Já escrevi sobre o interior uma vez,
mas quem mora em cidade pequena, como eu, sabe que as situações vividas por nós
ao sairmos do interior são praticamente infinitas e hilárias – uns dez minutos
depois, ou menos, do ocorrido vira
motivo de riso pelo resto da vida – não é que não saibamos nos comportar ou
qualquer coisa do gênero, mas tenho a teoria de que nossa presença desequilibra
o psicológico de quem se considera um ser metropolitano, porque só isso explica
a mudança de comportamento deles assim que descobrem que vivemos no interior.
Para exemplificar minha teoria, segue
o que me aconteceu uma vez: enquanto conversava com um grupo de amigos na “cidade
grande” me lembrei que precisava de dinheiro, como não morava no local pedi que
me indicassem onde ficava o caixa eletrônico mais próximo. Coisa simples não é?
Seria, caso não fosse, eu, uma moradora de cidade pequena. A resposta que eu
esperava era uma indicação de onde ficava o caixa, mas o que eu recebi foi muito
mais profundo, uma amiga começou a me explicar que para usar o caixa eletrônico
eu precisava do cartão e da senha e que eu deveria fazer a operação o mais rápido
possível porque era muito perigoso. Acho que a cara de inconformada que eu
fazia – penso que talvez eu tenha começado a babar – enquanto ouvia as explicações comovia cada
vez mais a criatura que insistia em me explicar sobre o funcionamento do caixa,
cada vez com mais detalhes, chegando até a me dizer que eu não poderia dar a
minha senha para ninguém.
Ok, entendo a boa intenção, mas
caipira vive em cidade pequena, não na lua. Tudo bem que para falar a frase “a
porrrrta do corrrrrsa é verrrrrde” nós levamos mais tempo do que alguém que a
diz com apenas um “r” em cada palavra, mas o nosso excesso de erres não implica
numa menor quantidade de neurônios. Uma vez ouvi dizer que os gagos não gostam
que completem a frase que eles estão falando, portanto segue a dica: trate um
caipira como um gago, não ensine o que ele não esta te perguntando.
Mais recentemente fui à uma reunião regional – atente para a palavra regional – do local onde trabalho,
talvez seja interessante dizer que eu trabalho numa Junta Militar, sendo assim
havia muitos militares na reunião. Depois de duas horas ouvindo o palestrante
falar, falar e falar, tivemos uma pequena pausa que eu aproveitei para andar
pelo salão na tentativa de reencontrar a sensibilidade na minha bunda, que
naquela altura do campeonato já estava dormente. Pelo caminho encontrei uma
senhora que me abordou e perguntou de onde eu era, quando respondi pensei que a
mulher fosse ter um ataque do coração, ela arregalou os olhos e perguntou:
- Palestina!? Meu Deus, que é isso?
Sim, ela disse “que é isso” e não “onde
é isso” imagino que ela deve ter pensado que eu iria acionar uma bomba ou sair
correndo pelada e gritando “libertem a Palestina em nome de Allah”, sei lá,
tudo é possível numa mente desesperada como a dela aparentou ter ficado quando
ouviu o nome Palestina. Confesso que dessa vez não consegui segurar o riso, mas
disse à ela que era uma cidade na região
e depois de praticamente passar as coordenadas geográficas e assegura-la de que
se tratava de uma cidade no Brasil, voltei ao meu lugar para mais uma hora de
palestra com a bunda ainda dormente, mas com o bom humor fresquinho. Posso afirmar
que não me lembro de quase nada da ultima hora da palestra, já que fiquei rindo
sozinha ao imaginar tudo o que deve ter passado pela cabeça daquela senhora,
será que ela imaginou que eu fosse uma espiã infiltrada no exercito brasileiro?
Será que eu queria sequestrar algum Coronel em nome da "causa palestina"? Não sei, mas cada vez tenho mais
certeza de que a gente sai do interior, mas o interior não sai da gente – e como
isso é bom!
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