários um certo vírus do “pseudo-ativismo”.
Atualmente vemos uma enxurrada de
postagens sobre Feliciano, que veio a afogar a anterior enxurrada Renan Calheiros.
O que elas tem em comum? O vírus do pseudo-ativismo. Ele vem contaminando a
todos sem distinção de raça, cor, credo ou gênero. Hoje todos amam os animais e
a natureza, protegem as crianças e as mulheres, fazem valer seus direitos de
cidadão e lutam pela igualdade em todo os seus sentidos, todos se transformaram
em ativistas das quatro paredes, defendem o que acreditam e acreditam no que
defendem com todas as forças, mas só quando estão conectados ao Facebook e à
falsa proteção que acreditam ter na internet.
Dar a fotografia, que nem precisa
ser verdadeira, à tapa é muito mais fácil do que dar a cara, propriamente dita,
à tapa ao defender um ponto de vista e uma posição política, por isso é tão cômodo
se deixar tomar pelo vírus do pseudo-ativismo. Em 1992 os caras-pintadas foram
os protagonistas de um marco da historia não só do Brasil mas de toda a America
Latina, foram aquelas pessoas que saíram às ruas com os rostos pintados e
defendendo o que acreditavam ser certo, que pressionaram o governo pelo
Impeachment do então presidente Fernando Collor. Mas o que isso tem a ver com o
Facebook e o pseudo-ativismo? A resposta é: Tudo. Collor deu um azar sem fim em
não ter, naquela época, o Facebook como aliado, neste caso os caras-pintadas
não teriam existido e nós teríamos ficado em casa sentados na frente do
computador, postando frases de efeito e aguardando, pacientemente, que ele se
comovesse e renunciasse à presidência. Assim ele teria cumprido os quatro anos
de mandato sem maiores problemas, quiçá seria reeleito. O máximo que nós faríamos,
se em 1992 existisse o Facebook seria, talvez, trocar a foto de perfil por uma
imagem da bandeira do Brasil e nada mais, seria o vírus do pseudo-ativismo
agindo e nos fazendo pensar que éramos cidadãos conscientes.
Para a sorte dos políticos é que
tanto no mundo virtual quanto no mundo real nós temos memória curta e o Collor
segue com sua vida política praticamente inabalada, sendo senador por Alagoas,
já para o Feliciano é só questão de tempo para que outro movimento virtual
surja e ele seja esquecido assim como Renan Calheiros foi.
Para a sorte dos caras-pintadas o
pseudo-ativismo é doença novinha, o mal do século XXI, graças a isso eles
entraram para a historia e têm historia para contar. Quanto a nós que já fomos
infectados pelo pseudo-ativismo, bem, acho que nosso fim será deprimente,
estamos condenados a marcar marchas pela cidadania – fora do mundo virtual,
sabe, aquelas onde as pessoas se reúnem e fazem barulho de verdade, dizem do
que pensam e se mostram, lembra o que é isso? Mundo real? – que contarão com
alguns poucos gatos pingados, praticamente sem força alguma. A cura para essa
doença todos nós conhecemos, mas o problema é que fora das quatro paredes, lá
no mundo não virtual, onde a vida acontece, não tem ar condicionado e não dá
para baixar um filminho ao mesmo tempo.