quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Rápido, rasteiro e... sem graça.

  Algumas coisas precisam passar duas ou mais vezes na nossa frente para que possamos dar atenção, foi isso que aconteceu. Eu estava lendo uma historinha de princesa para minha priminha quando ela disse: “peraí que vou procurar uma menor”; concordei, estava com pressa e precisa voltar para casa. Outro dia, mexendo na rede social vi que alguém tinha curtido uma página sobre frases curtas, foi nesta hora que me dei conta de quão vazias as atitudes têm se tornado.


Atualmente tudo deve ser o mais rápido e eficaz possível. Todos querem impressionar com uma única foto em sépia, mostrar profundidade de pensamento com, apenas, uma frase de preferência menor que uma linha, ler a manchete e deduzir o conteúdo da matéria inteira. Hoje me perguntei o porquê, o estranho é que demorei a encontrar a resposta.

Assim, propus uma reflexão a mim mesma: será que as coisas assim tão curtas e rápidas funcionam? Conclui que inicialmente sim. Já me impressionei com lindas fotos e micro legendas, já deduzi que algumas pessoas seriam um poço de cultura só por ter lido uma de suas frases que facilmente caberiam em uma caixa de fósforos e ainda deixaria espaço para os palitos. Mas outra conclusão me ocorreu tão rapidamente quanto a primeira e essa perdurou: isso não basta.

A historinha de princesa foi contada em tempo recorde, talvez minha prima até se lembre dela quando crescer, mas qual era a cor do vestido da princesa? Ela tinha coroa? O sapatinho era bonito? Ela tinha um bichinho de estimação? O castelo era grande e cheio de torres? Tinha uma ponte para entrar e sair dele? Não sei, não couberam detalhes, os nuances se perderam. Situação idêntica acontece com as pessoas, àquelas frases impressionantes são esquecidas assim que outra aparece e toda aquela aparente inteligência dá lugar a algo que logo será esquecido (de novo) e o poço de cultura vira poça. As fotos lindas em preto e branco ou sépia que tentam te conquistar conquistam momentaneamente, mas a legenda não passa de uma cópia (resumida) das ideias de outro alguém e pessoalmente a imagem criada não se sustenta.

Tal superficialidade impregnou no nosso cotidiano, quase como uma doença assintomática está diariamente nas nossas vidas e nem nos damos conta. Os relacionamentos cada vez mais frágeis acabam ao primeiro sinal de conflito, muitos casamentos já não  completam bodas alguma, claro que ninguém precisa ficar com outra pessoa que não queira, mas vivemos a era de plástico onde ninguém tenta consertar o que quebrou, é muito mais fácil trocar logo de uma vez e partir para outra como numa linha de produção. “Você não me disse o que eu queria ouvir, vou descurtir você e procurar outra pessoa”, estamos ficando mecânicos, levemente insossos, quase como comida congelada estamos embalados em porções individuais. Para que comer no restaurante? Pedimos em casa daí eu como no sofá mexendo no celular e você na mesa usando o notebook, quem sabe conversamos no chat. É mais rápido e prático, mas também é mais sem graça, sem vida e sem criatividade.

Ler uma história curta, resumir uma ideia numa frase curta ou ter uma conversa curta serve para que? Passar mais tempo no trânsito? Dormir mais? Trabalhar mais? Viver menos! A expectativa de vida tem aumentado, mas a vida tem diminuído. Perder os detalhes de cada momento é perder a chance de viver mais, de se encher de sentimentos, de ter conteúdo. Conhecimento só vem com horas de boas leituras, conversas, cores e detalhes. 
















Alguém leu até o fim? ;)

3 comentários:

  1. Têm toda razão Patrícia tudo parece tão superficial...! Como sou evolucionista (espírita) acredito que esse problema ocorre para nos "testar", é uma fase da evolução humana, e vai passar com o tempo, como passou a era das "trevas" na Idade Média, por exemplo. A fase atual é do auge do materialismo que relega a afetividade para segundo plano.

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    1. Tomara que passe mesmo João, as vezes me parece que o ser humano tem se deteriorado. Os relacionamentos e o convivo cada vez mais difíceis me parece que estamos cada vez mais individualistas.

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