terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Amanda


Tinha vinte e poucos anos, morava sozinha desde o dia que saiu da casa dos pais para cursar a federal que tanto sonhava, fora efetivada no estagio que fazia logo após a formatura e desde aquele dia se considerava independente. Tinha uma vida corrida, pouco tempo para ela mesma ou para os poucos amigos, precisava cumprir as metas que tinha estipulado para si mesma ainda na época da escola. Mantinha na agenda tudo o que deveria fazer durante o dia, em azul anotava os compromissos profissionais, em verde os pessoais, tudo muito organizado para ser o mais eficiente possível. Não saia de casa sem a agenda e tudo, tudo mesmo, estava anotado ali, nem cogitava a ideia de perde-la pois sem ela ficaria sem saber o que fazer a semana toda, por isso mantinha uma cópia sempre atualizada em lugar seguro, sua vida estava anotada ali, tudo, tudo, tudo.
Já não se lembrava quando havia começado a agendar cada passo que deveria dar no dia mas sabia que tudo começara na escola quando uma professora passara um trabalho para casa onde ela deveria dizer onde queria estar quando completasse 40 anos. Desde então nunca se separou do rascunho que guardara para si para não se esquecer das metas. Mas do comentário feito pela professora ela se lembrava: Trabalho excelente! Era exatamente isso que Amanda queria uma vida excelente e conforme os anos foram passando e a vida se tornando mais cheia de compromissos Amanda adotou a agenda e nunca mais a abandonou.
As metas não eram gananciosas nem muito diferentes das metas da maioria das pessoas, ela queria apenas o que acreditava ser o mais importante e básico: entrar na faculdade, ter uma lugar só para ela, conseguir um estágio, depois um emprego, ser promovida, casar-se antes dos 30 anos, ter um filho antes dos 32, fazer uma viagem internacional, ser promovida de novo, ter uma casa maior, escrever um livro, aposentar-se, brincar com os netos, aprender a pintar, morrer. É verdade que ninguém costuma colocar a morte como uma meta mas é que depois do “aprender a pintar” ela já não sabia mais o que poderia querer então, como criança que era, acreditou ser o suficiente para uma vida plena e terminou por ali, a professora havia dito que era excelente, logo, deveria ser excelente mesmo.
Ao contrário do que a maioria das pessoas pensavam, ao ver a agenda e a listinha de metas já amarelada, tudo ia muito bem, sempre seguindo a agenda e as metas, nunca passando uma meta na frente na outra tampouco fazendo coisas que não constassem na agenda. Amanda já tinha conseguido atingir algumas conquistas e tudo dentro do prazo graças a agenda e sua eficiência sem igual. Faculdade, ok! Lugar só para ela, ok! Estágio, ok! Emprego, ok! Ser promovida, ok!
O casamento era algo mais complicado mas Amanda sabia que conseguiria, já havia quase conseguido alias, na faculdade, um dos colegas de sala era completamente apaixonado por ela, mas namoro e casamento não constavam naquela etapa da sua vida então ela nem pensou nessa possibilidade. Todos diziam que ela deveria ser mais flexível mas Amanda nunca deu ouvidos, tudo estava excelente.
Numa manhã como outra qualquer, Amanda foi chamada à sala da chefia e lá recebeu uma noticia que estava nas metas, mas não era para acontecer assim tão cedo tampouco antes de outras coisas na lista. A segunda promoção, viera realmente como ela esperava, mas não era para ser daquele jeito ainda faltavam coisas a serem feitas, mas ela não poderia recusar afinal o dinheiro a mais ajudaria na futura meta “ter uma casa maior”.
Enquanto atravessa a rua já próxima a sua casa, Amanda dava as boas novas à mãe pelo telefone, ambas ficaram tão animadas que Amanda não percebeu o ônibus que se aproximava e BUM! A ultima coisa que Amanda pensou era que mais uma das suas metas acabara de sair da ordem correta da lista. Amanda nunca imaginou que a morte não sabia ler.

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