A senhora
Mudança era muito carismática, trazia sempre um brilho especial que iluminava
os lugares que frequentava, algumas pessoas sentiam um certo medo quando ela
começava a se aproximar, travavam, gaguejavam, recuavam ou suavam frio mas a
grande maioria desejava que ela estivesse sempre por perto com seu perfume
sempre fresco, aquela alegria e alto astral que contagiavam todos.
O senhor Rabo
Preso era sério, rabugento na verdade, mas tinha uma lábia de dar inveja a vendedor
de carro usado, quando saía de casa procurava ser sempre o mais simpático
possível, sempre sorridente e prestativo, adorava fazer promessas mas sempre
pedia algo em troca, as vezes prometia emprego para um, mas em troca pedia
favores à família toda, chegou até mesmo a prometer a mesma vaga para mais de
uma pessoa, prevaricava e muito.
Ambos eram
muito bem casados, acreditavam que haviam encontrado sua alma gêmea a pessoa
que compreendia e completava cada um deles. O muitas vezes ingênuo senhor Eu
Acredito era o porto seguro de sua devota esposa senhora Mudança, já o senhor
Rabo Preso era o marido ciumento da valente senhora Eu Prometo. Os quatro eram
vizinhos e levavam vidas tranquilas se ajudando mutuamente – a não ser o senhor
Rabo Preso que sempre pedia mais do que tinha a oferecer – sempre cooperando um
com o outro mantinham o equilíbrio e seguiam seus caminhos, tudo seria perfeito
não fosse o fenômeno que a cada quatro anos assombrava suas vidas, ninguém
entendia corretamente o que acontecia mas a verdade é que a relação dos quatro
vizinhos se tornava extremamente promíscua, virava carnaval, um dissimulado
desfile de alegorias.
Neste período que
durava alguns meses do ano numero quatro a senhora Eu Prometo mantinha relações
extraconjugais “calientes” com o senhor Eu Acredito, já o senhor Rabo Preso
abusava indiscriminadamente dos dois, mas principalmente da senhora Mudança
fazendo com que ela o detestasse cada dia mais, mas este adorava-a, não que
fosse algo sincero, ele apenas adorava aproveitar a popularidade da senhora
Mudança, ele a prostituía, a oferecia em troca de favores, vendia como se ele
fosse seu dono. Ela por sua vez odiava ser usada, assim desprezava as atitudes
do senhor Rabo Preso, ele atrapalhava sua caminhada, não permitia que ela seguisse
a via correta, não dava a liberdade que ela tanto precisava para existir,
ditava o momento que ela deveria chegar e sair, sufocava-a.
No final deste
período de quatro anos, o ano Um como costumavam chamar, o senhor Rabo Preso se
recolhia, ficava quieto tentando se camuflar à paisagem, permanecia em sua
confortável sala dando nós na coleira que havia usado para manipular a senhora
Mudança, quase trinta nós que o fariam lembrar por quatro anos o quanto ele
dependia de seus vizinhos: senhor Eu Acredito, senhora Mudança e de sua esposa
Eu Prometo. Na verdade o senhor Rabo Preso sabia que sem eles não teria sucesso
algum por isso usava-os e depois esquecia tudo o que havia falado, permanecendo
o restante do período desmemoriado e na defensiva.
A senhora Mudança
sabia que estaria sempre cativa enquanto o senhor Rabo Preso existisse, mas o
senhor Eu Acredito, seu ingênuo marido, nunca a deixava desanimar. E assim
todos seguiam contando o tempo de quatro em quatro anos.
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