quinta-feira, 30 de maio de 2013

O cheiro do desperdício

7h15

    O relógio despertou. Como já era automático ela levantou da cama, com os olhos quase fechados percorreu o caminho tão conhecido do quarto até o banheiro, do banheiro até a cozinha, da cozinha até o banheiro novamente e de lá para o carro.

8h00

    Já estava no trabalho e iniciou a rotina de abertura do seu local de labuta que carinhosamente apelidara de "minha biboca".

8h07

    Estava sentada à mesa onde passaria oito horas de um longo dia, computador ligado, ventilador também, e-mails sendo conferidos, Skype pronto para atender a qualquer chamada urgente, ou não. Ansiosamente digitava a senha do Facebook esperando pelos inúmeros sinais de mensagens e avisos, e como também já era natural os inúmeros sinais se resumiam a sem numero algum.

    O dia era mais um semelhante a todos os anteriores, o que sempre mudava era a cor da blusa e o tom do jeans que ela usava, quase como um uniforme, os diálogos também não variavam muito, dependiam muito das necessidades de quem a procurava, cada documento abria espaço para um papo diferente mas tão mecânico quanto o qualquer um deles.

    - Oi, preciso fazer o documento "X", do que eu preciso? – perguntava o cidadão aflito pelo documento que era indispensavelmente necessário para o dia seguinte.

    - CPF, RG, comprovante de residência, certidão de nascimento, duas fotos 3x4 com paletó e gravata. – respondia ela como o vento.

    - O do documento" Y" do que preciso? Perdi o meu há uns quatro anos, sabe, mas meu chefe ta me pedindo pra amanhã, será que rola?

    - Humm, quatro anos né!? Olha, rola ele não rola, mas fica pronto em cinco minutos, já o documento "X" demora um pouco, esse só na daqui umas duas semanas. – diz ela quase como um computador bem programado.

    Sem tirar os olhos da tela do computador onde ela lia o e-mail promocional de um sapato lindo, entregou ao seu interlocutor a lista com todos os documentos necessários e ficou esperando pela volta do que foi até então uma companhia. O período da manhã acabou e ela rapidamente saiu para o almoço e uma hora depois estava de volta à biboca. Após o almoço o tempo seguia sempre mais lentamente, o que se arrastava agora agonizava praticamente imóvel. Mas naquele dia ela estava decidida a não ser tirada do serio, a energia elétrica poderia acabar, o rímel poderia até borrar, mas a pontinha de alegria que ela sentia não seria abalada por nada, a noite prometia.

    Já estava tudo combinado com os amigos, o ponto de encontro e as bebidas que seriam levadas. Ela já tinha separado a bebida, sempre forte, que consumiria na noite e a mantinha carinhosamente imaculada na geladeira, tudo minuciosamente preparado para AQUELA noite.

16h59

    Já estava passando o cadeado no portão.

17h00

    Dentro do carro, seguiu para casa.

17h03

    No sofá de casa ela assistiu o canal de noticias, leu qualquer matéria na revista que passou a semana sobre a mesa de centro, continuou lendo, por mais um capitulo, o livro que descansava na estante esperando para ser terminado.

    Naquele momento parecia que o tempo havia decido correr, talvez para manter o equilíbrio, afinal um dia tem vinte e quatro horas e a lentidão que ele se mantivera ao longo do dia fazia parecer já ter passado umas vinte e três.

19h30

    O banho, o sabonete da loja cara, o xampu recomendado pela cabeleira que dizia ser de uso profissional, os minutos de espera para o condicionador agir, o enxague. Fora do box usou o creme para os cabelos sem enxague, penteou-os com delicadeza, sem tirar o sorriso do rosto, foi para o quarto onde espalhou delicadamente o creme hidratante, também da loja cara, por todo o corpo, secou os cabelos com o secador que pegou emprestado especialmente para aquela noite.

    No guarda roupas retirou a calça e a blusa que havia pensado durante toda a tarde e que combinariam lindamente com o sapato daquele e-mail, mas como o sapato ainda não era seu, e talvez nunca seria, usou a bota nunca usada antes e que também combinava lindamente com a noite fria que fazia lá fora, mas nem o frio a faria perder o equilíbrio, porque aquela noite prometia. Já completamente vestida, ela foi para o espelho fazer a maquiagem que taparia aquelas sardinhas que cismavam em fazer da bochecha dela, sua moradia. De volta ao quarto, ela borrifou o perfume importado que usava apenas em ocasiões especiais, pegou o dinheiro e o celular, passou pela cozinha para pegar a bebida que aguardava seu momento e saiu de casa para encontrar os amigos.

21h30

    Na casa de uma das amigas onde havia combinado de passar para saírem juntas, ela esperou enquanto a amiga procurava por uma calça que abotoasse, o tempo foi passando sem que a tal calça se apresentasse dentre todas as que jaziam penduradas nos cabides, então ela decide tomar uma dose direto da garrafa que trazia dentro de uma sacola plástica e que devia ser alojada num isopor com gelo que a turma já havia separado para aquela noite. Os celulares, dela e da amiga, tocam quase que simultaneamente, é o inesperado se apresentando feliz como uma criança com um brinquedo novo, feliz justamente por não ser esperado.

    Em letras maiúsculas ela leu a mensagem: "a chuva miou tudo, remarcaram para semana que vem". Ela e a amiga começam a ligar para todos da agenda tentando ouvir que não era verdade, mas sim, minutos depois ambas descobrem que era verdade, tudo fora desmarcado, a noite estava arruinada.

    A amiga voltou para o quarto de onde saiu vestida com o pijama, para ela aquilo serviu como o golpe de misericórdia, era a confirmação de que realmente toda a turma estava fazendo o mesmo e para ela restava, apenas, se unir novamente ao amigos e fazer o mesmo.

22h00

    Ela chegou em casa onde encontrou a Pequena, o segundo ente mais novo da família, que a recebeu com um abraço e um pedido de colinho. Alguns chamegos depois, as duas sentadas no sofá assistindo TV a Pequena, que é o primeiro ente mais atencioso da família, perguntou:

- Nossa que “cherosa” que “ce” tá, que “chero” é esse?

- Esse cheiro!? É desperdício Pequena, esse é o cheiro do desperdício.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Diário de uma bêbada, parte II.

       Olááá criançada, cá estou eu novamente - depois de errar a senha do note duas vezes - achei que seria mais rápido, mas até que demorei pra voltar. Depois de algumas tequilas (5) e uma ou outra dose de vodka de baunilha (2) chegueiiii! O horário não vem ao caso, nunca me apeguei a detalhes (mentiraaaaa!) mas que não vem ao caso, não vem mesmo. O esquema é o mesmo vou seguir a filosofia popular e só vou postar isso aqui quando estiver sóbria. 

       A grande novidade é que descobri que sou uma E.T., isso mesmo uma Extra Terrestre, se não for isso não sei explicar o que é, só sei que o fato é que, diante do que eu venho vendo ao longo dos anos, eu devo ser a única pessoa que se empolga ouvindo Djavan, quando ouço ele cantando eu grito a musica junto de uma forma que quem me vê deve achar que eu to louca, porque sim eu canto Samurai aos berros e para as outras pessoas que dançam quadradinho de 8 (ô conta mal feita) isso deve ser o cumulo. 

       Uma coisa eu posso afirmar: se o Djavan aparecesse na minha frente agora e me pedisse em casamento eu casava na hora, sem medo de ser feliz, imagina ele cantando "Pétala" pra mim toda manhã que lindo. Agora para e imagina o Luan Santana cantando "Meteoro da Paixão" as cinco da matina, vê se isso não é caso de pedir uma chuva de meteoro na cabeça desse gurizinho só pra garantir que ele nunca mais abra a boca. 

       Você descobre que esta velha quando vê um bando de gente juntando a cabeça pra tirar foto e percebe o quanto isso é ridículo só depois de já ter feito isso varias vezes durantes anos e achava que era super fofo. Se tirar foto e postar no Facebook era legal e hoje você reza pra nenhuma foto sua aparecer no Face do vizinho, na boa você descobriu o quanto é bom passar despercebido e você só descobre isso depois de ficar velho. 

       Hoje redescobrir o calor dos braços de Zezinho, até então eu só havia experimentado nas noites já bem quentes e tão naturais daqui, o friozinho do inverno manso dessa região não significa nada diante de José, enquanto as novinhas aspirantes à família Surfistinha tremiam de frio, eu sorria de orelha a orelha ao lado de José, como ele me deixa simpática, amável e boa dançarina, com ele enxergo mais longe até com os olhos quase fechados, nos seus braços eu sou só sorrisos. Não me importo se você é Gold ou Silver (não sou racista), feito de Agave Azul reposado em barris de carvalho ou feito de arroz agitado em garrafa de plástico, para mim você sempre será Especial. Te quiero mi chiquito, muy hermoso, obrigada José Cuervo. (uruuu bêbeda eu viro poliglota)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Não gosto muito de você, oncinha.

       Não quero ofender nenhuma ONG protetora dos animais, nem algum fã de Caetano Veloso, pelo trocadilho, até porque o texto não se trata disso – apesar de saber que no final alguém acabará ofendido – o assunto principal aqui é outra coisa, um tanto mais intima, eu diria, do que cantar: “Gosto de ficar ao sol, leãozinho; de molhar minha juba, de estar perto de você, e entrar numa” ao pé do ouvido. Estou aqui para falar de roupa intima, mais especificamente de roupa intima com estampa de animais.


      Há quem diga que é extremamente sexy, ok! Pode até ser mesmo, pra onça. Imagino que lá no meio da floresta amazônica, deitado sob a sombra de uma grande árvore, o senhor onça macho fique excitadíssimo vendo a senhora onça se aproximar lentamente enquanto solta o seu rugido sensual. Ponto. Isso é o máximo de sensualidade que eu consigo imaginar envolvendo animais e suas estampas. Nunca consegui comprar roupas intimas com estampas de onça, zebra, cobra, papagaio ou periquito, para falar a verdade nem sapato com forro de estampa de bicho eu consigo comprar, quando olho para peças com essas estampas a primeira coisa que me vem à mente é: núcleo economicamente desfavorecido da novela das oito (o termo em itálico lê-se: pobre, mas leia sussurrado, os politicamente corretos estão à espreita).

      Não importa se é de grife, se é cravejado de cristais Swarovski ou se custa mais caro do que meu rim no mercado negro, eu olho uma estampa de bicho e vejo o núcleo B das novelas da Gloria Peres. Uma vez até tentei comprar uma blusinha de oncinha, mas assim que me olhei no espelho me senti pronta para gritar: Valdysneyson, vem cá! Tirei a blusa na hora e fiquei só com o meu tradicional pretinho básico.

        Acredito que as pessoas devam usar as roupas que as façam bem, não importa se a estampa é de onça, de flor ou se nem tiver estampa, em se tratando de vestuário o importante é você se sentir bonita e confortável – se essas duas palavras puderem andar juntas, melhor ainda – eu me sinto bem deixando apenas os animais usarem suas estampas, nunca vi alguém usar uma estampa de onça melhor do que a própria onça, sem contar que tenho medo de gritar Valdysneyson outra vez e alguém responder: “Chamou!? Seu tigrão chegou.”

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Programão de família


Ontem foi o dia da mulher mais importante na vida de qualquer pessoa – mesmo para os pseudo garanhões que adoram afirmar aos amigos que têm varias mulheres, acredite a única que sempre abrirá a porta para você é a sua mãe, portanto pare de gastar saliva com historias que seus coleguinhas estão cansados de saber que são mentiras e empregue mais tempo tentando agradar quem te achou lindo quando você estava todo sujo de sangue e placenta, vai por mim,  se ela te achava lindo naquela situação ela, no mínimo, merece respeito -  dia das mães é todo dia diriam muitos e eu concordo. Mas como nós, meros seres humanos, sempre precisamos de uma forcinha para lembrar o que é importante, instituir o segundo domingo do mês de maio como o dia das mães foi uma bela ideia, pelo menos assim todas elas recebem a atenção que merecem em casa e também fora dela – sem contar que os publicitários agradecem.

Dia das mães na maioria das famílias é o dia do churrasco na casa da avó, o dia que todos os primos se encontram e aproveitam a proximidade para provocar uns aos outros, o dia que o bebezinho da família vira a bandeja de doações da igreja e fica passando de mão em mão, é o dia em que esse mesmo bebezinho come o equivalente a uma semana porque todos querem dar de comer ao pequeno serzinho. Na minha família não é diferente e ontem não foi diferente.

Enquanto o almoço não saía, eu tentando não ficar com o cabelo cheirando a fumaça da churrasqueira, fui para a sala ver televisão. Quando liguei o aparelho a sala foi tomada pelas batidas do Funk, só não cai de costas porque já estava sentada, fiquei uns minutos na frente da TV esperando para ver o que viria depois – esse foi o meu erro – quando a musica acabou apareceram: a mãe do MC, o irmão do MC, a irmã do MC, a sobrinha do MC e o apresentador tentando apelar para o emocional, começou a falar da vida sofrida da família MC, desliguei a televisão e fui para fora compartilhar aquela fumaça de churrasco com o restante da família.

Umas duas horas depois, voltei para sala e liguei a TV outra vez, e lá estava outro MC, dessa vez uma mulher cantando que se o namorado a traísse ela sairia com o melhor amigo dele e depois contaria pra todo mundo, dessa vez nem esperei para ver o que aconteceria depois, desliguei a TV e fui me defumar junto à churrasqueira.

 Ainda há quem diga que a TV brasileira não proporciona bons programas aos telespectadores, eu discordo. Meu programa de dia das mãe foi muito melhor graças a TV brasileira, graças a falta de qualidade da programação dominical pude passar mais tempo com minha família, ri horas sem parar das bobeiras que falamos, comi sem culpa, falei porcaria e pude passar mais tempo com gente de verdade. Isso para mim é programação de qualidade. Quanto ao cheiro de churrasco, bom, esse saiu no banho. Quanto à TV, bem, essa eu só não queimo porque custou dinheiro e eu ainda não estou louca o suficiente para queimar dinheiro, mas ainda tenho lucidez suficiente para reconhecer o que é bom ou ruim, por isso agradeço a TV aberta por ter uma programação tão ruim a ponto de me repelir da sala e me permitir compartilhar de dias únicos com minha família, eles sim sabem o que é uma boa programação.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

O Vento


O vento pode atingir velocidades impossíveis ao seres humanos. Pode estar presente em vários lugares ao mesmo tempo, pode ser sentido por todos. Pode ser arrasador quando necessário e também companheiro quando, aparentemente, só resta a solidão e é nesses momentos que ele se torna visível, quando os olhos estão fechados e ele nos toca fazendo os sentimentos arrepiarem a pele e assim vemos em seus braços as lembranças que acalentam e mostram que nem tudo é escuro que o fim só existe quando os olhos fecham e vento não é mais sentido. Seres falhos, fracos sempre precisando ser lembrados de que somos quase nada diante da grandiosidade dos ventos presentes em todos os lugares secando as lagrimas de todos que se permitem sentir, ele é capaz de fazer coisas que nós não podemos pelo simples motivos de sermos humanos.

(Esse pequeno texto foi escrito na minha época de escola, só postei porque o encontrei perdido, e sozinho, em uma pasta sem nome no meu HD externo. Ahhh essas crianças...)

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Diário de uma bêbada, parte I


Boa noite queridos leitores, que poderão estar lendo isto durante o dia, como diz o ditado pra lá de contemporâneo: nunca post nada bêbado. Prometo só postar isto quando eu estiver sóbria e após passar o corretor ortográfico. Como diz o titulo eu estou bêbada e a pergunta que não quer calar é: você esta bêbada de verdade? A resposta é: SIM!!!!!  Acabei de chegar de uma festa de casamento e agora to assistindo a reprise do globo de ouro, não sei se é o álcool ou a idade que já ta pesando, mas to quase entrando em depressão porque to conseguindo cantar todas as musicas do programa.  Só pra constar, o casamento foi lindo e o bolo tava delicioso, assim como o DJ.

            Hoje notei coisas incríveis:

1. Nem todo mundo que sorri e acena esta sorrindo e acenando pra você, portanto, contenha essa mão que insiste em balançar no ar em retribuição.

2. A Angélica ta cantando agora e eu to cantando também, vou de taxiiiiiii, cê sabeeeeee, uruuuuu, tchuruu tchuruuuuuuu.

3. Já consegui por o pijama mas o cabelo eu não vou desfazer até amanha,  por quê? Porque paguei por ele e vou usufruir até a ultimo fio de cabelo penteado.

4. To rindo horrores da forma como estou escrevendo, ta tudo errado e ainda assim eu entendo.

5. Whisky é ruim, mas com guaraná e gelo tudo desce suave.

6. A palavra pé perde totalmente o significado quando você passa 4 horas se equilibrando num salto de 8 centímetros.

6. Com 8 centímetros a mais eu fico com mais de 1, 80 m, o que me deixa parecida com um travesti.

7. Acabei de ver que repeti o numero 6 mas o Fabio Jr. começou a cantar “caça e caçador” e como estou cantando junto não vou voltar  e apagar o que errei.

8. A Claudia Raia era horrível na década de 80, o que me faz pensar que daqui a uns 30 anos eu posso estar gostosona, mas duvido, ela é atriz da globo e eu ou Funcionária Pública o que implica em milhares de reais a menos na conta.

9. Vou fazer xixi pela enésima vez.

10. Oi voltei. Acabei de lembra que chinelo Havainas significa a mesma coisa que orgasmos múltiplos após 4 horas em cima de um salto de 8 cm.

11. Depois de uma festa toda mulher parece um panda, o que faz pensar: será que eu também  to em extinção?

 12. Disseram que eu fiquei linda de trança, ao passo que eu respondi: onde eu acho guaraná? Sim, esta foi a resposta errada.

13. Todo banheiro feminino deveria ter uma privada autolimpante.

14. A bateria de um laptop dura menos que a bateria de um bebum.

15.  Solucei, traduzindo: boa noite.

Ps. Tenho certeza que vou pensar três mil vezes antes de postar isso amanhã.
Pps. Eu penso muito antes de fazer as coisas quando estou sóbria.
Ppps. Eu deveria viver bêbada?
Pppps. Não! Eu deveria pensar menos.
Ppppps. Uauuuu, isso foi uma epifania.


(Nota do dia seguinte: eu estava certa, pensei várias vezes antes de decidir postar este texto)