Renato era míope e para piorar um
pouco mais tinha também astigmatismo, sem os óculos não reconhecia nem a si
mesmo no espelho, só tirava as lentes para dormir o que, alias, só fazia depois
de já estar deitado na cama e os colocava imediatamente ao acordar, muitas
vezes ainda de olhos fechados. Tinha pavor só de pensar em não ver as coisas
corretamente.
Apesar
dos grandes óculos era um homem bonito, se considerava inteligente e talvez por
isso nunca estava sozinho, não era do tipo garanhão, era bem tranquilo na
verdade, mas seus relacionamentos não duravam muito mais do que algumas semanas.
A família não entendia o motivo, coisa que nunca o preocupou tampouco os
comentários e questionamentos pois sabia que a culpa era das mulheres com quem
se relacionava, todas elas tinham aquela mesma característica que ele não
gostava: uma pinta.
Renato sempre achou um fenômeno interessante
todas as mulheres que conhecia terem uma pinta no rosto, cada uma em um lugar
diferente, é claro, mas todas tinham uma pintinha, maior ou menor mas tinham.
Isto causava incomodo em Renato que adorava a perfeição de um rosto lisinho e
sem manchinhas era assim que ele enxergava a vida, sempre correta, clara, sem
entrelinhas nem equívocos, visão nítida e aquelas pintinhas não tinham nada de
Marilyn Monroe, eram em lugares estranhos, uma tinha no nariz, outra na testa,
fulana nos lábios, sicrana no queixo, beltrana tinha até no olho.
Enquanto a
mulher perfeita não aparecia Renato passava seu tempo livre arrumando um antigo
Chevette 73 herdado do avó, o considerava uma joia e jamais pensou em abrir mão
do possante, todos os dias depois do trabalho ele dedicava horas ao velho Cheve,
a pintura estava quase boa mas o motor era o que mais tomava seu tempo.
Numa tarde
Renato estava deitado embaixo do Cheve quando ouviu alguém chamar. A filha da vizinha
estava de pé no seu portão reclamando do volume do radio, uma pequena discussão
começou a se formar mas não pela musica e sim pelo carro, ela acreditava que
seu Fusca era bem melhor que o Chevette dele, ele jurava que não.
O papo foi
fluindo tão bem que Renato nem notou se ela tinha ou não uma pinta, a química foi
tão boa, os assuntos surgiam tão naturalmente que esse detalhe acabou passando
despercebido. No dia seguinte ela o chamou novamente, enquanto saia debaixo do
carro Renato lembrou-se de procurar a pinta, ela era perfeita de mais deveria
existir algum defeito e se fosse a pinta seria um defeito enorme.
Quando ergueu
a cabeça Renato viu, ali bem no meio da bochecha uma pinta enorme, não pode
deixar de pensar em como não tinha notado algo tão gritante assim, não se
controlando Renato soltou um gemido sofrido, doído, decepcionado. A frustração
era tanta que transparecia no rosto de Renato. Ela sem entender o que estava
errado perguntou mas a resposta custou a aparecer, quando apareceu a gargalhada
dada por ela foi tão grande que Renato até
se assustou. A moça pegou os óculos de Renato, lambeu a lente e limpou na blusa,
quando colocou de volta no rosto dele, ele notou que a famigerada pinta não estava mais no rosto dela. O problema dele ia mais alem da miopia e do astigmatismo.
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