Tinha vinte e
poucos anos, morava sozinha desde o dia que saiu da casa dos pais para cursar a
federal que tanto sonhava, fora efetivada no estagio que fazia logo após a
formatura e desde aquele dia se considerava independente. Tinha uma vida corrida,
pouco tempo para ela mesma ou para os poucos amigos, precisava cumprir as metas
que tinha estipulado para si mesma ainda na época da escola. Mantinha na agenda
tudo o que deveria fazer durante o dia, em azul anotava os compromissos
profissionais, em verde os pessoais, tudo muito organizado para ser o mais
eficiente possível. Não saia de casa sem a agenda e tudo, tudo mesmo, estava
anotado ali, nem cogitava a ideia de perde-la pois sem ela ficaria sem saber o
que fazer a semana toda, por isso mantinha uma cópia sempre atualizada em lugar
seguro, sua vida estava anotada ali, tudo, tudo, tudo.
Já não se
lembrava quando havia começado a agendar cada passo que deveria dar no dia mas
sabia que tudo começara na escola quando uma professora passara um trabalho
para casa onde ela deveria dizer onde queria estar quando completasse 40 anos.
Desde então nunca se separou do rascunho que guardara para si para não se
esquecer das metas. Mas do comentário feito pela professora ela se lembrava:
Trabalho excelente! Era exatamente isso que Amanda queria uma vida excelente e
conforme os anos foram passando e a vida se tornando mais cheia de compromissos
Amanda adotou a agenda e nunca mais a abandonou.
As metas não
eram gananciosas nem muito diferentes das metas da maioria das pessoas, ela
queria apenas o que acreditava ser o mais importante e básico: entrar na
faculdade, ter uma lugar só para ela, conseguir um estágio, depois um emprego,
ser promovida, casar-se antes dos 30 anos, ter um filho antes dos 32, fazer uma
viagem internacional, ser promovida de novo, ter uma casa maior, escrever um
livro, aposentar-se, brincar com os netos, aprender a pintar, morrer. É verdade
que ninguém costuma colocar a morte como uma meta mas é que depois do “aprender
a pintar” ela já não sabia mais o que poderia querer então, como criança que
era, acreditou ser o suficiente para uma vida plena e terminou por ali, a professora
havia dito que era excelente, logo, deveria ser excelente mesmo.
Ao contrário
do que a maioria das pessoas pensavam, ao ver a agenda e a listinha de metas já
amarelada, tudo ia muito bem, sempre seguindo a agenda e as metas, nunca
passando uma meta na frente na outra tampouco fazendo coisas que não constassem
na agenda. Amanda já tinha conseguido atingir algumas conquistas e tudo dentro
do prazo graças a agenda e sua eficiência sem igual. Faculdade, ok! Lugar só
para ela, ok! Estágio, ok! Emprego, ok! Ser promovida, ok!
O casamento
era algo mais complicado mas Amanda sabia que conseguiria, já havia quase
conseguido alias, na faculdade, um dos colegas de sala era completamente
apaixonado por ela, mas namoro e casamento não constavam naquela etapa da sua
vida então ela nem pensou nessa possibilidade. Todos diziam que ela deveria ser
mais flexível mas Amanda nunca deu ouvidos, tudo estava excelente.
Numa manhã
como outra qualquer, Amanda foi chamada à sala da chefia e lá recebeu uma
noticia que estava nas metas, mas não era para acontecer assim tão cedo
tampouco antes de outras coisas na lista. A segunda promoção, viera realmente
como ela esperava, mas não era para ser daquele jeito ainda faltavam coisas a
serem feitas, mas ela não poderia recusar afinal o dinheiro a mais ajudaria na futura
meta “ter uma casa maior”.
Enquanto atravessa
a rua já próxima a sua casa, Amanda dava as boas novas à mãe pelo telefone,
ambas ficaram tão animadas que Amanda não percebeu o ônibus que se aproximava e
BUM! A ultima coisa que Amanda pensou era que mais uma das suas metas acabara de
sair da ordem correta da lista. Amanda nunca imaginou que a morte não sabia
ler.
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