Algumas coisas
precisam passar duas ou mais vezes na nossa frente para que possamos dar
atenção, foi isso que aconteceu. Eu estava lendo uma historinha de princesa
para minha priminha quando ela disse: “peraí que vou procurar uma menor”;
concordei, estava com pressa e precisa voltar para casa. Outro dia, mexendo na
rede social vi que alguém tinha curtido uma página sobre frases curtas, foi
nesta hora que me dei conta de quão vazias as atitudes têm se tornado.
Atualmente
tudo deve ser o mais rápido e eficaz possível. Todos querem impressionar com
uma única foto em sépia, mostrar profundidade de pensamento com, apenas, uma
frase de preferência menor que uma linha, ler a manchete e deduzir o conteúdo
da matéria inteira. Hoje me perguntei o porquê, o estranho é que demorei a
encontrar a resposta.
Assim, propus
uma reflexão a mim mesma: será que as coisas assim tão curtas e rápidas
funcionam? Conclui que inicialmente sim. Já me impressionei com lindas fotos e
micro legendas, já deduzi que algumas pessoas seriam um poço de cultura só por
ter lido uma de suas frases que facilmente caberiam em uma caixa de fósforos e
ainda deixaria espaço para os palitos. Mas outra conclusão me ocorreu tão
rapidamente quanto a primeira e essa perdurou: isso não basta.
A historinha de
princesa foi contada em tempo recorde, talvez minha prima até se lembre dela
quando crescer, mas qual era a cor do vestido da princesa? Ela tinha coroa? O
sapatinho era bonito? Ela tinha um bichinho de estimação? O castelo era grande
e cheio de torres? Tinha uma ponte para entrar e sair dele? Não sei, não couberam
detalhes, os nuances se perderam. Situação idêntica acontece com as pessoas, àquelas
frases impressionantes são esquecidas assim que outra aparece e toda aquela
aparente inteligência dá lugar a algo que logo será esquecido (de novo) e o
poço de cultura vira poça. As fotos lindas em preto e branco ou sépia que
tentam te conquistar conquistam momentaneamente, mas a legenda não passa de uma
cópia (resumida) das ideias de outro alguém e pessoalmente a imagem criada não
se sustenta.
Tal superficialidade
impregnou no nosso cotidiano, quase como uma doença assintomática está
diariamente nas nossas vidas e nem nos damos conta. Os relacionamentos cada vez
mais frágeis acabam ao primeiro sinal de conflito, muitos casamentos já
não completam bodas alguma, claro que ninguém
precisa ficar com outra pessoa que não queira, mas vivemos a era de plástico onde
ninguém tenta consertar o que quebrou, é muito mais fácil trocar logo de uma
vez e partir para outra como numa linha de produção. “Você não me disse o que
eu queria ouvir, vou descurtir você e procurar outra pessoa”, estamos ficando mecânicos,
levemente insossos, quase como comida congelada estamos embalados em porções
individuais. Para que comer no restaurante? Pedimos em casa daí eu como no sofá
mexendo no celular e você na mesa usando o notebook, quem sabe conversamos no
chat. É mais rápido e prático, mas também é mais sem graça, sem vida e sem
criatividade.
Ler uma
história curta, resumir uma ideia numa frase curta ou ter uma conversa curta
serve para que? Passar mais tempo no trânsito? Dormir mais? Trabalhar mais?
Viver menos! A expectativa de vida tem aumentado, mas a vida tem diminuído.
Perder os detalhes de cada momento é perder a chance de viver mais, de se
encher de sentimentos, de ter conteúdo. Conhecimento só vem com horas de boas
leituras, conversas, cores e detalhes.
Alguém leu até o fim? ;)