quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A Mudança e o Rabo Preso


A senhora Mudança era muito carismática, trazia sempre um brilho especial que iluminava os lugares que frequentava, algumas pessoas sentiam um certo medo quando ela começava a se aproximar, travavam, gaguejavam, recuavam ou suavam frio mas a grande maioria desejava que ela estivesse sempre por perto com seu perfume sempre fresco, aquela alegria e alto astral que contagiavam todos.
O senhor Rabo Preso era sério, rabugento na verdade, mas tinha uma lábia de dar inveja a vendedor de carro usado, quando saía de casa procurava ser sempre o mais simpático possível, sempre sorridente e prestativo, adorava fazer promessas mas sempre pedia algo em troca, as vezes prometia emprego para um, mas em troca pedia favores à família toda, chegou até mesmo a prometer a mesma vaga para mais de uma pessoa, prevaricava e muito.
Ambos eram muito bem casados, acreditavam que haviam encontrado sua alma gêmea a pessoa que compreendia e completava cada um deles. O muitas vezes ingênuo senhor Eu Acredito era o porto seguro de sua devota esposa senhora Mudança, já o senhor Rabo Preso era o marido ciumento da valente senhora Eu Prometo. Os quatro eram vizinhos e levavam vidas tranquilas se ajudando mutuamente – a não ser o senhor Rabo Preso que sempre pedia mais do que tinha a oferecer – sempre cooperando um com o outro mantinham o equilíbrio e seguiam seus caminhos, tudo seria perfeito não fosse o fenômeno que a cada quatro anos assombrava suas vidas, ninguém entendia corretamente o que acontecia mas a verdade é que a relação dos quatro vizinhos se tornava extremamente promíscua, virava carnaval, um dissimulado desfile de alegorias.
Neste período que durava alguns meses do ano numero quatro a senhora Eu Prometo mantinha relações extraconjugais “calientes” com o senhor Eu Acredito, já o senhor Rabo Preso abusava indiscriminadamente dos dois, mas principalmente da senhora Mudança fazendo com que ela o detestasse cada dia mais, mas este adorava-a, não que fosse algo sincero, ele apenas adorava aproveitar a popularidade da senhora Mudança, ele a prostituía, a oferecia em troca de favores, vendia como se ele fosse seu dono. Ela por sua vez odiava ser usada, assim desprezava as atitudes do senhor Rabo Preso, ele atrapalhava sua caminhada, não permitia que ela seguisse a via correta, não dava a liberdade que ela tanto precisava para existir, ditava o momento que ela deveria chegar e sair, sufocava-a.
No final deste período de quatro anos, o ano Um como costumavam chamar, o senhor Rabo Preso se recolhia, ficava quieto tentando se camuflar à paisagem, permanecia em sua confortável sala dando nós na coleira que havia usado para manipular a senhora Mudança, quase trinta nós que o fariam lembrar por quatro anos o quanto ele dependia de seus vizinhos: senhor Eu Acredito, senhora Mudança e de sua esposa Eu Prometo. Na verdade o senhor Rabo Preso sabia que sem eles não teria sucesso algum por isso usava-os e depois esquecia tudo o que havia falado, permanecendo o restante do período desmemoriado e na defensiva.
A senhora Mudança sabia que estaria sempre cativa enquanto o senhor Rabo Preso existisse, mas o senhor Eu Acredito, seu ingênuo marido, nunca a deixava desanimar. E assim todos seguiam contando o tempo de quatro em quatro anos.

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