terça-feira, 9 de abril de 2013

Collor e o Facebook

Não, isto aqui não se trata de um tutorial sobre como trocar a cor do Facebook. Mas creio que o assunto não deixe de ser um vírus, assim como a promessa de troca da cor da rede social. Com o advento do nosso mais novo amiguinho de infância o “Face”, todos nós – me incluo nessa também, afinal, divulgo o que escrevo no Facebook – passamos a ter mais visibilidade, eu diria, não só da nossa vida mas também do importante que tudo: a vida do outro. Quem tinha algo a dizer mas não sabia onde ou como, encontrou no Face o lugar perfeito para expor suas ideias, já quem não tinha muito a dizer também. Essa ferramenta virtual incutiu em seus usuários um certo vírus do  “pseudo-ativismo”.
            Atualmente vemos uma enxurrada de postagens sobre Feliciano, que veio a afogar a anterior enxurrada Renan Calheiros. O que elas tem em comum? O vírus do pseudo-ativismo. Ele vem contaminando a todos sem distinção de raça, cor, credo ou gênero. Hoje todos amam os animais e a natureza, protegem as crianças e as mulheres, fazem valer seus direitos de cidadão e lutam pela igualdade em todo os seus sentidos, todos se transformaram em ativistas das quatro paredes, defendem o que acreditam e acreditam no que defendem com todas as forças, mas só quando estão conectados ao Facebook e à falsa proteção que acreditam ter na internet.
            Dar a fotografia, que nem precisa ser verdadeira, à tapa é muito mais fácil do que dar a cara, propriamente dita, à tapa ao defender um ponto de vista e uma posição política, por isso é tão cômodo se deixar tomar pelo vírus do pseudo-ativismo. Em 1992 os caras-pintadas foram os protagonistas de um marco da historia não só do Brasil mas de toda a America Latina, foram aquelas pessoas que saíram às ruas com os rostos pintados e defendendo o que acreditavam ser certo, que pressionaram o governo pelo Impeachment do então presidente Fernando Collor. Mas o que isso tem a ver com o Facebook e o pseudo-ativismo? A resposta é: Tudo. Collor deu um azar sem fim em não ter, naquela época, o Facebook como aliado, neste caso os caras-pintadas não teriam existido e nós teríamos ficado em casa sentados na frente do computador, postando frases de efeito e aguardando, pacientemente, que ele se comovesse e renunciasse à presidência. Assim ele teria cumprido os quatro anos de mandato sem maiores problemas, quiçá seria reeleito. O máximo que nós faríamos, se em 1992 existisse o Facebook seria, talvez, trocar a foto de perfil por uma imagem da bandeira do Brasil e nada mais, seria o vírus do pseudo-ativismo agindo e nos fazendo pensar que éramos cidadãos conscientes.
            Para a sorte dos políticos é que tanto no mundo virtual quanto no mundo real nós temos memória curta e o Collor segue com sua vida política praticamente inabalada, sendo senador por Alagoas, já para o Feliciano é só questão de tempo para que outro movimento virtual surja e ele seja esquecido assim como Renan Calheiros foi.
            Para a sorte dos caras-pintadas o pseudo-ativismo é doença novinha, o mal do século XXI, graças a isso eles entraram para a historia e têm historia para contar. Quanto a nós que já fomos infectados pelo pseudo-ativismo, bem, acho que nosso fim será deprimente, estamos condenados a marcar marchas pela cidadania – fora do mundo virtual, sabe, aquelas onde as pessoas se reúnem e fazem barulho de verdade, dizem do que pensam e se mostram, lembra o que é isso? Mundo real? – que contarão com alguns poucos gatos pingados, praticamente sem força alguma. A cura para essa doença todos nós conhecemos, mas o problema é que fora das quatro paredes, lá no mundo não virtual, onde a vida acontece, não tem ar condicionado e não dá para baixar um filminho ao mesmo tempo.

3 comentários:

  1. De um dos (infelizmente) contaminados: - GENIAL!

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    1. Você sabe que eu sempre leio e também compartilho no twitter/facebook, pois o que é bom tem que ser visto, mesmo que apenas pelos meus poucos contatos! :D

      Um viva ao Aldeia e a você, dona autora!

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