quinta-feira, 18 de abril de 2013

Interiorrrrrrrrrrr II


Já escrevi sobre o interior uma vez, mas quem mora em cidade pequena, como eu, sabe que as situações vividas por nós ao sairmos do interior são praticamente infinitas e hilárias – uns dez minutos depois, ou menos,  do ocorrido vira motivo de  riso pelo resto da vida –  não é que não saibamos nos comportar ou qualquer coisa do gênero, mas tenho a teoria de que nossa presença desequilibra o psicológico de quem se considera um ser metropolitano, porque só isso explica a mudança de comportamento deles assim que descobrem que vivemos no interior.
Para exemplificar minha teoria, segue o que me aconteceu uma vez: enquanto conversava com um grupo de amigos na “cidade grande” me lembrei que precisava de dinheiro, como não morava no local pedi que me indicassem onde ficava o caixa eletrônico mais próximo. Coisa simples não é? Seria, caso não fosse, eu, uma moradora de cidade pequena. A resposta que eu esperava era uma indicação de onde ficava o caixa, mas o que eu recebi foi muito mais profundo, uma amiga começou a me explicar que para usar o caixa eletrônico eu precisava do cartão e da senha e que eu deveria fazer a operação o mais rápido possível porque era muito perigoso. Acho que a cara de inconformada que eu fazia – penso que talvez eu tenha começado a babar –  enquanto ouvia as explicações comovia cada vez mais a criatura que insistia em me explicar sobre o funcionamento do caixa, cada vez com mais detalhes, chegando até a me dizer que eu não poderia dar a minha senha para ninguém.
Ok, entendo a boa intenção, mas caipira vive em cidade pequena, não na lua. Tudo bem que para falar a frase “a porrrrta do corrrrrsa é verrrrrde” nós levamos mais tempo do que alguém que a diz com apenas um “r” em cada palavra, mas o nosso excesso de erres não implica numa menor quantidade de neurônios. Uma vez ouvi dizer que os gagos não gostam que completem a frase que eles estão falando, portanto segue a dica: trate um caipira como um gago, não ensine o que ele não esta te perguntando.
Mais recentemente fui à uma reunião regional – atente para a palavra regional – do local onde trabalho, talvez seja interessante dizer que eu trabalho numa Junta Militar, sendo assim havia muitos militares na reunião. Depois de duas horas ouvindo o palestrante falar, falar e falar, tivemos uma pequena pausa que eu aproveitei para andar pelo salão na tentativa de reencontrar a sensibilidade na minha bunda, que naquela altura do campeonato já estava dormente. Pelo caminho encontrei uma senhora que me abordou e perguntou de onde eu era, quando respondi pensei que a mulher fosse ter um ataque do coração, ela arregalou os olhos e perguntou:

- Palestina!? Meu Deus, que é isso?

Sim, ela disse “que é isso” e não “onde é isso” imagino que ela deve ter pensado que eu iria acionar uma bomba ou sair correndo pelada e gritando “libertem a Palestina em nome de Allah”, sei lá, tudo é possível numa mente desesperada como a dela aparentou ter ficado quando ouviu o nome Palestina. Confesso que dessa vez não consegui segurar o riso, mas disse à ela que era uma cidade na região e depois de praticamente passar as coordenadas geográficas e assegura-la de que se tratava de uma cidade no Brasil, voltei ao meu lugar para mais uma hora de palestra com a bunda ainda dormente, mas com o bom humor fresquinho. Posso afirmar que não me lembro de quase nada da ultima hora da palestra, já que fiquei rindo sozinha ao imaginar tudo o que deve ter passado pela cabeça daquela senhora, será que ela imaginou que eu fosse uma espiã infiltrada no exercito brasileiro? Será que eu queria sequestrar algum Coronel em nome da "causa palestina"? Não sei, mas cada vez tenho mais certeza de que a gente sai do interior, mas o interior não sai da gente – e como isso é bom!

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