quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Mudança e o Rabo Preso


A senhora Mudança era muito carismática, trazia sempre um brilho especial que iluminava os lugares que frequentava, algumas pessoas sentiam um certo medo quando ela começava a se aproximar, travavam, gaguejavam, recuavam ou suavam frio mas a grande maioria desejava que ela estivesse sempre por perto com seu perfume sempre fresco, aquela alegria e alto astral que contagiavam todos.
O senhor Rabo Preso era sério, rabugento na verdade, mas tinha uma lábia de dar inveja a vendedor de carro usado, quando saía de casa procurava ser sempre o mais simpático possível, sempre sorridente e prestativo, adorava fazer promessas mas sempre pedia algo em troca, as vezes prometia emprego para um, mas em troca pedia favores à família toda, chegou até mesmo a prometer a mesma vaga para mais de uma pessoa, prevaricava e muito.
Ambos eram muito bem casados, acreditavam que haviam encontrado sua alma gêmea a pessoa que compreendia e completava cada um deles. O muitas vezes ingênuo senhor Eu Acredito era o porto seguro de sua devota esposa senhora Mudança, já o senhor Rabo Preso era o marido ciumento da valente senhora Eu Prometo. Os quatro eram vizinhos e levavam vidas tranquilas se ajudando mutuamente – a não ser o senhor Rabo Preso que sempre pedia mais do que tinha a oferecer – sempre cooperando um com o outro mantinham o equilíbrio e seguiam seus caminhos, tudo seria perfeito não fosse o fenômeno que a cada quatro anos assombrava suas vidas, ninguém entendia corretamente o que acontecia mas a verdade é que a relação dos quatro vizinhos se tornava extremamente promíscua, virava carnaval, um dissimulado desfile de alegorias.
Neste período que durava alguns meses do ano numero quatro a senhora Eu Prometo mantinha relações extraconjugais “calientes” com o senhor Eu Acredito, já o senhor Rabo Preso abusava indiscriminadamente dos dois, mas principalmente da senhora Mudança fazendo com que ela o detestasse cada dia mais, mas este adorava-a, não que fosse algo sincero, ele apenas adorava aproveitar a popularidade da senhora Mudança, ele a prostituía, a oferecia em troca de favores, vendia como se ele fosse seu dono. Ela por sua vez odiava ser usada, assim desprezava as atitudes do senhor Rabo Preso, ele atrapalhava sua caminhada, não permitia que ela seguisse a via correta, não dava a liberdade que ela tanto precisava para existir, ditava o momento que ela deveria chegar e sair, sufocava-a.
No final deste período de quatro anos, o ano Um como costumavam chamar, o senhor Rabo Preso se recolhia, ficava quieto tentando se camuflar à paisagem, permanecia em sua confortável sala dando nós na coleira que havia usado para manipular a senhora Mudança, quase trinta nós que o fariam lembrar por quatro anos o quanto ele dependia de seus vizinhos: senhor Eu Acredito, senhora Mudança e de sua esposa Eu Prometo. Na verdade o senhor Rabo Preso sabia que sem eles não teria sucesso algum por isso usava-os e depois esquecia tudo o que havia falado, permanecendo o restante do período desmemoriado e na defensiva.
A senhora Mudança sabia que estaria sempre cativa enquanto o senhor Rabo Preso existisse, mas o senhor Eu Acredito, seu ingênuo marido, nunca a deixava desanimar. E assim todos seguiam contando o tempo de quatro em quatro anos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Vale a pena ser extraordinário?


Ontem assisti o documentário "Lixo Extraordinário" que acompanha o artista Vick Muniz durante a produção de algumas de suas obras compostas por lixo oriundo do Jardim Gramacho (aquele aterro sanitário que foi desativado em 2012) no Rio de Janeiro e os personagens que ele usou como inspiração para compor a obra, todos eles trabalhadores de Gramacho. O documentário é lindo principalmente por mostrar como o trabalho desenvolvido por Vick mudou a visão que os trabalhadores tinham de si mesmos.
                Um dos depoimentos, que mais me marcou, foi o do catador de material reciclado que montou a cooperativa de catadores do Jardim Gramacho, no dia da gravação a cooperativa havia sido roubada e todo o dinheiro, que seria dividido, levado. Chorando ele pergunta se realmente valia a pena levar uma vida honesta catando material reciclado se expondo aos perigos do lixo, para que?
                E ai, será que vale a pena trabalhar honestamente para pagar as contas sem atraso? Vale a pena pagar tantos impostos que deveriam ser investidos saúde, educação, infraestrutura, segurança, saneamento... para mais tarde chegar nos postos de saúde e não encontrar remédios? Ter que pagar um plano de saúde particular? Comprar água mineral para não beber o, praticamente puro, cloro que sai pela torneira? Instalar cercas elétricas para ter a mínima sensação de segurança? Vale a pena ser honesto e ver o esgoto a céu aberto na periferia? Ser honesto e andar pelas estradas esburacas no país inteiro? Vale a pena apertar o orçamento para poder comprar um carro de segunda mão enquanto as pessoas que deveriam zelar por nós andam, gratuitamente e engravatadas, em carros que nós pagamos? Vale a pena tanta honestidade enquanto existem pessoas que, aparentemente, recebem auxilio financeiro até para respirar e em contra partida não nos dão quase nada, apenas tiram?
                Atualmente ser honesto vale muito a pena, mas só para quem não é honesto. Estas pessoas andam de avião, vestem roupas de marca, têm planos de saúde vitalícios, são processados mas ainda assim assumem cargos que rendem por mês o que muitos não ganham no ano inteiro e tantas outras coisas que citar aqui ocuparia mais espaço que um elefante africano, porém fazem tudo isso com dinheiro honesto, só que de outra pessoa, alias, de outras pessoas.
                Para o catador de material reciclável, valeu a pena levar uma vida honesta por que se levasse uma vida diferente não teria encontrado o homem que mudou tudo ao seu redor e ao redor dos seus. Para o resto de nós também vale a pena uma vida honesta só nos falta encontrar as pessoas que possam mudar nossos rumos porque elege-las  não tem dado resultado. 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Fim de jogo?


E chegammmm os convidados. Entram. Sentam. Fechammmm as portassss. Entra o noivo. Entram os noivinhos. Entram os padrinhos do noivo. Entram os da noiva. Noivo. Noiva. Noivo. Noiva. Noivo. Noivaaaa. Pauuuuusa dramática. O noivo ta tenso meus amigos, o noivo ta tenso. E lá vem a noiva. A torcida ta aflita. O noivo esfrega as mãos. O publico vai ao delírio. A noiva entra. O noivo respira. O padre fala muito, ele fala muito minha gente. É agora, é agora. O noivo suspira. A noiva sorri. Éééééé gollllll, gol de placaaaa. A mãe da noiva chora. A do noivo ta em prantos. Os pais dos dois sorriem. Os torcedores vão ao delírio. A ola de palmas começa. Olha o beijo, olha o beiiijo, olhaaaaa o beijooo. É meus amigos agora não tem mais jeito. Beijouuuuuuuuuuuuu. É fato, o casamento aconteceu. A galera vai ao delírio. As torcidas estão felizes. O barulho da felicidade se espalha. A tia velha chora. Lá vem o hino dos times. Eles caminhammm. Saíram companheiros, eles saírammm. Éééééé fim de jogo aqui na catedral, amigos. O time saiu de campo campeão. Os dois times ganharam a partidaaaaa. Essa entra pra historia. Jogaçooooo. Lindo de ver. É bodas. Éééé bodas. Linnnndo de verrrr.
                Se o Galvão Bueno narrasse casamentos seria mais ou menos assim, mas ainda bem que não é. A tradição ainda reina neste campo e como isso é bom.  Nas cerimônias de casamento não pode haver pressa e ainda assim são lindas do começo ao fim, das mais simples até as realizadas em castelos, tudo passa por meses de preparação, mais pesada que muito treinamento físico.
                O melhor de tudo é que os dois times entram para ganhar e ganham. Apesar dos muitos comentários machistas que sempre ouvimos por ai, coisas como "game over", "se amarrou acabou" e tantos outros, nunca fui à um casamento onde o noivo não estivesse mais feliz do que todos no salão. Não que a noiva não estivesse feliz, mas para uma mulher que esta em cima de um salto altíssimo e dentro de um vestido apertado a felicidade fica mais contida dentro das costuras, não tem jeito, pular e gritar é bem mais complicado. Já para os homens é mais simples, eles sempre parecem estar comemorando a vitória no campeonato mundial e estão mesmo, todos ali estão. O numero crescente de casamentos derruba a teoria de que a paixão nacional é o futebol, a paixão nacional é o casamento e com razão. Não tem coisa melhor do que encontrar alguém que te ame e se casar com essa pessoa, é a dupla de ataque perfeita.
              A caixinha de surpresas também existe no casamento, às vezes um time sai ganhando, às vezes o outro e a decisão entre ir ao cinema ou ver filme em casa acaba saindo só nos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, mas no final das contas o resultado é bem equilibrado. Não que tudo sejam as mil maravilhas sempre, algumas coisas não se resolvem em apenas noventa minutos, mas isso não tira a beleza do espetáculo, nem a vontade de jogar.
                Logo, ou nem tão logo assim, os filhos chegam e trazem um fôlego novo, ai sim a coisa fica ainda mais interessante, todos jogam em todas as posições. O melhor de tudo é que um casamento não é final de campeonato, é começo. 

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Rótulos

         Contém glúten, não contém glúten, valor energético, fibra alimentar, sódio, gordura trans, gorduras totais, gordura saturada, proteínas, carboidratos, data de validade, ingredientes... e claro proteger o alimento do ambiente externo. Um rótulo não serve para nada além disso e não deveria ser empregado em outras áreas que não a alimentícia.
Sempre tenho problemas para responder as perguntas: que tipo de musica você gosta? E de filme? A resposta é sempre tão longa que devo fazer surgir um baita arrependimento na pessoa que perguntou. Resumindo gosto de musica com uma boa letra, já o ritmo para mim não tem tanta importância. Quanto aos filmes: idem, gosto de filme com boa história o gênero tanto faz. A verdade é que gosto mesmo é de uma boa história, se o filme narra uma boa história vou assisti-lo, se a musica conta uma boa história vou ouvi-la com direito a repeat.
                O pior uso para um rótulo é com pessoas, além de nivelar por baixo não facilita em nada os relacionamentos. Fulana é chata, beltrano é fraco não tem atitude, ela é brava, ele é tão bonzinho que chega a ser otário. Ninguém é apenas uma coisa na vida, todos nós somos varias pessoas em um único dia, “isso é coisa de gente falsa” não, não é, isso é coisa de ser humano – tanto no sentido de espécie, quanto no de humanidade mesmo – no trabalho agimos mais formalmente, fora dali podemos ser mais descontraídos; em casa, as vezes, nos mantemos mais fortes tentando ser o apoio do outro, já na casa do vizinho podemos chorar sem pudor, não existe nenhum desvio de caráter nisso.
                Rótulos nas pessoas mais afasta do que aproxima, afinal ninguém quer ser amigo de uma pessoa chata ou otária, namorar um homem galinha ou uma mulher galinha não interessa à ninguém, Deus o livre de ter uma pessoa fraca e sem atitude por perto.
E se essa tal pessoa chata, na verdade, for apenas alguém que tenha opiniões contrarias às de outra pessoa e por isso alguns à tomem como chata? Talvez entre você e ela a empatia bata e ambos encontrem um excelente amigo. A tal pessoa fraca é fraca comparada a que? Um gorila!? Você sabe as provações pelas quais já passou? Não se atenha a coisas pequenas, somos todos muito mais complexos do que uma barrinha de cereais, não cabemos em um rótulo.
Para pessoas o que vale é a história não a tabela nutricional é tudo muito mais abstrato, não dá para quantificar chatice ou simpatia em porcentagem por grama, o que desagrada à um pode agradar à outro. Precisamos entender que os rótulos devem ser usados em coisas que contenham ou não glúten, não em coisas que contenham glúteos. Um dia a gente chega lá. 


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os olhos


                  Renato era míope e para piorar um pouco mais tinha também astigmatismo, sem os óculos não reconhecia nem a si mesmo no espelho, só tirava as lentes para dormir o que, alias, só fazia depois de já estar deitado na cama e os colocava imediatamente ao acordar, muitas vezes ainda de olhos fechados. Tinha pavor só de pensar em não ver as coisas corretamente.
                Apesar dos grandes óculos era um homem bonito, se considerava inteligente e talvez por isso nunca estava sozinho, não era do tipo garanhão, era bem tranquilo na verdade, mas seus relacionamentos não duravam muito mais do que algumas semanas. A família não entendia o motivo, coisa que nunca o preocupou tampouco os comentários e questionamentos pois sabia que a culpa era das mulheres com quem se relacionava, todas elas tinham aquela mesma característica que ele não gostava: uma pinta.
 Renato sempre achou um fenômeno interessante todas as mulheres que conhecia terem uma pinta no rosto, cada uma em um lugar diferente, é claro, mas todas tinham uma pintinha, maior ou menor mas tinham. Isto causava incomodo em Renato que adorava a perfeição de um rosto lisinho e sem manchinhas era assim que ele enxergava a vida, sempre correta, clara, sem entrelinhas nem equívocos, visão nítida e aquelas pintinhas não tinham nada de Marilyn Monroe, eram em lugares estranhos, uma tinha no nariz, outra na testa, fulana nos lábios, sicrana no queixo, beltrana tinha até no olho.
Enquanto a mulher perfeita não aparecia Renato passava seu tempo livre arrumando um antigo Chevette 73 herdado do avó, o considerava uma joia e jamais pensou em abrir mão do possante, todos os dias depois do trabalho ele dedicava horas ao velho Cheve, a pintura estava quase boa mas o motor era o que mais tomava seu tempo.
Numa tarde Renato estava deitado embaixo do Cheve quando ouviu alguém chamar. A filha da vizinha estava de pé no seu portão reclamando do volume do radio, uma pequena discussão começou a se formar mas não pela musica e sim pelo carro, ela acreditava que seu Fusca era bem melhor que o Chevette dele, ele jurava que não.
O papo foi fluindo tão bem que Renato nem notou se ela tinha ou não uma pinta, a química foi tão boa, os assuntos surgiam tão naturalmente que esse detalhe acabou passando despercebido. No dia seguinte ela o chamou novamente, enquanto saia debaixo do carro Renato lembrou-se de procurar a pinta, ela era perfeita de mais deveria existir algum defeito e se fosse a pinta seria um defeito enorme.
Quando ergueu a cabeça Renato viu, ali bem no meio da bochecha uma pinta enorme, não pode deixar de pensar em como não tinha notado algo tão gritante assim, não se controlando Renato soltou um gemido sofrido, doído, decepcionado. A frustração era tanta que transparecia no rosto de Renato. Ela sem entender o que estava errado perguntou mas a resposta custou a aparecer, quando apareceu a gargalhada dada por ela foi tão grande que Renato  até se assustou. A moça pegou os óculos de Renato, lambeu a lente e limpou na blusa, quando colocou de volta no rosto dele, ele notou que a famigerada pinta não estava mais no rosto dela. O problema dele ia mais alem da miopia e do astigmatismo. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Amanda


Tinha vinte e poucos anos, morava sozinha desde o dia que saiu da casa dos pais para cursar a federal que tanto sonhava, fora efetivada no estagio que fazia logo após a formatura e desde aquele dia se considerava independente. Tinha uma vida corrida, pouco tempo para ela mesma ou para os poucos amigos, precisava cumprir as metas que tinha estipulado para si mesma ainda na época da escola. Mantinha na agenda tudo o que deveria fazer durante o dia, em azul anotava os compromissos profissionais, em verde os pessoais, tudo muito organizado para ser o mais eficiente possível. Não saia de casa sem a agenda e tudo, tudo mesmo, estava anotado ali, nem cogitava a ideia de perde-la pois sem ela ficaria sem saber o que fazer a semana toda, por isso mantinha uma cópia sempre atualizada em lugar seguro, sua vida estava anotada ali, tudo, tudo, tudo.
Já não se lembrava quando havia começado a agendar cada passo que deveria dar no dia mas sabia que tudo começara na escola quando uma professora passara um trabalho para casa onde ela deveria dizer onde queria estar quando completasse 40 anos. Desde então nunca se separou do rascunho que guardara para si para não se esquecer das metas. Mas do comentário feito pela professora ela se lembrava: Trabalho excelente! Era exatamente isso que Amanda queria uma vida excelente e conforme os anos foram passando e a vida se tornando mais cheia de compromissos Amanda adotou a agenda e nunca mais a abandonou.
As metas não eram gananciosas nem muito diferentes das metas da maioria das pessoas, ela queria apenas o que acreditava ser o mais importante e básico: entrar na faculdade, ter uma lugar só para ela, conseguir um estágio, depois um emprego, ser promovida, casar-se antes dos 30 anos, ter um filho antes dos 32, fazer uma viagem internacional, ser promovida de novo, ter uma casa maior, escrever um livro, aposentar-se, brincar com os netos, aprender a pintar, morrer. É verdade que ninguém costuma colocar a morte como uma meta mas é que depois do “aprender a pintar” ela já não sabia mais o que poderia querer então, como criança que era, acreditou ser o suficiente para uma vida plena e terminou por ali, a professora havia dito que era excelente, logo, deveria ser excelente mesmo.
Ao contrário do que a maioria das pessoas pensavam, ao ver a agenda e a listinha de metas já amarelada, tudo ia muito bem, sempre seguindo a agenda e as metas, nunca passando uma meta na frente na outra tampouco fazendo coisas que não constassem na agenda. Amanda já tinha conseguido atingir algumas conquistas e tudo dentro do prazo graças a agenda e sua eficiência sem igual. Faculdade, ok! Lugar só para ela, ok! Estágio, ok! Emprego, ok! Ser promovida, ok!
O casamento era algo mais complicado mas Amanda sabia que conseguiria, já havia quase conseguido alias, na faculdade, um dos colegas de sala era completamente apaixonado por ela, mas namoro e casamento não constavam naquela etapa da sua vida então ela nem pensou nessa possibilidade. Todos diziam que ela deveria ser mais flexível mas Amanda nunca deu ouvidos, tudo estava excelente.
Numa manhã como outra qualquer, Amanda foi chamada à sala da chefia e lá recebeu uma noticia que estava nas metas, mas não era para acontecer assim tão cedo tampouco antes de outras coisas na lista. A segunda promoção, viera realmente como ela esperava, mas não era para ser daquele jeito ainda faltavam coisas a serem feitas, mas ela não poderia recusar afinal o dinheiro a mais ajudaria na futura meta “ter uma casa maior”.
Enquanto atravessa a rua já próxima a sua casa, Amanda dava as boas novas à mãe pelo telefone, ambas ficaram tão animadas que Amanda não percebeu o ônibus que se aproximava e BUM! A ultima coisa que Amanda pensou era que mais uma das suas metas acabara de sair da ordem correta da lista. Amanda nunca imaginou que a morte não sabia ler.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Perder-se


Acordar. Tomar café da manha. Acordar as crianças. Levar para escola. Ir trabalhar. Produzir. Produzir. Produzir. Almoçar. Pegar as crianças na escola. Voltar para o trabalho. Produzir. Produzir. Produzir. Voltar para casa. Fazer o jantar. Estar linda, carinhosa e sorridente para quando o marido chegar em casa. Por as crianças para dormir. Tentar não dormir antes ou junto com as crianças. Dar atenção ao marido. Fazer amor selvagem com o esposo. Não ficar doente. Não sentir dor. Não ter TPM. Ver o lado bom das coisas. Não reclamar. Dormir.
Salvo algumas alterações a rotina é quase sempre a mesma, já para quem se dedica exclusivamente ao lar, o que implica em ter que ouvir, vez ou outra, um comentário como: “nossa! Mas você não trabalha? Só fica em casa o dia inteiro.” O que faz parecer que você é a feliz proprietária de uma casa auto-limpante e dona de uma despensa auto-cozinhante.
O ritmo cada vez mais rápido que nós acabamos adotando para realizar as multitarefas diárias faz rotina tomar conta das nossa vidas a ponto de se tornar natural e quase invisível, chega até a nos deixar consternados quando ela não esta presente, seja por conta das férias,  finais de semana, feriados – para quem pode gozar dessas três dádivas – enfim, cada vez mais coisas devem ser feitas e no menor tempo possível, sinceramente!? As vezes é muita coisa para um corpinho só.
Tá! E onde entra o perder-se? Na maioria das vezes ele não entra e esse é o problema, atualmente ninguém pode se perder mais, não dá para passar um tempinho perdida nos próprios pensamentos porque o relatório é para a amanhã, não dá para perder um tempo maior no banho porque sempre tem gente esperando, se perder no transito então impossível o preço do combustível não permite e você chegará atrasada naquele lugar super importante que você deve ir sem atrasos, perder tempo então, jamais, eu nem tenho tempo como posso perde-lo?
Perder tomou uma forma tão negativa que chega a ser pejorativo dizer que perdeu alguma coisa, desde que não seja perda por morte, perder não é tão ruim e pode ser até o caminho mais importante. Me perdi varias vezes e encontrei coisas maravilhosas que também estavam perdidas, perdida em meus pensamentos encontrei em mim uma tranquilidade que eu não sabia que existia, mas estava lá esperando ser encontrada. Na estrada então, me perdi tanto que até a conta perdi e foi assim que cheguei em cidades que eu nem se quer tinha ouvido falar e que me surpreenderam pela beleza e que provavelmente eu nunca conheceria de outra forma – sinceramente!? Já me perdi até usando GPS – já me perdi dando o troco e descobrir que ainda existem pessoas honestas o bastante para não tirar proveito. Mas é claro que também já me perdi a ponto de perceber o que não merece um momento remember, já perdi o freio e descobrir que nariz e asfalto quente não combinam. As situações não podem receber uma única classificação: ou é bom ou é ruim, perder não é ruim mas também não é apenas bom.
Não existe um único caminho a ser seguido, seja para uma cidade, seja para algo mais subjetivo como a realização profissional ou pessoal. Perder-se é uma forma de encontrar o que não esta à mostra, talvez esteja perdido esperando que você também se perca. As fabricantes de GPS que me perdoem mas perder-se é fundamental. 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Em tempos de guerra


As redes sociais tomam boa atenção de todos nós atualmente, todos perdemos boas horas publicando fotos, marcando amigos e lugares visitados, passar despercebido é quase impossível, sempre aparece aquela pergunta: onde esta foto foi tirada? ou embaixo do post aparece a localização de onde você estava quando publicou aquilo. Sem contar as inúmeras postagens desnecessárias do tipo: #partiuacademia, #almoço e aquelas fotos da refeição já iniciada. Atualmente as pessoas tem a necessidade de dizer onde vão e o que farão ou é medo de serem sequestradas e ninguém perceber ou é a mais pura vontade de realmente serem sequestradas.
Ninguém aguenta mais estar apenas consigo mesmo, querem companhia mesmo que seja um frio “curtir”. Aparentar ser uma pessoa “viajada” também entra na lista dos desejos do século 21 juntamente com ser “curtida” e “comentada”, a guerra hoje é para manter a privacidade. Como seria se a internet e as redes sociais tivessem surgido na década de 30?

No front

Uma tal “Internet” e uma recém criada “Rede Social” surgem e viram a nova coqueluche da época, pode-se atribuir o sentido original ao termo: doença, que alias explica até melhor. Mas o ano de 1939 promete não ser marcado apenas por isso ou pelos também recém criados “Celulares” que tornaram os telefones mais portáteis e funcionais, na vida não virtual as coisas estão bem violentas e uma guerra nasce, a segunda guerra mundial.
Soldados de vários países são enviados para a batalha e neste período a tal rede social começa a bombar também. Com seus celulares os soldados conseguem encontrar conforto nas palavras da família e dão apoio aos homens que se encontram em situação semelhante à deles. O quem vem lá amigo ou inimigo é substituído por “confirmar” e “agora não”.
Os dias iam passando e cada vez mais pessoas se conectavam a tal rede social, na época diziam que até o Führer tinha uma pagina, com o nome falso, para não levantar suspeitas, de Adolfinho da Alemanha e nos favoritos era possível encontrar Albert Einstein e o Antigo Testamento, tudo pensado para que o Führer passasse o mais despercebido possível e ainda assim pudesse desfrutar das facilidades da tal rede.
Entre os soldados a mania da “#” havia pegado, a cada acontecimento que eles achavam importante uma nova expressão surgia. Foi convocado: #partiuacademia, saiu para o campo de batalha: #PartiuTiroAoAlvo e assim seguiam. Depois surgiram as fotos, soldados nos aviões fazendo cara de mau e a legenda: estilo Kamikaze, fotos de paisagem com a legenda: ta me vendo? Rá to camuflado, durante as refeições varias fotos de latas de feijão surgiam na rede social.
O que era para levar meses acabou se estendendo por anos tamanha falta de sigilo que a rede proporcionava, os inimigos faziam perfis falsos para conseguir informações, um caos sem precedentes se instaurou, as fotos com marcação de GPS revelavam a posição dos acampamentos, nada mais era secreto.
Os setores de inteligência de praticamente todas as tropas tentavam bloquear a rede, mas sempre alguém conseguia furar o bloqueio e logo todos já estavam conectados outra vez, se os esforços para a luta diária fossem os mesmos usados para conseguir entrar na rede a guerra teria durado meses, diziam os pessimistas de plantão.
Em uma coisa pessimistas e entusiastas da nova rede concordavam: ela foi a culpada pelo maior fiasco da historia mundial. Na madrugada do dia 6 de junho um soldado publicou em seu perfil a frase: #PartiuMissãoSecreta, em baixo era possível ver uma notinha publicada automaticamente pela rede: há 7 minutos próximo a Normandia. Foi a deixa para que a operação secreta, uma das mais importantes, pensada e mantida em segredo por meses, ruísse. Um acontecimento histórico e vergonhoso, que fez a guerra se estender por mais cinco longos anos, que só chegaram ao fim quando os celulares foram confiscados e alguns de seus componentes usados na fabricação de munição. Cinco anos que custaram milhões de vidas, anos de desenvolvimento mas renderam muitas piadas.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Calipso


Se algum dia ela foi traída pela lua eu não sei, mas que ela se nega a cair no ostracismo isso eu desconfio que sim. Na mitologia Calipso - ou Calypso as duas grafias são aceitas – era uma ninfa do mar que vivia em uma gruta numa ilha no meio do oceano onde hoje é o Marrocos, vida solitária a da pobre moça não!? Que nada, como diz a musica “na companhia de um bom livro e um violão, vou vivendo com a minha solidão” acho que já naquela época ela seguia essa filosofia.
Imagino ela – a ninfa, não o ritmo – na sua ilha vestida com um microvestido purpurinado em cima de salto-altíssimo tão purpurinado quanto, jogando o cabelo alucinadamente para frente e para trás no ritmo das ondas, tentando seduzir os heroicos marinheiros da época e concluo que era por essa razão que a ilha era deserta e talvez por isso  as sereias de outras ilhas ficavam, apenas, sentadas penteando os cabelos. Eles não estavam preparados para tamanho poder de sedução.
Mas hoje quase tudo é liberado e Calipso – o ritmo, não a ninfa – versa sobre os mais variados temas, desde cavalos com deficiência (em tempos de politicamente correto, atente para o grifo, dizer manco pode ser considerado Bullying), passando por luas dadas à traição e anjos bandidos, Calipso – a ninfa, não o ritmo – esta à salvo da solidão, saiu de Marrocos e, a nado, foi parar no Pará  de lá conquistando o país.
Calipso – a ninfa e o ritmo – hoje vive em comunhão, ele embala e ela abala. Era questão de tempo até um encontrar o outro e assim foi. Ele entrou para a história, ela nunca mais ficou sozinha e nós, pobres mortais, “agraciados” pelos deuses mitológicos, temos essa joia musical dotada de som e ginga sem igual. Para que lado fica essa tal ilha mesmo? 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

BBB 13


Esse titulo é arriscado e pode fazer com que muita gente não leia este texto, MENTIRA! Acredito que vai atrair mais do que o normal, pois ano após ano durante mais de uma década ouço reclamações relacionadas ao BBB e ainda assim ele esta no ar. Daí entra as teorias da conspiração dizendo que a TV brasileira quer alienar o povo, eu discordo, o povo é que quer, e gosta, de ficar se alienando. A equação é bem simples: programa de entretenimento – publico= programa fora do ar, não precisa fazer corrente no Facebook pedindo um milhão de compartilhamentos para que a Globo o tire do ar, é só não assistir e a mágica esta feita, sem publico o programa perde patrocínio, perde dinheiro, perde espaço na grade e os botecos perdem assunto.
 O BBB é quase como filho de p**a, quem fez sabe, mas nega até a morte e só assume depois que fique provado que o rebento é mesmo dele, com o BBB é a mesma coisa, quem assiste sabe mas nega até a morte a menos que provem o contrario ou que aconteça uma cena de sexo supostamente forçado, ou uma briga violenta, ou um quadrado amoroso (triangulo amoroso, aparentemente, esta fora de moda no século 21, Cadinho que o diga.) motivos para assistir sempre aparecem e as correntes contra o programa também, ele gera assunto e isso já o suficiente para que continue até a edição em 3D.
O interessante é que a espécie que criou o BBB criou também o livro, o DVD, o tênis para corrida, a bicicleta, os métodos contraceptivos, e tantas outras coisas interessantes que a lista não teria fim, o que quero dizer é que não falta o que fazer no período em que o programa esta sendo transmitido e o que proponho que sejam feitas. Talvez esses programas sem muito conteúdo, alienados - a alienação, alias, atualmente é a vedete entre os intelectuais que, penso, sentem prazer em diminuir povo brasileiro - seja um bom ponta pé inicial para um momento de maior crescimento pessoal, vamos ler mais, fazer mais exercícios, conversar com alguém mesmo que por telefone, ainda que seja somente durante a exibição do programa, não tem problema, o que temos que perceber é que não adianta reclamar do programa nas redes sociais durante o dia e a noite assisti-lo.
Caso tenha pintado aquela pergunta: “será que ela assiste o BBB?” a resposta é: não, atualmente não, mas acompanhei sim o BBB 1, depois a novidade acabou e não vejo mais graça em ver a vida de outras pessoas enquanto a minha passa. Hoje levo minha pequena (que não é minha, mas me aproprio dela quase sempre) para andar de bicicleta na praça, comer cachorro quente e passar trote na minha mãe do telefone publico e a cobrar ainda por cima ou assisto um filme, leio um livro, escrevo coisas que ninguém nunca vai ler, as vezes coisas que alguém vai ler, vejo o canal de noticias e fico indignada com algumas noticias, mas o que eu não faço é esquecer que o controle remoto esta na minha mão e posso usa-lo sem moderação. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

BORBOBELHAS


Tá vamos lá colocar as idéias no lugar, ou pelo menos tentar organizá-las de uma forma que, no mínimo, fiquem em linha mesmo que fora de ordem, porque do jeito que estão uma sobre as outras alguma vai acabar morrendo sufocada.
Há uns dias eu estava lendo uma matéria sobre abelhas. Num daqueles momentos culturais que você fica na expectativa de poder mostrar para alguém todo seu conhecimento sobre determinado assunto. No meu caso esse assunto só surgiria se eu, por algum motivo qualquer, encontrasse um apicultor, já que eu não conheço nenhum acho que eu acabaria engavetando a matéria. Enfim, a matéria dizia que nos EUA 40% das abelhas tinham sumido de uma maneira que ninguém conseguia explicar, até que cientistas descobriram que as abelhas foram infectadas por um vírus que afeta 65 dos seus genes fazendo com que elas fujam das colmeias.
Pronto. Foi ai que se deu a m***a. Foi só ler isso que o meu fluxo de pensamento disparou incontrolavelmente. Imaginei inúmeras possibilidades de paradeiro para as abelhinhas, inclusive novos ofícios para elas. Abaixo segue um exemplo do meu épico imaginário abelhudo. Zummmm.




Acre, outubro de 2009.

No seu escritório pomposo decorado pelas mais habilidosas abelhas operarias, sentada em seu confortável trono, bebendo o néctar das flores mais belas da região ao som de Kid Abelha e ladeada pelos zangões mais admiráveis da espécie está ela: a rainha da colmeia número 1.  Observando seu relatório semanal sobre a produtividade da colmeia e as eventuais baixas sofridas durante a labuta ela nota a gigante queda na produtividade e o inexplicável sumiço de seus servos. Irritadíssima ela manda chamar uma operária para dar maiores explicações.
Zumbido, a abelha operária mestre de obras da colmeia,  entra tremendo das antenas ao ferrão e sem saber o que dizer, para na frente da rainha já se imaginando uma abelha desempregada tendo que viver de bicos no jardim de algum humano insensível que pode matá-lo a qualquer momento sem ao menos perguntar se ele prefere morrer à chineladas ou com um banho de inseticida. As imagens de uma vida marginal povoam a cabeça dele. Já se vê tendo que beber a água com açúcar que os humanos preparam para os beija-flores, sendo surrado por um beija-flor valentão que se sentiu ofendido por ter seu belo bebedouro profanado por um inseto. Imaginou os dias de chuva, ele humildemente se aconchegando na folha de alguma flor, cobrindo a cabeça com um papel de bala. Um grito interrompe seu devaneio. 
Uma discussão acalorada sobre de quem é a culpa, começa. Zumbido já sem argumentos se cala e ouve, ouve, ouve, ouve, até que sua mente se desliga do assunto e o transporta para sua infância, quando na academia preparatória de operarias ele se vê sentado na carteira anotando tudo o que o professor diz, se lembra das aulas praticas de polinização quando eles treinavam em flores de plástico, já que a rainha não permitia que novatos tivessem contato com flores reais. Se lembrou da primeira fez que polinizou uma flor de verdade: todos os seus colegas de turma em linha, cada um em sua respectiva flor, a pressão psicológica que o supervisor fazia, as orientações passadas aos berros, no final a emoção foi tanta que quando voltou para a colmeia errou a entrada e se estabacou na parede caindo no chão. O dia da entrega dos diplomas também voltou do passado para fazer Zumbido se comover, lembrou de todos os seus amigos ali com ele ansiosos aguardando o momento em que chamariam seus nomes para finalmente receberem seus chapéus de obras, viu na platéia todos os aspirantes a operaria sonhando com o dia que o momento deles também chegaria.
A ultima coisa que Zumbido se lembrava de ter ouvido antes de ser atirado da sala porta a fora pelos zangões, era a rainha dizendo que ele tinha o prazo de uma semana para descobrir o que estava acontecendo. Mas por onde começar? As abelhas fujonas não deixavam pistas, como ele saberia o que estava acontecendo? Resolveu que iria tomar alguma coisa no bar da colmeia para tentar colocar as idéias no lugar.
Muitos Ice Néctar depois e ele continuava lá, sentado com seu capacete vermelho, o capacete do mestre de obras, o capacete que o diferenciava das outras simples operarias;  apoiado no balcão se perguntando o porquê desse mistério estar acontecendo bem na colmeia dele, seria um complô? Alguma rainha vizinha estaria armando para derrubar a imagem de colmeia dos sonhos que ele ajudou a construir? Tanto faz, o que ele queria agora era só poder beber em paz e imaginar como seria a vida sem uma asa, já que se ele não descobrisse o que estava acontecendo estaria desempregado tendo que vender uma das suas asas no mercado negro para poder se sustentar.
Mas como beber em paz com aquele zunzunzum vindo da mesa atrás dele? Cheio de coragem ele se levanta e vai cambaleando tirar satisfações. Quando chega bem perto, olha para a mesa e vê a operaria mais marrenta da colmeia, a coragem some todinha levando com ela a audição, a visão e o equilíbrio. Zumbido cai de cara na mesa. Apagado. Imóvel.
Ao redor do corpo estirado na mesa do bar vai se juntando alguns curiosos que não resistem à tentação de fazer seus comentários sobre o porquê da pobre abelha ter tomado um porre tão grande, mil possibilidades surgiram. Tinha abelha achando que era bebedeira por dor de cotovelo, outras dizendo ser coisa de vagabundo mesmo, alguns acreditavam que ele estava sobre efeito da nova planta que surgira na região, teve até uma outra abelha bêbada dizendo que tudo aquilo era só ilusão de ótica; mas tanto faz nenhuma dessas possibilidades faria parte das lembranças de Zumbido quando ele acordasse no outro dia.
Lentamente as imagens começaram a se formar na frente do ressaqueado Zumbido. Os seus olhos quase fechados não reconheciam a paisagem ao redor, tudo era muito estranho e parecia estar em movimento. Alguns minutos se passaram quando ele finalmente percebeu que estava no almoxarifado da colméia agarrado na abelha de pelúcia que eles usavam como treinamento para as continências que deveriam ser prestadas à rainha, já que ela pessoalmente não participava desses treinamentos porque achava muito insignificante para alguém da realeza.
Ainda cambaleando Zumbido caminha para casa tentando esconder o rosto com o capacete, situação que causava uma falsa sensação de proteção pois na realidade todos podiam reconhecê-lo já que seu nome estampado no capacete.
 Já em casa Zumbido tentava lembrar tudo o que tinha acontecido no dia anterior. A única coisa que ainda estava na sua cabeça, fora a dor alucinante que sentia, era uma frase que ouviu enquanto estava caído na mesa do bar, uma das tantas abelhas que estavam comentando as prováveis causas do porre tinha se referido a uma nova planta que surgira na região e que ninguém tinha visto anteriormente. Havia rumores de que uma família recém chegada a cultivava no quintal, mas tudo era apenas especulações, de certo mesmo só o desaparecimento das abelhas e a dor de cabeça que teimava em não parar.
Um banho, um cafezinho e três comprimidos depois Zumbido já estava refeito, pronto para procurar pistas e resolver de vez o mistério. Determinado ele se levanta do sofá e sai pela colmeia a procura de mais informações, pelo caminho encontra varias abelhas que provavelmente estavam no bar no dia anterior, os risinhos contidos e os cochichos o envergonham mas ele não se deixa abater pois em poucos dias seria um herói, seria o Herói o único e inigualável com H maiúsculo.
Apesar de não se lembrar corretamente de quem havia falado sobre a tal família nova Zumbido decide que é essa abelha que deve ser encontrada primeiro, é ela a chave para desvendar o mistério. Voltando ao bar Zumbido, tentando não se abalar com as piadinhas do atendente sobre seu estado na ultima noite, sabatina o pobre Barbee sobre quem estava no bar naquela noite, uma lista extensa surge, a tarefa parece ser mais difícil do que Zumbido imaginava, uma semana pode não ser o suficiente, um calafrio percorre sua asa esquerda.
Muitas das abelhas que Zumbido deveria encontrar estavam em campo coletando pólen, apenas duas estavam na colmeia, dois zangões. Seria difícil ter acesso à eles já que, pertencendo ao harém da rainha, estavam sempre separados muito bem protegidos do restante das simples abelhas operarias. Depois de longas horas andando em círculos pensando em como conseguiria conversar com os zangões, Zumbido se lembra da rainha de pelúcia que estava abraçando pela madrugada e corre para o almoxarifado para pegar o que seria seu passaporte.
Em casa com a Rainha de pelúcia Zumbido começou a preparar seu disfarce. Usando seu aspirador de pó Abelhudo 6000 Zumbido esvazia a rainha de pelúcia e, antes que perdesse a coragem, entra no lugar do recheio. Essa situação fazia Zumbido se lembrar de uma historia assustadora que contavam às abelhinhas, a história da abelha-má que comia as abelhas desobedientes que seguiam pelo caminho errado. A lembrança arrepiou as asas de Zumbido que logo voltou a realidade e começou a andar em direção ao harém da Rainha, mais conhecido como: “covil dos marombadão sem ferrão”.
Pelo caminho Zumbido começou a sentir uma coceira tão grande que o obrigou a se esfregar em um dos pilares do corredor de acesso ao harém, quem via podia jurar que a rainha estava fazendo a dança do acasalamento, sem contar o sapato de salto alto, altíssimo aliás, que incomodava Zumbido mais do que as cantadas das abelhas operárias que consertavam as rachaduras da colmeia.
Na porta do harém Zumbido respirou fundo e entrou. Apesar de os zangões serem do tipo supermalhados que só notavam a diferença entre um topete penteado ou não, Zumbido sentia tanto medo de ser descoberto que nem notou que vários zangões assoviavam e se aproximavam pensando ser ele a Rainha. Quando um dos zangões encostou a asa na sua Zumbido pulou num susto e pediu que chamassem os zangões numero 5 e 6. Quando estes apareceram Zumbido tratou logo de perguntar, indiretamente, o que queria saber, a situação estava ficando constrangedora de mais para que ele permanecesse muito tempo naquele lugar e quando notou que realmente os zangões não sabiam de nada já que sempre se sentavam num lugar isolado do bar, saiu dali o mais rápido que pode alegando fortes dores na cabeça.
Tentando não perder tempo Zumbido se desfez da roupa de Rainha e correu para a pista de pouso das abelhas operarias. A espreita ele esperava que as abelhas com quem deveria falar chegassem e discretamente escondido em um cantinho chamou uma delas para uma conversa. Ao longo do papo Zumbido percebeu que não seria tarefa fácil arrancar as informações que precisava, não importava a abelha tampouco o lugar onde conversassem cada uma delas apontava outra abelha como fonte fazendo-se de inocente ou desentendida.
O prazo estava se esgotando e Zumbido ainda não havia descoberto nada, enquanto voava pela floresta à procura de um buraco de árvore para chamar de lar assim que a abelha Rainha o expulsasse da colmeia numero 1, Zumbido pensava se poderia ter deixado escapar alguma pista, qualquer coisa, mas nada passava por suas antenas. Sentado no galho que amanhã chamaria de alpendre Zumbido sente uma movimentação estranha mas quando percebe já esta no chão embaixo de uma abelha encapuzada.
Depois de convencer a abelha ninja a deixa-lo sentar Zumbido, ainda tentando entender o que estava acontecendo, começa a ouvir o que parecia ser delírios de um bêbado, mas como tudo o que estava acontecendo não era lá muito normal mesmo ele ouve tudo quase em silêncio. O perigo dentro da colmeia era muito grande para que a pequena ninja relatasse à Zumbido tudo o que sabia, o ataque foi a única opção, radical mas era uma opção, que sobrara a ela para manter a colmeia longe da histeria coletiva. A história era louca mas fazia sentido.
Segundo a ninja poucas abelhas sabiam mas, próximo à colmeia, existia um vilarejo bem pequeno onde uma família de botânicos acabara de se mudar, eram três pessoas e muitas plantas, uma delas desconhecida na região viera com a família na mudança, a muda havia se adaptado bem a região se transformado numa bela árvore cheia de flores com um cheiro adocicado que atraia as abelhas que se aventuravam a voar além do território permitido pela Rainha. Depois de experimentar tais flores as abelhas ficavam transtornadas e voavam para cada vez mais longe desaparecendo. Perturbado por tantas informações Zumbido não sabia se podia confiar em um estranho vestido como um maluco, mas como não restavam muitas opções se arriscou indo conferir pessoalmente as informações.
Quando encontrou o vilarejo não foi difícil identificar a casa que deveria espionar, ela mais parecia uma ilha verde no meio da clareira aberta pelo pequeno vilarejo, Zumbido não teve duvidas que ali estava a chave para solucionar o mistério da colmeia numero um. Se aproximando com bastante cuidado Zumbido pode perceber que a família estava envolvida na analise de uma planta que ele nunca vira antes, a curiosidade tomou conta do pequeno herói que ao se aproximar mais do botânico pai recebeu um tapa, que quase o fez perder os sentidos – seria o sinal de boas vindas dos humanos? Zumbido duvidava muito dessa ideia que lhe ocorreu – que fez Zumbido cair nas folhas de uma árvore estranha mas muito cheirosa que ele não conhecia.
Entorpecido pelo cheiro Zumbido quase se rende à vontade de experimentar a flor mas se lembra de todos os problemas que ela vem causando e se afasta o mais rápido que pode ficando distante apenas observando a árvore. Alguns segundos depois Zumbido percebe a chegada de uma abelha que, quase imediatamente, se dirige às flores da árvore misteriosa, ao experimenta-la cai ao lado da árvore, Zumbido voa para ajuda-la mas ao pousar ao lado da abelha desmaiada ela se levanta e começa a voar rapidamente em direção ao outro lado da floresta.
Zumbido segue a abelha fujona que alguns metros depois para sendo recebida por um enxame de abelhas que pareciam estar com o mesmo transtorno que ela, neste momento Zumbido percebe ter encontrado as abelhas desaparecidas, mas o que fazer para leva-las de volta? Como saber o que esta acontecendo com elas? Isso ele só saberia se entrasse no grupo e foi o que ele fez, imitando o comportamento das outras abelhas Zumbido se misturou e começou a fazer perguntas.
A noite ele já tinha descoberto tudo o que precisava sobre o caso. As abelhas que experimentavam a flor desconhecida ficavam tão confusas que, ao acordar, acreditavam ser borboletas e assim não voltavam para a colmeia ficando todas elas juntas à colônia de borboletas que habitavam o outro lado da floresta.
Zumbido voltou para a colmeia numero um o mais rápido que pode sem saber se o que sentia era felicidade por descobrir o que estava acontecendo ou medo já que não sabia o que fazer para recuperar as abelhas fujonas. Na sala do trono Zumbido revelou todos os detalhes do grande mistério à Rainha pedindo que ela convocasse uma reunião com todas as rainhas vizinhas.
No dia seguinte toda a realeza da região estava presente na colmeia numero um, foram servidas as melhores geleias reais durante as discussões acaloradas que seguiram por toda a manhã. A destruição da árvore parecia ser a única solução segura para que nenhuma outra abelha fosse infectada, mas e quanto as abelhas com transtorno de identidade? Ninguém sabia o que fazer.
Ao entardecer uma nuvem de abelhas, as mais corajosas operarias de toda a região, comandadas por Zumbido voaram até a árvore misteriosa e destruíram-na com seus ferrões e melaço trazido das colmeias. Chinelada, jatos de veneno, chinela de novo, mais veneno, nada conseguia parar as abelhas revoltadas. A família avaliou o estrago feito mas já não tinha mais jeito a macieira não tinha mais recuperação, uma árvore tão incomum na região não deveria ter um fim trágico daqueles, era única, um hibrido resistente ao calor presente de quinze anos para a filha, morta a macieira estava morta.
Na colmeia numero 1 Zumbido foi aclamado como a maior abelha de todos os tempos, a mais valente, a mais inteligente, a mais heroica, chegou a receber a medalha Melada, maior prova de reconhecimento entre as abelhas, seria o dia mais feliz de sua vida não fossem as abelhas infectadas que não se recuperavam. Horas, dias, semanas, meses se passavam e nenhuma abelha se recuperava, convocaram abelhas médicas, curandeiras, até um gambá se propôs a ajudar, mas nem sua bomba de fedor ajudou na recuperação.
Hoje existe uma nova espécie na floresta: as Borbobelhas. Abelhas que pensam ser borboletas ou borboletas que parecem abelhas? Tanto faz! O importante é que quem passa por elas pode ver como são felizes, voando como lindas folhas que o vento faz dançar pela floresta, mas cuidado com o guardião das Borbobelhas: Zumbido. Ele não esta de brincadeira. Semanalmente o pequeno herói faz ronda no vilarejo para conferir se não há nada de novo.
No vilarejo um caminhão de mudanças para e uma família desce, talvez Zumbido tenha novidades na próxima ronda, ou não.




(Conto infantil começado em outubro de 2009, esquecido por três anos no e-mail e terminado em janeiro de 2013)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Acesso aos arquivos da memória “Revelando os Brasis”


Dia desses eu estava sentada, trabalhando na frente do meu computador, quando meu celular tocou. Olhei. Era do IMA. Atendi. Do outro lado alguém me pediu para escrever um texto sobre minha relação com o projeto Revelando os Brasis. Pronto surgiu a crise criativa, o que escrever? Como escrever? Escrever? Eu sei escrever? Ahhhh!!!! Calma, respira, respira, respira.
   
Visitei meus arquivos guardados carinhosamente na memória e descobri que, entre uma pasta e outra, tinha muita coisa quando a palavra chave era: Revelando os Brasis. Algumas dessas “coisas” deveriam ficar guardadas exclusivamente na minha memória para manter minha imagem de menina esperta de Palestina. Ninguém pode ficar sabendo do meu primeiro dia no Rio de Janeiro quando quase não consegui tomar banho porque eu não sabia ligar o chuveiro, nossa! Era só empurrar e girar não tinha segredo ou palavra mágica. Tão simples quanto puxar a cordinha ao lado da janela para abrir a veneziana, mas eu achei bem mais fácil ficar agachada vendo a paisagem pela fresta, até que uma boa alma me disse onde ficava escondida a tal cordinha, que diga-se estava bem escondida mesmo, atrás da cortina. Minha colega de quarto também participou desses momentos mas prefiro manter seu nome em sigilo, ela também tem um nome a zelar. Mas que isso fique entre nós, ok!?

Resolvi procurar um pouco mais, não que seja difícil lembrar tudo o que aconteceu naqueles dias. Aliás, é mais fácil do que lembrar a data do meu próprio aniversário, mas eu procurava por algo grande, tão grande quanto o êxtase que senti quando me dei conta que estava num avião rumo ao lugar que ajudaria a realizar um sonho de infância: mostrar a todos coisas que poucos vêem, revelar. E quem diria que um dia, um pequeno ser nascido e criado no interior paulista, com a fala carregada de R’s, um jeitinho caipira de falar pouco e ouvir e olhar de mais, conseguiria trocar a terra vermelha da sola do sapato por um pouco da poeira dos andares do prédio do canal Futura, dos estúdios da Globo Sat e de todos os outros lugares por onde aprendeu tanto em duas semanas que valeram por uma vida inteira? Pois é, alguém disse e disse com tanta convicção que acabou virando realidade. Nossa! E que realidade, chega a tirar o fôlego só de lembrar.

Mas vamos lá, respirar um pouco, ver se o pulmão volta ao seu estado normal, coisa que acho difícil de acontecer já que depois de uma experiência dessas nada mais volta ao normal. É serio, acredite! Sua vida muda, parece que você viciou-se em realizar, em criar. Talvez isso seja, na realidade, crise de abstinência. Essa crise de abstinência em especial surge quando você percebe que quer sentir tudo aquilo de novo, todas aquela sensações que tomaram conta do seu corpo assim que você desligou o telefone que te deu a melhor noticia da sua vida:
- Alo! Oi tudo bem? Seu projeto foi selecionado para participar do Revelando os Brasis.

Nossa! O turbilhão entra em você pelos ouvidos, olhos, sola do pé, palma da mão, por todos os poros e quando você se dá conta, já era! Se espalhou. Tá viciado. Você não vai mais conseguir viver sem realizar, sem criar. Realizar sonhos antigos, criar novos pontos de vista, novos projetos, novas vidas. Tem quem sinta tudo isso apenas comendo um pedaçinho de chocolate, mas em tempos de ditadura da beleza eu prefiro sentir de uma maneira mais duradoura, quase eterna se possível, sentir vivendo, participando de projetos como esse.

Não posso e nem quero deixar de fora dessa busca por arquivos ainda vivos uma das pastas mais importantes que guardei na memória. Ela estava um pouquinho mais à direita do hipocampo, etiquetada assim: “do interior para o interior”. Até pensei que fosse um livro da Zibia Gasparetto, mas ai lembrei que nunca li um livro dela. Então o que seria? Mexendo na papelada que estava até apertada dentro da pastinha descobri que era a pasta dos Revelandos, a pasta dos outros 39 participantes do projeto, dos outros 39 seres do interior. Quanta história tinha ali! Pessoas maravilhosas que também saíram do interior para terem suas vidas revolucionadas para sempre e agora ainda vivem no interior, mas dessa vez no meu. Fazendo parte da minha vida e das minhas lembranças. Mudaram direta e indiretamente meu jeito de pensar e agir, hoje é quase impossível passar um dia sem que me lembre de algum deles. Isso dá uma saudade incontrolável.

Aproveito para agradecer ao MSN, já que ele tem sido a ferramenta que me ajuda a não morrer de saudade aguda. Não posso deixar de citar um dos Revelandos mais importantes, praticamente o 41º elemento, mas ele todos vocês podem conhecer, hoje ainda, agora se for o caso, ele ainda esta lá no hotel esperando a chegada do Ano IV. Se você tiver a oportunidade de conhecê-lo eu recomendo que o faça. Ele é o cara que lava e passa, eu vos apresento o Hall, figuraça.

Brincadeiras à parte, agora percebo que minha busca por arquivos com a palavra chave “Revelando os Brasis” é infinita. Cada vez que eu procuro sempre acho algo diferente pra contar. Como quando o circuito chegou em Palestina e trouxe com ele uns fatos de forno e fogão, mas essa historia fica para próxima, vou tentar guardar algo de inédito pra contar para meus filhos e netos, caso os tenha, mas se não tiver conto no asilo mesmo, sem problemas. Na verdade, não vou consegui guardar essa historia por muito tempo, até por que já contei para muita gente, mas para vocês fica para próxima.

           O meu voo pelo túnel do tempo já está grandinho e se eu contar tudo já não serei mais a Patrícia e sim a Sherazade, a única diferença é que as historias que sempre mudam a minha vida não começam com “Era uma vez”, e sim com  “Um dia o meu telefone tocou”.





(Escrevi este texto em 6 de julho de 2009, após participar da experiência mais importante na vida:  o concurso cultural Revelando os Brasis Ano III. Link da publicação no site oficial: http://imazul.org/circuitorevelando/2009/07/06/acesso-aos-arquivos-da-memoria-%E2%80%9Crevelando-os-brasis%E2%80%9D/)