quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Os olhos


                  Renato era míope e para piorar um pouco mais tinha também astigmatismo, sem os óculos não reconhecia nem a si mesmo no espelho, só tirava as lentes para dormir o que, alias, só fazia depois de já estar deitado na cama e os colocava imediatamente ao acordar, muitas vezes ainda de olhos fechados. Tinha pavor só de pensar em não ver as coisas corretamente.
                Apesar dos grandes óculos era um homem bonito, se considerava inteligente e talvez por isso nunca estava sozinho, não era do tipo garanhão, era bem tranquilo na verdade, mas seus relacionamentos não duravam muito mais do que algumas semanas. A família não entendia o motivo, coisa que nunca o preocupou tampouco os comentários e questionamentos pois sabia que a culpa era das mulheres com quem se relacionava, todas elas tinham aquela mesma característica que ele não gostava: uma pinta.
 Renato sempre achou um fenômeno interessante todas as mulheres que conhecia terem uma pinta no rosto, cada uma em um lugar diferente, é claro, mas todas tinham uma pintinha, maior ou menor mas tinham. Isto causava incomodo em Renato que adorava a perfeição de um rosto lisinho e sem manchinhas era assim que ele enxergava a vida, sempre correta, clara, sem entrelinhas nem equívocos, visão nítida e aquelas pintinhas não tinham nada de Marilyn Monroe, eram em lugares estranhos, uma tinha no nariz, outra na testa, fulana nos lábios, sicrana no queixo, beltrana tinha até no olho.
Enquanto a mulher perfeita não aparecia Renato passava seu tempo livre arrumando um antigo Chevette 73 herdado do avó, o considerava uma joia e jamais pensou em abrir mão do possante, todos os dias depois do trabalho ele dedicava horas ao velho Cheve, a pintura estava quase boa mas o motor era o que mais tomava seu tempo.
Numa tarde Renato estava deitado embaixo do Cheve quando ouviu alguém chamar. A filha da vizinha estava de pé no seu portão reclamando do volume do radio, uma pequena discussão começou a se formar mas não pela musica e sim pelo carro, ela acreditava que seu Fusca era bem melhor que o Chevette dele, ele jurava que não.
O papo foi fluindo tão bem que Renato nem notou se ela tinha ou não uma pinta, a química foi tão boa, os assuntos surgiam tão naturalmente que esse detalhe acabou passando despercebido. No dia seguinte ela o chamou novamente, enquanto saia debaixo do carro Renato lembrou-se de procurar a pinta, ela era perfeita de mais deveria existir algum defeito e se fosse a pinta seria um defeito enorme.
Quando ergueu a cabeça Renato viu, ali bem no meio da bochecha uma pinta enorme, não pode deixar de pensar em como não tinha notado algo tão gritante assim, não se controlando Renato soltou um gemido sofrido, doído, decepcionado. A frustração era tanta que transparecia no rosto de Renato. Ela sem entender o que estava errado perguntou mas a resposta custou a aparecer, quando apareceu a gargalhada dada por ela foi tão grande que Renato  até se assustou. A moça pegou os óculos de Renato, lambeu a lente e limpou na blusa, quando colocou de volta no rosto dele, ele notou que a famigerada pinta não estava mais no rosto dela. O problema dele ia mais alem da miopia e do astigmatismo. 

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