quinta-feira, 10 de julho de 2014

Vida que segue.

Quem de nós nunca ouviu essa frase? Ela está fortemente associada à morte, seja daquele bichinho de estimação lá na infância ou de algum ente próximo, de fato nesta situação a vida para. Interrompemos o cotidiano por conta de uma situação inesperada que chega e congela tudo, paramos a vida para a última homenagem a alguém que nunca mais veremos sorrir, paramos porque o silêncio do velório pesa e o relógio anda mais lentamente, mas depois que todos os rituais fúnebres terminam e assentam o ultimo tijolo, depois que o cheiro de vela e de flores murchas sai do nariz e das roupas a vida segue, de inicio lentamente, mas segue. 
Depois da derrota do Brasil essa sentença se tornou o novo grito de guerra dos inconformados, a nova justificativa para esconder o amendoim colorido no fundo do armário e voltar à reclamar da política nacional, voltar à reclamar de qualquer coisa que mereça, ou não, uma ruga na testa.
Os reacionários da banda larga, que pretendem mudar o mundo no ar condicionado enquanto curtem a nova foto do Caio Castro no Instagram, acharam os sete motivos perfeitos para criticar, só agora, a Copa do Mundo: “gastaram bilhões e nem ganhamos essa porcaria de campeonato consumista feito para essa massa alienada, que só serve pra fazer a felicidade desses pobres ignorantes” (e podre vai em estádio?, pobre paga R$ 10,00 numa pipoca?), “não temos educação”, “não temos saúde”, “não temos estradas”, “nossos políticos são nojentos”, “somos um dos países mais violentos”, “temos estádios modernos e hospitais sucateados”... Em planeta nenhum o Brasil ganhar a sexta estrela é justificativa suficiente para os bilhões dispensados para este “espetáculo”. O sumidouro de dinheiro publico foi criado assim que o Brasil foi escolhido para sediar esse evento e bordar, ou não, mais uma estrela verde num tecido amarelo não muda nada.
Dizer que a vida segue após a derrota da Seleção Brasileira é, no mínimo, um equivoco. Vida que segue? Mas quando foi que ela parou? A Copa do Mundo não chegou de surpresa interrompendo o seguimento natural de nossas vidas, ela tinha hora marcada pra começar e tem hora para acabar. Estão atribuindo um valor muito maior do que a situação merece, um jogo implica em derrota ou vitória não em morte ou vida, se alguém perdeu alguma coisa foram os jogadores, já que não receberam seu valioso prêmio em dinheiro pela vitória, quanto a nós já estamos perdendo há anos com nossa mórbida passividade, este titulo nada mudaria, não vou chorar pela morte de quem ainda vive.

Em 2014 está derrota é muito mais importante porque dá espaço para que se perceba que o verdadeiro jogo começa em outubro e nesse campeonato sim é vida ou morte. A Eleição Presidencial implica muito mais em conquistas e derrotas do que um jogo de bola, muita gente vai morrer se hospitais não forem construídos, muita coisa vai deixar de acontecer se a educação não for o foco deste país. Não adianta dizer que não fizeram investimentos em educação e saúde porque gastaram tudo em estádios, mentira! Não investiriam em escolas ou hospitais porque não investiriam mesmo. Acredite é em 2015 que descobriremos se vamos passar mais quatro anos num velório recorrente ou se é vida que segue.