Tá vamos lá
colocar as idéias no lugar, ou pelo menos tentar organizá-las de uma forma que,
no mínimo, fiquem em linha mesmo que fora de ordem, porque do jeito que estão
uma sobre as outras alguma vai acabar morrendo sufocada.
Há uns dias eu
estava lendo uma matéria sobre abelhas. Num daqueles momentos culturais que
você fica na expectativa de poder mostrar para alguém todo seu conhecimento
sobre determinado assunto. No meu caso esse assunto só surgiria se eu, por
algum motivo qualquer, encontrasse um apicultor, já que eu não conheço nenhum
acho que eu acabaria engavetando a matéria. Enfim, a matéria dizia que nos EUA
40% das abelhas tinham sumido de uma maneira que ninguém conseguia explicar,
até que cientistas descobriram que as abelhas foram infectadas por um vírus que
afeta 65 dos seus genes fazendo com que elas fujam das colmeias.
Pronto. Foi ai
que se deu a m***a. Foi só ler isso que o meu fluxo de pensamento disparou
incontrolavelmente. Imaginei inúmeras possibilidades de paradeiro para as
abelhinhas, inclusive novos ofícios para elas. Abaixo segue um exemplo do meu
épico imaginário abelhudo. Zummmm.
Acre, outubro
de 2009.
No seu
escritório pomposo decorado pelas mais habilidosas abelhas operarias, sentada
em seu confortável trono, bebendo o néctar das flores mais belas da região ao
som de Kid Abelha e ladeada pelos zangões mais admiráveis da espécie está ela:
a rainha da colmeia número 1. Observando
seu relatório semanal sobre a produtividade da colmeia e as eventuais baixas
sofridas durante a labuta ela nota a gigante queda na produtividade e o
inexplicável sumiço de seus servos. Irritadíssima ela manda chamar uma operária
para dar maiores explicações.
Zumbido, a
abelha operária mestre de obras da colmeia, entra tremendo das antenas ao ferrão
e sem saber o que dizer, para na frente da rainha já se imaginando uma abelha
desempregada tendo que viver de bicos no jardim de algum humano insensível que
pode matá-lo a qualquer momento sem ao menos perguntar se ele prefere morrer à
chineladas ou com um banho de inseticida. As imagens de uma vida marginal
povoam a cabeça dele. Já se vê tendo que beber a água com açúcar que os humanos
preparam para os beija-flores, sendo surrado por um beija-flor valentão que se
sentiu ofendido por ter seu belo bebedouro profanado por um inseto. Imaginou os
dias de chuva, ele humildemente se aconchegando na folha de alguma flor,
cobrindo a cabeça com um papel de bala. Um grito interrompe seu devaneio.
Uma discussão
acalorada sobre de quem é a culpa, começa. Zumbido já sem argumentos se cala e
ouve, ouve, ouve, ouve, até que sua mente se desliga do assunto e o transporta
para sua infância, quando na academia preparatória de operarias ele se vê
sentado na carteira anotando tudo o que o professor diz, se lembra das aulas
praticas de polinização quando eles treinavam em flores de plástico, já que a
rainha não permitia que novatos tivessem contato com flores reais. Se lembrou
da primeira fez que polinizou uma flor de verdade: todos os seus colegas de
turma em linha, cada um em sua respectiva flor, a pressão psicológica que o
supervisor fazia, as orientações passadas aos berros, no final a emoção foi
tanta que quando voltou para a colmeia errou a entrada e se estabacou na parede
caindo no chão. O dia da entrega dos diplomas também voltou do passado para
fazer Zumbido se comover, lembrou de todos os seus amigos ali com ele ansiosos
aguardando o momento em que chamariam seus nomes para finalmente receberem seus
chapéus de obras, viu na platéia todos os aspirantes a operaria sonhando com o
dia que o momento deles também chegaria.
A ultima coisa
que Zumbido se lembrava de ter ouvido antes de ser atirado da sala porta a fora
pelos zangões, era a rainha dizendo que ele tinha o prazo de uma semana para
descobrir o que estava acontecendo. Mas por onde começar? As abelhas fujonas
não deixavam pistas, como ele saberia o que estava acontecendo? Resolveu que
iria tomar alguma coisa no bar da colmeia para tentar colocar as idéias no
lugar.
Muitos Ice
Néctar depois e ele continuava lá, sentado com seu capacete vermelho, o capacete
do mestre de obras, o capacete que o diferenciava das outras simples
operarias; apoiado no balcão se
perguntando o porquê desse mistério estar acontecendo bem na colmeia dele,
seria um complô? Alguma rainha vizinha estaria armando para derrubar a imagem
de colmeia dos sonhos que ele ajudou a construir? Tanto faz, o que ele queria
agora era só poder beber em paz e imaginar como seria a vida sem uma asa, já
que se ele não descobrisse o que estava acontecendo estaria desempregado tendo
que vender uma das suas asas no mercado negro para poder se sustentar.
Mas como beber
em paz com aquele zunzunzum vindo da mesa atrás dele? Cheio de coragem ele se
levanta e vai cambaleando tirar satisfações. Quando chega bem perto, olha para
a mesa e vê a operaria mais marrenta da colmeia, a coragem some todinha levando
com ela a audição, a visão e o equilíbrio. Zumbido cai de cara na mesa.
Apagado. Imóvel.
Ao redor do
corpo estirado na mesa do bar vai se juntando alguns curiosos que não resistem à
tentação de fazer seus comentários sobre o porquê da pobre abelha ter tomado um
porre tão grande, mil possibilidades surgiram. Tinha abelha achando que era
bebedeira por dor de cotovelo, outras dizendo ser coisa de vagabundo mesmo,
alguns acreditavam que ele estava sobre efeito da nova planta que surgira na
região, teve até uma outra abelha bêbada dizendo que tudo aquilo era só ilusão
de ótica; mas tanto faz nenhuma dessas possibilidades faria parte das
lembranças de Zumbido quando ele acordasse no outro dia.
Lentamente as
imagens começaram a se formar na frente do ressaqueado Zumbido. Os seus olhos
quase fechados não reconheciam a paisagem ao redor, tudo era muito estranho e
parecia estar em
movimento. Alguns minutos se passaram quando ele finalmente
percebeu que estava no almoxarifado da colméia agarrado na abelha de pelúcia
que eles usavam como treinamento para as continências que deveriam ser
prestadas à rainha, já que ela pessoalmente não participava desses treinamentos
porque achava muito insignificante para alguém da realeza.
Ainda
cambaleando Zumbido caminha para casa tentando esconder o rosto com o capacete,
situação que causava uma falsa sensação de proteção pois na realidade todos
podiam reconhecê-lo já que seu nome estampado no capacete.
Já em casa Zumbido tentava lembrar tudo o que
tinha acontecido no dia anterior. A única coisa que ainda estava na sua cabeça,
fora a dor alucinante que sentia, era uma frase que ouviu enquanto estava caído
na mesa do bar, uma das tantas abelhas que estavam comentando as prováveis
causas do porre tinha se referido a uma nova planta que surgira na região e que
ninguém tinha visto anteriormente. Havia rumores de que uma família recém
chegada a cultivava no quintal, mas tudo era apenas especulações, de certo
mesmo só o desaparecimento das abelhas e a dor de cabeça que teimava em não
parar.
Um banho, um
cafezinho e três comprimidos depois Zumbido já estava refeito, pronto para
procurar pistas e resolver de vez o mistério. Determinado ele se levanta do
sofá e sai pela colmeia a procura de mais informações, pelo caminho encontra
varias abelhas que provavelmente estavam no bar no dia anterior, os risinhos
contidos e os cochichos o envergonham mas ele não se deixa abater pois em
poucos dias seria um herói, seria o Herói o único e inigualável com H
maiúsculo.
Apesar de não
se lembrar corretamente de quem havia falado sobre a tal família nova Zumbido
decide que é essa abelha que deve ser encontrada primeiro, é ela a chave para
desvendar o mistério. Voltando ao bar Zumbido, tentando não se abalar com as
piadinhas do atendente sobre seu estado na ultima noite, sabatina o pobre
Barbee sobre quem estava no bar naquela noite, uma lista extensa surge, a
tarefa parece ser mais difícil do que Zumbido imaginava, uma semana pode não
ser o suficiente, um calafrio percorre sua asa esquerda.
Muitas das
abelhas que Zumbido deveria encontrar estavam em campo coletando pólen, apenas
duas estavam na colmeia, dois zangões. Seria difícil ter acesso à eles já que,
pertencendo ao harém da rainha, estavam sempre separados muito bem protegidos do
restante das simples abelhas operarias. Depois de longas horas andando em
círculos pensando em como conseguiria conversar com os zangões, Zumbido se
lembra da rainha de pelúcia que estava abraçando pela madrugada e corre para o
almoxarifado para pegar o que seria seu passaporte.
Em casa com a Rainha
de pelúcia Zumbido começou a preparar seu disfarce. Usando seu aspirador de pó
Abelhudo 6000 Zumbido esvazia a rainha de pelúcia e, antes que perdesse a
coragem, entra no lugar do recheio. Essa situação fazia Zumbido se lembrar de
uma historia assustadora que contavam às abelhinhas, a história da abelha-má
que comia as abelhas desobedientes que seguiam pelo caminho errado. A lembrança
arrepiou as asas de Zumbido que logo voltou a realidade e começou a andar em
direção ao harém da Rainha, mais conhecido como: “covil dos marombadão sem
ferrão”.
Pelo caminho
Zumbido começou a sentir uma coceira tão grande que o obrigou a se esfregar em
um dos pilares do corredor de acesso ao harém, quem via podia jurar que a
rainha estava fazendo a dança do acasalamento, sem contar o sapato de salto alto,
altíssimo aliás, que incomodava Zumbido mais do que as cantadas das abelhas
operárias que consertavam as rachaduras da colmeia.
Na porta do
harém Zumbido respirou fundo e entrou. Apesar de os zangões serem do tipo supermalhados
que só notavam a diferença entre um topete penteado ou não, Zumbido sentia
tanto medo de ser descoberto que nem notou que vários zangões assoviavam e se
aproximavam pensando ser ele a Rainha. Quando um dos zangões encostou a asa na
sua Zumbido pulou num susto e pediu que chamassem os zangões numero 5 e 6. Quando
estes apareceram Zumbido tratou logo de perguntar, indiretamente, o que queria
saber, a situação estava ficando constrangedora de mais para que ele
permanecesse muito tempo naquele lugar e quando notou que realmente os zangões
não sabiam de nada já que sempre se sentavam num lugar isolado do bar, saiu
dali o mais rápido que pode alegando fortes dores na cabeça.
Tentando não
perder tempo Zumbido se desfez da roupa de Rainha e correu para a pista de
pouso das abelhas operarias. A espreita ele esperava que as abelhas com quem
deveria falar chegassem e discretamente escondido em um cantinho chamou uma
delas para uma conversa. Ao longo do papo Zumbido percebeu que não seria tarefa
fácil arrancar as informações que precisava, não importava a abelha tampouco o
lugar onde conversassem cada uma delas apontava outra abelha como fonte
fazendo-se de inocente ou desentendida.
O prazo estava
se esgotando e Zumbido ainda não havia descoberto nada, enquanto voava pela
floresta à procura de um buraco de árvore para chamar de lar assim que a abelha
Rainha o expulsasse da colmeia numero 1, Zumbido pensava se poderia ter deixado
escapar alguma pista, qualquer coisa, mas nada passava por suas antenas. Sentado
no galho que amanhã chamaria de alpendre Zumbido sente uma movimentação
estranha mas quando percebe já esta no chão embaixo de uma abelha encapuzada.
Depois de
convencer a abelha ninja a deixa-lo sentar Zumbido, ainda tentando entender o
que estava acontecendo, começa a ouvir o que parecia ser delírios de um bêbado,
mas como tudo o que estava acontecendo não era lá muito normal mesmo ele ouve
tudo quase em silêncio. O perigo dentro da colmeia era muito grande para que a
pequena ninja relatasse à Zumbido tudo o que sabia, o ataque foi a única opção,
radical mas era uma opção, que sobrara a ela para manter a colmeia longe da
histeria coletiva. A história era louca mas fazia sentido.
Segundo a
ninja poucas abelhas sabiam mas, próximo à colmeia, existia um vilarejo bem
pequeno onde uma família de botânicos acabara de se mudar, eram três pessoas e
muitas plantas, uma delas desconhecida na região viera com a família na
mudança, a muda havia se adaptado bem a região se transformado numa bela árvore
cheia de flores com um cheiro adocicado que atraia as abelhas que se
aventuravam a voar além do território permitido pela Rainha. Depois de
experimentar tais flores as abelhas ficavam transtornadas e voavam para cada
vez mais longe desaparecendo. Perturbado por tantas informações Zumbido não
sabia se podia confiar em um estranho vestido como um maluco, mas como não
restavam muitas opções se arriscou indo conferir pessoalmente as informações.
Quando
encontrou o vilarejo não foi difícil identificar a casa que deveria espionar,
ela mais parecia uma ilha verde no meio da clareira aberta pelo pequeno
vilarejo, Zumbido não teve duvidas que ali estava a chave para solucionar o
mistério da colmeia numero um. Se aproximando com bastante cuidado Zumbido pode
perceber que a família estava envolvida na analise de uma planta que ele nunca
vira antes, a curiosidade tomou conta do pequeno herói que ao se aproximar mais
do botânico pai recebeu um tapa, que quase o fez perder os sentidos – seria o
sinal de boas vindas dos humanos? Zumbido duvidava muito dessa ideia que lhe
ocorreu – que fez Zumbido cair nas folhas de uma árvore estranha mas muito
cheirosa que ele não conhecia.
Entorpecido
pelo cheiro Zumbido quase se rende à vontade de experimentar a flor mas se
lembra de todos os problemas que ela vem causando e se afasta o mais rápido que
pode ficando distante apenas observando a árvore. Alguns segundos depois
Zumbido percebe a chegada de uma abelha que, quase imediatamente, se dirige às
flores da árvore misteriosa, ao experimenta-la cai ao lado da árvore, Zumbido
voa para ajuda-la mas ao pousar ao lado da abelha desmaiada ela se levanta e
começa a voar rapidamente em direção ao outro lado da floresta.
Zumbido segue
a abelha fujona que alguns metros depois para sendo recebida por um enxame de
abelhas que pareciam estar com o mesmo transtorno que ela, neste momento
Zumbido percebe ter encontrado as abelhas desaparecidas, mas o que fazer para
leva-las de volta? Como saber o que esta acontecendo com elas? Isso ele só
saberia se entrasse no grupo e foi o que ele fez, imitando o comportamento das
outras abelhas Zumbido se misturou e começou a fazer perguntas.
A noite ele já
tinha descoberto tudo o que precisava sobre o caso. As abelhas que
experimentavam a flor desconhecida ficavam tão confusas que, ao acordar,
acreditavam ser borboletas e assim não voltavam para a colmeia ficando todas
elas juntas à colônia de borboletas que habitavam o outro lado da floresta.
Zumbido voltou
para a colmeia numero um o mais rápido que pode sem saber se o que sentia era
felicidade por descobrir o que estava acontecendo ou medo já que não sabia o
que fazer para recuperar as abelhas fujonas. Na sala do trono Zumbido revelou
todos os detalhes do grande mistério à Rainha pedindo que ela convocasse uma
reunião com todas as rainhas vizinhas.
No dia
seguinte toda a realeza da região estava presente na colmeia numero um, foram
servidas as melhores geleias reais durante as discussões acaloradas que seguiram
por toda a manhã. A destruição da árvore parecia ser a única solução segura
para que nenhuma outra abelha fosse infectada, mas e quanto as abelhas com
transtorno de identidade? Ninguém sabia o que fazer.
Ao entardecer
uma nuvem de abelhas, as mais corajosas operarias de toda a região, comandadas
por Zumbido voaram até a árvore misteriosa e destruíram-na com seus ferrões e
melaço trazido das colmeias. Chinelada, jatos de veneno, chinela de novo, mais
veneno, nada conseguia parar as abelhas revoltadas. A família avaliou o estrago
feito mas já não tinha mais jeito a macieira não tinha mais recuperação, uma
árvore tão incomum na região não deveria ter um fim trágico daqueles, era
única, um hibrido resistente ao calor presente de quinze anos para a filha, morta
a macieira estava morta.
Na colmeia
numero 1 Zumbido foi aclamado como a maior abelha de todos os tempos, a mais
valente, a mais inteligente, a mais heroica, chegou a receber a medalha Melada,
maior prova de reconhecimento entre as abelhas, seria o dia mais feliz de sua
vida não fossem as abelhas infectadas que não se recuperavam. Horas, dias,
semanas, meses se passavam e nenhuma abelha se recuperava, convocaram abelhas
médicas, curandeiras, até um gambá se propôs a ajudar, mas nem sua bomba de
fedor ajudou na recuperação.
Hoje existe
uma nova espécie na floresta: as Borbobelhas. Abelhas que pensam ser borboletas
ou borboletas que parecem abelhas? Tanto faz! O importante é que quem passa por
elas pode ver como são felizes, voando como lindas folhas que o vento faz
dançar pela floresta, mas cuidado com o guardião das Borbobelhas: Zumbido. Ele não
esta de brincadeira. Semanalmente o pequeno herói faz ronda no vilarejo para
conferir se não há nada de novo.
No vilarejo um
caminhão de mudanças para e uma família desce, talvez Zumbido tenha novidades
na próxima ronda, ou não.
(Conto infantil começado em outubro de 2009, esquecido por três anos no e-mail e terminado em janeiro de 2013)
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