Quem já tomou
um porre sabe, e quem nunca tomou ainda vai saber, a ressaca transforma. O dia
seguinte a um porre bem tomado deixa o mais cafajeste dos seres um santo, o
abrir de olhos no dia seguinte é cheio de juras – não juras de amor, mas sim de
redenção – aquele momento que cada um compartilha agarrado ao vaso sanitário vem
acompanhado de sussurros e gemidos carregados de “eu nunca mais bebo tanto
assim na minha vida” e vez ou outra, caso a memória não ajude, é no vaso sanitário
que descobrimos se a caipirinha era de limão ou morango.
A alimentação é
leve, quase uma penitencia, a conversa – caso haja – é delicada num tom de voz
quase inaudível e numa rouquidão suplicante, a cabeça pulsa mais que o coração
e este, coitado, lamenta não poder parar de trabalhar para curtir a santificação
de seu hospedeiro proporcionada pela bebida. O arrependimento pela noite desenfreada
faz da cama o altar onde o café da manhã é servido na tentativa de amansar uma
esposa ou marido sedento por vingança que durará a semana inteira e só deixaram
de esfregar na sua cara a vida mundana da noite anterior quando a próxima ressaca
chegar. O dia da ressaca é o dia que se
passa na cama, no escuro, em silencio, em juras de nunca mais se repetir. Mas uma
coisa eu afirmo: se até o mar tem ressaca eu também quero ter!
E quem disse
que desse mal só padece os humanos? Eu sei que até os Santos, aqueles que a
igreja católica reconhece, tem seus dias de ressaca. Tanto é que Santo Antonio
só ajuda os solteiros se for amarrado de cabeça para baixo o que o impede de
tomar seu “elixir” diário, para se ver livre das amarras e poder se deleitar
com quentão ele prontamente atende o clamor das alma solitárias e as une a
outras almas solitárias, é bem verdade que algumas vezes ele faz isso sob
efeito da ressaca o que explica muitas uniões.
Mas a minha
ressaca preferida é a de São Pedro, ah essa sim vale cada gole. Cansado de
mandar aquele sol de rachar ou aquelas chuvas que alagam avenidas, ele toma seu
néctar dos deuses e no dia seguinte nos cobre com a dádiva de um dos seus dias
de ressaca. Os dias de céu cinza, vento delicado porém gelado, aquela chuvinha
mansa que não molha nem embaixo das árvores mas também não cessa, parece que o
dia nos convida a desacelerar, sentar próximo ao balcão e tomar uma boa dose de
tequila só para esquentar, Talvez por isso São Pedro seja o Santo mais lembrado
nos dias de calor e também nos de frio, é intenso. De médico, louco e santo
todo mundo tem um pouco, por isso sigo devota de São Pedro e seus dias cinzas,
de chuva fina e vento carinhoso.
19 de março de 2013. (um daqueles dias que São Pedro
esta de ressaca)
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